Pais podem mais: tempos atuais exigem paternidade ativa tanto afetivamente quanto para questões práticas

Publicitário mineiro cria projeto para estimular a participação dos homens no cuidado e na educação das crianças. Conheça a comunidade 'Pai tem que fazer de tudo'

por Valéria Mendes 07/08/2015 09:30

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
SXC.hu
80% dos homens no mundo serão pais biológicos (foto: SXC.hu)
A ideia de que a participação do pai na criação e no cuidado com os filhos influencia o desenvolvimento da criança tem se consolidado socialmente com a divulgação de estudos que comprovam os benefícios dessa relação. No entanto, ainda não se traduz em realidade. O relatório ‘Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016’, elaborado pela Organização das Nações Unidas, mostra que elas ainda fazem quase duas vezes e meia mais trabalho doméstico e de cuidados com os filhos que seus companheiros.

A ideia de pai presente afetivamente e ativo nos cuidados com os pequenos têm essa associação direta com os benefícios para filhos e filhas. No entanto, os ganhos vão além. É bom para toda a família e para a sociedade. Essa postura influencia também a vida da mulher e do próprio homem, como ressalta o documento intitulado ‘Situação da Paternidade no Mundo’ que revela que a participação masculina resulta em maior equidade de gênero. Dessa forma, apesar do apelo comercial da data, o Dia dos Pais, para além das homenagens, se apresenta como oportunidade para que homens reflitam sobre o papel que desempenham no âmbito familiar e como o engajamento na paternidade e na família contribui para uma sociedade melhor.

O mesmo relatório, que foi elaborado pelo Instituto Promundo, pontua que, além do obstáculo cultural numa sociedade em que o machismo ainda prevalece, existem problemas que ultrapassam a postura pessoal do homem, como a curta licença-paternidade no Brasil, atualmente de cinco dias. Ainda na esfera pública, é possível citar a falta de apoio em outros âmbitos, como exemplifica o publicitário Bruno Menezes Santiago, 34 anos, casado com Tereza e pai de Samuel, de 2 anos. “Quando saio sozinho com o meu filho para almoçar, por exemplo, não encontro fraldário no banheiro masculino. Sou obrigado a trocar a fralda do Samuel com ele em pé. O ideal é que os estabelecimentos comerciais ofereçam um espaço neutro, mas só temos essa opção em shoppings”, diz.

Arquivo Pessoal
'Pai tem que fazer de tudo': Bruno Menezes Santiago e o filho Samuel, de 2 anos (foto: Arquivo Pessoal )


Ao descobrir a gravidez da esposa, o mineiro revela outra lacuna que observou em relação aos pais de primeira viagem. Bruno conta que saiu em busca de apoio e troca de experiência e se deparou com um movimento organizado de mulheres no mundo virtual para o compartilhamento de informações sobre gestação, parto, amamentação, cuidados com os filhos, educação das crianças e maternidade. No entanto, não encontrou o mesmo envolvimento do lado masculino. Um dado relevante dentro desse contexto é que 80% dos homens no mundo serão pais biológicos e, em algum momento da vida, terão alguma conexão com uma criança.

O mineiro decidiu, então, criar o projeto ‘Pai tem que fazer de tudo’. Há cinco meses, ele criou uma página no Facebook que já conta com 12 mil seguidores. “A ideia é compartilhar a minha vivência como pai, meu sentimento em relação à paternidade, as dificuldades, a construção e o fortalecimento diário do vínculo com o meu filho e mostrar como é importante passar tempo com as crianças”, explica.

Ele conta que apesar de a participação feminina superar a masculina mesmo em um projeto focado nos homens, Bruno acredita na tendência do “pai que faz”. “É o comportamento mais sustentável”, destaca. Como mediador dessa troca de experiências, ele, apesar de otimista, precisa se deparar com histórias de abandono. Um relato recebido em março deste ano o tocou profundamente. “A mensagem dizia ‘Queria que o pai da minha filha fosse assim, dia 11 ela faz 1 aninho e até hoje ele não a procurou, e nem liga para saber da filha’”.

Por outro lado, também destaca algumas que reforçam a sua crença de uma maior participação dos pais na vida das crianças, como a de um seguidor que um mês antes do nascimento da filha revelou na rede social que sempre sonhou ser pai de uma menina e escreveu: “Eu e minha esposa estamos realizando um sonho e teremos a oportunidade de ensinar e aprender com nossos pequenos. Concordo plenamente que pai tem que participar e pretendo estar presente 100% da vida da minha princesa”.

Veja o trailer de 'O Começo da Vida', da Maria Farinha Filmes:





Arquivo Pessoal
"É importante para esse novo 'pai contemporâneo' mais presença e identificação com as exigências da família", Cristina Silveira, psicanalista e psicopedagoga (foto: Arquivo Pessoal)
Presença paterna: um olhar da psicanálise
Psicanalista e psicopedagoga, Cristina Silveira diz que com a consolidação da mulher no mercado de trabalho e as mudanças no modelo de família, o homem foi surpreendido pela ruptura da hierarquia doméstica e também pelo constante questionamento de seu papel na educação dos filhos e filhas. “Vivemos uma época que solicita da figura paterna a participação”, sintetiza. Para ela, é importante dar visibilidade ao aspecto positivo da atual fase de transição da família, que permite ao homem reinventar seu papel e construir a subjetividade de pai com uma nova postura. “É difícil? Sim, mas não é impossível realizar essa transição”, afirma.

Segundo ela, é o apoio do pai nos primeiros anos vai alavancar o desprendimento da criança da estrutura doméstica confortável, até então, garantida pela mãe. “É ele que vai permitir à criança se abrir para horizontes de novas possibilidades. O pai é o primeiro “outro” que a criança encontra fora do ventre de sua mãe. É a presença desse pai que irá facilitar à criança a passagem do mundo da família para o da sociedade quando lhe será permitido o acesso à afirmação de si, à capacidade de se defender, à agressividade e de exploração do ambiente que o cerca”, reforça.

Cristina Silveira ressalta que antes que o filho reconheça o pai como figura, ele o enxerga através das reações da mãe. “É através dos olhos da mãe que o filho experencia a imagem do pai pela primeira vez. Daí a importância do tratamento dispensado pelo pai a essa mãe. Posteriormente, vem a liberação e a aprovação dessa mulher, para que a criança se aproxime desse pai e, enfim, fortifique esse laço”, pontua.

Para ela, é importante para esse novo ‘pai contemporâneo’ mais presença e identificação com as exigências da família. “Cabe a esse pai expor a sua face afetiva e próxima da intimidade cotidiana da criança, sendo mais participativo na vida dos seus filhos. Cabe a esse pai ser um modelo, que respeite e cuide da mãe, para que possa ser aceito como um referencial masculino. Cabe a esse pai construir uma relação com os filhos baseada na autoridade e não no antigo autoritarismo. Autoridade que deve ser conquistada através do respeito e não do medo, da amizade e não do poder”, exemplifica.

A psicanalista e psicopedagoga diz que a missão desse novo pai ultrapassa a proteção e adentra no cuidado e nas necessidades da criança, seja uma troca de fralda, o carinho do colo, o banho, o almoço, colocar para dormir e até a participação nas atividades do filho ou da filha fora do ambiente familiar, seja a escola ou qualquer outra.

No caso de ausência do pai, Cristina Silveira diz que outras configurações podem servir de modelo referencial como avôs, tios, amigos, professores e terapeutas “que podem compor uma colcha de retalhos que também aquece”.



Thiago Queiroz é pai de Dante e autor do blog Paizinho, Vírgula! Ele escreve sobre criação com apego, disciplina positiva e parentalidade consciente. Acesse: http://paizinhovirgula.com/

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA