Ser bela é ser jovem? Mulheres mostram que idade não deve definir a forma como se colocam no mundo

Os saberes femininos na maturidade se renovam. São mais seletivos e os modos de tratar o corpo e a beleza têm seu tempo de escolha. É a hora de ser generosa com você mesma

por Lilian Monteiro 16/08/2015 08:48

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Reprodução Youtube - Trailer Iris
%u201CVocê pode ser atraente em qualquer idade. Tentar parecer jovenzinha quando você não é te faz parecer ridícula" (foto: Reprodução Youtube - Trailer Iris)
Mulher de negócios, designer de interiores e ícone da moda, a novaiorquina Iris Apfel, de 93 anos, é símbolo contemporâneo da mulher que sabe envelhecer. Conhecida pelo estilo nada convencional, ela é daquelas pessoas que não permitem que a idade defina seu jeito de vestir, agir e se comportar. Com personalidade e atitude, essa senhora é admirada ao redor do mundo por ser ela mesma, sem se importar com o que os outros vão pensar. Com língua afiada e humor ácido, conhecido por frases memoráveis, ela se define como uma “estrela geriátrica” e diz concordar com a estilista francesa Coco Chanel, uma das personalidades mais importantes do século 20, que declarou: “Nada faz uma mulher parecer tão velha quanto tentar desesperadamente parecer jovem”.

Para Iris, “você pode ser atraente em qualquer idade. Tentar parecer jovenzinha quando você não é te faz parecer ridícula”. Com roupas coloridas, batom vermelho, acessórios e mais acessórios, ela é tão autêntica que virou modelo, atua em campanhas de marcas de moda internacionais, lançou linha de maquiagem com uma gigante do meio, além de assinar coleções de joias, bolsas, óculos e sapatos para grifes conceituadas. É tão fascinante, que foi tema da exposição no Costume Institute do Metropolitan Museum de Nova York, intitulada Rara Avis: Selection from the Iris Barrel Apfel Collection. De tão encantadora, foi parar no cinema. Foi lançado em abril o documentário Iris, que retrata sua vida, dirigido por Albert Maysles, diretor de clássicos como Gimme Shelter e Grey Gardens. Na telona, para confirmar sua autenticidade, ela nos brinda com mais uma de tantas lições: “Sabia que jamais seria bonita, mas tinha um trunfo mais importante: estilo. Basta ter atitude e ser você mesmo”. Sábia, casada com Carl Apfel, de 97, há mais de 60 anos, Iris não abre mão de ser quem é.

Veja trailer de Iris:




Arte sobre foto de Amy Sussman/AFP - 22/5/12
"Envelhecer não é para maricas" - Iris Apfel, de 93 anos, ícone da moda novaiorquina, com seu humor ácido (foto: Arte sobre foto de Amy Sussman/AFP - 22/5/12)
Ela é uma personagem transgressora por subverter o universo da moda, onde o que tem valor é o jovem e o belo. Ela é, no mínimo, desafiadora. Mas há muitas mulheres por aí que desconcertam as “regras” ao mostrar a beleza madura: Fernanda Montenegro, Natália Timberg, Judi Dench, Betty White, Rosamaria Murtinho, Elke Maravilha, Helen Mirren, Joan Didion, Laura Cardoso... E não precisam ser famosas. Pode ser a sua vizinha, a colega do salão, a avó, uma senhora que passeava pela praça exalando exuberância.

Por impactar, Iris foi escolhida para ser o fio condutor da reportagem que propõe discutir hoje, além de, consequentemente, estimular e reverenciar a beleza da maturidade, que se apresenta de várias maneiras, não só a estética. Selma Peleias Felerico Garrini, doutora em comunicação e semiótica e pós-doutoranda em comunicação pela Universidade de São Paulo (ECA-SP), professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudiosa e pesquisadora do corpo feminino, diz que, de acordo com cada década, há uma medida.

Para uma geração, a beleza pode ser a inteligência, para outra o valor muda. “Quem está certo? Não sou Deus e não farei juízo de valor.” Hoje, certamente, o universo da beleza é diferente. A mulher de 50 anos não é avó, mas tem filho adolescente e “você é obrigada a ser jovem, bela, inteligente, rica e bem-sucedida. As 15, você precisa ser magra e bela; aos 30, bem-sucedida e bela e, aos 50, jovem e bela. Infelizmente, a mulher foi criada para esse universo, como o homem para o de ser bem-sucedido. Agora, o culto ao corpo é uma necessidade. Um investimento que não tem fim e que se tornou capital como o carro. Se tem o corpo bonito, é bem-sucedido. Até o cabelo branco virou moda, mas desde que seja na Meryl Streep, no filme O diabo veste Prada, ou em Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI)”.

VIVÊNCIA
Selma Felerico diz que a beleza na maturidade é o momento do “corpo aceito”, aliás, tema de uma de suas pesquisas. “É o momento do fim das privações, de viver o que construiu em sua cabeça. Ir para a Itália e comer massa sem culpa. São pessoas seguras em todas as áreas da vida e pouco influenciáveis. Mulheres fortes diante de um discurso midiático avassalador.” Para a pesquisadora, há um ideal de beleza predominante no imaginário feminino imposto pela mídia. E, de acordo com o padrão eleito pela mulher, surgem novos hábitos sociais e práticas de consumo, e quebrar, encarar, confrontar tais regras é para as tenazes.

Para Selma, a mulher na maturidade é maior, se cuida, se permite e tem mais tempo para olhar para si. “É o momento de se dar ao luxo de ser mais generosa com ela mesma. Ao acumular saberes ao longo da vida, só dá ouvidos ao que interessa e não se preocupa com o que o outro pensa. Sabedoria da idade. Nada como ser você mesma a partir dos 50 anos. É fazer uma tatuagem não para colocar o nome do filho, mas de uma borboleta como símbolo da metamorfose. A mulher na maturidade não tem a beleza exigida por aí como uma prioridade, está no momento do que chamo de vivência da libertação.”

Euler Júnior/EM/D.A Press
Míriam Fernandes afirma que as mulheres estão envelhecendo cada vez melhor (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)


Essência para se renovar
Duas mulheres com histórias distintas, mas que têm em comum a sabedoria de viver a maturidade sendo elas mesmas, com seus desejos, vontades, alegria e personalidade

Aplaudi-las, tê-las como inspiração, fontes de aprendizado ou simplesmente admirá-las. Selene Pinto Coelho de Morais, de 81 anos, e Míriam Fernandes, acima de 60, não se conhecem, mas poderiam ser amigas, pelo jeito que encaram a vida e pela sintonia ao falarem da beleza na maturidade. Não lhes falta sabedoria para terem o compromisso de ser felizes, de se amarem, mesmo com os altos e baixos que a vida apresenta.

Selene, casada com Geraldo Gonçalves de Morais, mãe de Alessandra Luiza e Daniela, e avó de Matheus e Raphael, foi professora de artes industriais, trabalhou 26 anos no Sesi Minas e 37 como professora concursada do estado. “Aposentei-me em 1995 e, desde então, me dedico a curtir a vida e ao meu maior hobby, que é viajar. Todos envelhecemos, o importante é envelhecer feliz. O estado físico acompanha o interior. É preciso ser feliz com o que você é. E ser feliz internamente reflete exteriormente. A juventude não é para sempre, por isso temos de valorizar o que é eterno, que é a vida, enquanto estivermos por aqui.”

Selene não se acha vaidosa, mas revela que se cuida. Maquiagem, o básico, batom, base e perfume, que é sua paixão. Usa roupas coloridas e não descuida do corpo. “Faço dança de salão no Minas. Sou do grupo Cabeças de Prata, para alunos acima dos 60 anos. Interrompi, mas a intenção é voltar para minhas aulas de canto em espanhol. Fui despertada por minha amiga Marley Duarte, que canta em francês. Sempre gostei.” Ela acha tempo para estudar inglês e alemão, ir ao cinema e ao teatro, encontrar as amigas, ouvir música e “ainda sou dona de casa”.

O maior ensinamento de Selene é a liberdade. “Desde cedo, me tornei independente. Acredito que cada um faça o que gosta e não deve ser tolhido. Sou casada, meu marido não quer viajar, não quer ir ao cinema, eu vou. Passei meu aniversário de 80 anos no Japão. Foram 20 dias maravilhosos. Se não tenho companhia, vou sozinha, não vou me privar. Tomo meu chope, um vinho e assisto a uma peça sozinha. Por que não?

Jair Amaral/EM/D.A Press
"A juventude não é para sempre, por isso temos de valorizar o que é eterno, que é a vida, enquanto estivermos por aqui" - Selene de Morais, 81 anos, professora aposentada (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Para Selene, ser como ela é questão de personalidade, mas quem quiser acordar para a vida precisa encontrar o que lhe dá prazer e tomar uma atitude. “Ao me aposentar, não iria me dedicar à casa. Queria crescer, conhecer pessoas e me tornei bisa de todas as turmas que frequento. Todos me tratam com respeito e adoro o contato com os mais jovens. Sou idosa, tenho 81 anos, mas continuo curiosa. Não parei no tempo e quero saber o que ocorre por aí, na moda, na cultura, na política...”

Selene, aliás, já teve seu dia de modelo. Ela foi um dos destaques do desfile de Ronaldo Fraga, temporada Verão'2016, na São Paulo Fashion Week, quando o estilista levou para a passarela modelos convencionais e mulheres reais octogenárias. Com o tema “A fúria da sereia”, o designer colocou 35 mulheres de 19 a 85 anos sentadas no meio do cenário, todas vestindo caudas de sereia e com os seios à mostra. Além da diferença de idade, eram mulheres com biotipos variados, justamente para questionar os padrões de beleza.

FORRÓ E NAMORO
Com o mesmo pique e astral de Selene, Míriam Fernandes atuou anos como decoradora. Hoje, trabalha de segunda a sábado no salão que montou em casa, onde não é só cabeleireira, mas consultora, já que orienta as clientes quanto a maquiagem e estilo, uma personal stylist. Atende com hora marcada. “Sou muito vaidosa, sempre fui. Acredito que a maturidade dê uma beleza mais interessante. A mulher madura tem mais a oferecer, é diferente, independente, é mais respeitada e a beleza, simplesmente, aflora. São jovens de cabeça branca.”

Para Míriam, as mulheres envelhecem cada vez melhor. “Elas se cuidam mais e não é porque estão aposentadas, mas porque gostam. Fazem atividade física, criam um ambiente social e, independentes financeiramente, são donas dos seus desejos. Estou sempre maquiada, adoro me aprontar e, por ser alérgica, uso cabelo branco há anos, com uma mecha vermelha. Aliás, foi o que me deu outro visual. Chamo mais atenção agora e recebo mais elogios do que antes. Adoro acessórios e roupas que não estão na moda, mas são meu estilo.”

O conselho que Míriam dá é não se aposentar cedo. “Nada de ficar à toa, porque surge doença. Parada e sozinha são gatilhos para o astral ficar ruim, tudo piora, a saúde física e mental. Por anos, fui decoradora. Hoje, decoro a cabeça das mulheres, dou palpite nas roupas e me faz muito bem. Cuidar da gente, valorizar nossa beleza (cada um tem a sua) nos mantêm vivos. Gosto do meu estilo e de brincar com ele, mudar. Pensar no como vou me apresentar a cada dia é um incentivo. Fico feliz e realizada. Tenho duas filhas e um neto. Dançar é minha diversão, o forró é uma delícia, sou divorciada e adoro namorar. Minhas meninas dizem que não me acompanham. Mas a vida está aí, temos de vivê-la”.

"Jovens, envelheçam!"

Questão de ponto de vista, autoestima, confiança e escolha. Em cada idade há o que se admirar. Especialista alerta sobre os padrões impostos e diz para não ser refém

Lucas Magalhães/Divulgação - 5/3/15
"Livre ninguém é. No entanto, cada um tem a liberdade de escolher a prisão que quer" - Elke Maravilha, professora, tradutora, intérprete e ex-jurada no Cassino do Chacrinha (foto: Lucas Magalhães/Divulgação - 5/3/15)
Filha de Liezelotte von Sonden e George Grunupp, ela nasceu em 22 de fevereiro de 1945, em São Petersburgo, na Rússia. Chegou ao Brasil aos 6 anos e foi morar em Itabira, terra de Carlos Drummond de Andrade. Tornou-se atriz, intérprete musical, apresentadora e modelo. Sempre dona de uma personalidade desafiadora e autêntica, criou um estilo único, ousado e com identidade: Elke Grunupp, a Elke Maravilha, dona de uma beleza singular, chega aos 70 anos conquistando pelo carisma, exotismo, excentricidade, alegria, uma dose de loucura e pitadas de misticismo.

Se, para muitos, Elke Maravilha representa transgressão e liberação, para ela, não tem sido outra coisa além de ela mesma nos últimos 70 anos. “Cada idade tem sua beleza. Vivi a minha dos 15, 20, 30, 40, 50, 60 e agora a dos 70 anos. Como já nasci velha, tenho a cabeça mais feliz e confortável. Agora, quem tem o espírito jovem sofre demais, enlouquece e se estica toda. Mas, como dizia Nelson Rodrigues, 'jovens, envelheçam!'”.

Para Elke, as pessoas se esquecem que “viver cada dia é dormir mais jovem e acordar mais velho”. Para ela, ir contra é chato e medíocre. “Nada rejuvenesce a gente. Não tem volta, só ida. Agora, ao longo dos anos, percebo que ser jovem burro pode. Na minha idade, não pode mais.”

Elke enfatiza que saber viver, todos sabem. “O problema é que não sacam o fundamental, que é saber conviver, que é fácil, mas complicam. A vida é nascer e morrer, no resto a gente enche linguiça.”

Professora, tradutora e intérprete de línguas estrangeiras (ela fala oito idiomas: russo, alemão, italiano, espanhol, francês, inglês, grego e latim), Elke Maravilha alerta que “as pessoas estão muito mal-educadas. E educação não é sentar bem, se comportar à mesa. Ser bem-educada é estar preparada para a vida, para a morte, para a guerra e, claro, para envelhecer. Alguém prepara?”.

Com a língua afiada, Elke diz que a velhice nos liberta de algumas coisas, como dos hormônios. “Mas livre ninguém é. No entanto, cada um tem a liberdade de escolher a prisão que quer.”

NÃO PERMITO
Jurada do Velho Guerreiro no Cassino do Chacrinha e do Show de Calouros, com Silvio Santos, Elke Maravilha tem fãs em todas as classes sociais. Sempre exuberante, nunca deixou de ser quem é. Ela conta que, aos poucos, se impôs, mesmo na época de modelo. “No início, fazia um pouco o jogo, porque também sei ser chique. Ter um cabelo convencional, uma maquiagem leve. Mas isso para mim era fantasiar-me. Não sou isso. E acabei conquistando os costureiros, que entenderam meu estilo e proposta estética. Faziam, inclusive, roupas especiais para eu desfilar.”

O estilo de Elke mudou ao longo da vida, mas jamais deixou de representá-la. “Com o tempo, venho me descobrindo muito mais por dentro e colocando o que descubro para fora. Costumo dizer que sempre fui assim, só que, com o tempo, estou piorando! Na realidade, sempre fui um trem meio diferente, sabe? Ainda adolescente, resolvi rasgar a roupa, desgrenhei o cabelo, exagerei na maquiagem e saí na rua... Levei até cuspida na cara. Mas foi bom, porque entendi aquela situação como se estivessem me colocando em teste. Talvez, se meu estilo não fosse verdadeiramente minha realidade interior, tivesse voltado atrás. Mas sabia que nunca iria recuar. Nunca quis agredir ninguém! O que quero é brincar, me mostrar, me comunicar.”

E como Elke faz questão de deixar claro, não permite que ninguém diga como ela deve ser, muito menos uma sociedade cheia de regras para uma beleza passageira. Sua vida é pautada pelo que acredita: “Ser o que sou. Muitos quiseram desconstruir isso, mas não permito, jovem ou velha”.

Beleza que ensina
Antes invisível ou escondida, a beleza na maturidade passou a ser olhada pelo mundo depois de uma iniciativa despretensiosa do fotógrafo Ari Seth Cohen, que, em 2008, saiu pelas ruas de Manhattan, em Nova York, registrando imagens de mulheres estilosas e acima dos 50. O resultado foi a criação do blog Advanced Style, que tem milhares de visualizações e é inspirador para mulheres de todas as idades. Dele, nasceu um livro e até documentário, este ano, com título homônimo disponível no Netflix e no iTunes. “Respeite os mais velhos e deixe que essas senhoras e senhores te ensinem uma coisa ou duas sobre como viver a vida ao máximo. O Advanced Style oferece prova do conjunto de sábios que estilo pessoal avança com a idade”, enfatiza Ari.

Arquivo Pessoal/Divulgação
Para a antropóloga Mirian Goldenberg, ninguém deve abrir mão da fase mais linda da vida (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
Recorrendo a outro alerta da estilista francesa Coco Chanel, “a natureza lhe dá o rosto que você tem aos 20, a vida talha o rosto que você tem aos 30, mas depende de você merecer o rosto dos 50”, a antropóloga e escritora Mirian Goldenberg, doutora em antropologia social, diz que “a bela velhice que defendo é a velhice com liberdade tanto para ser a Elke Maravilha quanto para ser o que você é. A questão é: a Elke sempre foi o que é, então, por que na velhice não posso mais ser eu mesma? Na bela velhice, a mulher percebe que não precisa se esconder”.

Mirian Goldenberg lembra o caso de Betty Faria, que, em 2013, aos 72, foi à praia de biquíni e encarou insultos e críticas, e de mulheres! A resposta da atriz na época foi: “Querem que eu vá à praia de burca?”. A que nível chegou a intolerância com o passar do tempo, com os anos vividos? Para a antropóloga, a reação deplorável de algumas pessoas não encontra ressonância numa maioria. Ela é otimista. Por isso, reforça a personalidade de quem desafia o que está predeterminado por uma sociedade que faz ode à juventude, tão efêmera. “Gosto de reforçar o termo bela velhice (tema de um de seus livros), porque representa quem toma a decisão de não se esconder e muito menos mudar em função das regras e preconceitos.”

ESCOLHA
A antropóloga exalta que ser você mesmo, com liberdade, é o grande ganho da velhice. “É o melhor momento da vida, porque, pela primeira vez, pode-se ser livre. É importante pensar na diversidade de mulheres exuberantes que há por aí.”

O Brasil, cada vez mais um país de idosos, vive, na análise de Mirian Goldenberg, um comportamento paradoxal. “Existe o preconceito e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta liberdade. São mulheres mais velhas namorando, estudando, viajando, dançando, cantando... É preciso ter a coragem de não se deixar vencer pelo preconceito porque, na realidade, o caminho da liberdade já foi dado. Há preconceituosos, mas há tantos que não são e valorizam quem rompe com as barreiras.

Ninguém deve abrir mão da fase mais linda da vida, do melhor momento. Viva o envelhecimento com prazer. A escolha é sua. Mas saiba que a bela velhice já existe e cabe a você inventar uma forma de viver bacana. Não se restrinja. Aliás, não é isso que as pessoas estão fazendo e querendo. Elas buscam caminhos para viver bem, o que requer um pouco de dinheiro, saúde e amizades”, receita.

A bela porção da vida
Esqueçam o perfil das senhorinhas que predominava no imaginário coletivo até o século 20. Muitas mulheres na casa dos 60, 70, 80, 90 anos de hoje em nada lembram aquele estereótipo. Na análise da psicóloga e psicoterapeuta humanista, com foco nas relações afetivas, Renata Feldman, a mudança começou a ocorrer no momento em que “as mulheres começaram a dialogar, contrapor e a confrontar um padrão instituído culturalmente pela sociedade, que era compor um visual de recato. Como se, ao envelhecer, obrigatoriamente, as pessoas tivessem de se apagar e fazer jus à idade. O que é um absurdo e até cruel”.

Jair Amaral/D.A Press - 23/3/15
Para a psicóloga e psicoterapeuta Renata Feldman, a mulher tem que buscar o que for importante para dar prazer e se sentir bem (foto: Jair Amaral/D.A Press - 23/3/15)
Renata Feldman diz que a vida é dividida em três blocos: até 30 anos, dos 30 aos 60 e dos 60 em diante. “As mulheres acima de 60 estão, portanto, na última porção de vida, no bloco final. Pela minha percepção do atendimento no consultório, vejo que muitas vivem com a culpa pelo que não fizeram ou com pressa pelo que ainda querem fazer ou viver, ou dizer. Vivem com essa ansiedade e é nessa hora que muitas delas acordam para a vida e descobrem que é o momento de viver como elas próprias querem, independentemente do padrão e do olhar do outro.”

Aliás, Renata enfatiza que as mulheres que saem do comum precisam lidar com “um padrão social e o olhar do outro, que pode ser o do marido, do filho, das amigas e de toda a ancestralidade que existe como referência para esta mulher”. Ou seja, não é fácil. É mais uma barreira na história da luta feminina. Conquistar sem olhares enviesados o direito de viver a bela velhice, seja de calça jeans, batom vermelho, salto alto, com aula de dança, pilates, namorando e decidindo fazer faculdade de medicina ou virar filósofa. E tudo isso tendo à disposição recursos para manter a qualidade de vida.

SABEDORIA
Renata enfatiza que esta nova senhora sabe que há um novo mundo a ser desbravado “e que é sua escolha viver a última porção de vida de forma autêntica, feliz e se encontrar”. Não vale a pena seguir outro caminho e se fechar para o mundo, correr o risco de uma depressão e esperar a morte chegar. Para não tomar o caminho mais doloroso, a psicóloga aponta três atitudes essenciais nesse período da vida. “Primeiro, é preciso tomar consciência. Em seguida, estar disposto a se contrapor ao peso da idade que é colocado pela sociedade e visto pelo espelho, que é o real. E em terceiro lugar, viver as perdas, sabendo que, apesar delas (amigos, familiares, vitalidade, cabelo ou cabelos brancos, saúde mais frágil, conviver com dores e menor mobilidade), não perdeu a vida. Portanto, não abra mão da autenticidade e da autoestima. Assuma o novo visual para viver plenamente até o fim. Busque atividades, pessoas, moda, terapia ou o que for importante para dar prazer e se sentir bem.”

A psicóloga chama a atenção para o ganho de experiência e sabedoria incontestável. “Com os anos, a vida fica mais leve e as mulheres com esse perfil se permitem não entrar em um redemoinho de problemas que, antes, tinham outra dimensão. Mesmo porque, enfim, entendem que não há como controlar o pensamento do outro. Então, se libertam.”

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