A princípio resistente ao canabidiol, paciente encontra alívio nas propriedades medicinais da maconha; veja história

CBD tem se mostrado eficaz no tratamento de dores crônicas, epilepsia, esclerose múltipla e para pacientes em tratamento com quimioterapia

por Zulmira Furbino 06/08/2015 13:00

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EM/D.A Press
Conselho Federal de Medicina regulamentou, em 2014, o uso compassivo do canabidiol como terapêutica médica (foto: EM/D.A Press)
A psicóloga Loiva Maria de Boni Santos, de 52 anos, integrante do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, do Ministério da Justiça, e especialista em dependência química, vinha acompanhando as discussões sobre as diretrizes da política nacional de drogas e o uso da maconha como forma de inibir a utilização de drogas mais pesadas e sobre a maconha medicinal quando, terminando um mestrado, descobriu que tinha câncer no peritônio em estágio quatro, derivado de um tumor no ovário. Ela fez uma cirurgia, mas quando a abriram, os médicos disseram que não havia o que fazer. Por isso, o corte foi fechado, mas Loiva, encaminhada para a quimioterapia, não teve coragem de usar maconha para facilitar seu tratamento. “Na época, já sabia dos efeitos benéficos da cannabis, mas não tive coragem de usar, por questões morais”, reconhece.

Só mais tarde, depois de uma recidiva, ela passou a usar a erva para amenizar os efeitos da quimioterapia e também como forma de “estacionar” o tumor. “Quando terminei a primeira ‘químio’, perguntei ao médico e ele disse que não poderia recomendar, porque era ilegal, mas reconheceu os benefícios. Fiquei mais segura dividindo isso com o meu médico. Já o oncologista que estava me receitando o medicamento para náuseas não proibiu, mas percebi que desaprovava”, lembra. Agora, já em outro tratamento de quimioterapia, Loiva usa maconha com o conhecimento do seu médico. “Não é tão fácil conseguir e também não gosto dos efeitos psicoativos. Uso mais no fim de semana, nos dias de quimioterapia, mas só quando consigo com amigos que cultivam”, explica. Quando usa, ela afirma que se sente muito bem e até consegue comer. “Houve um período, na segunda recidiva, em que sentia dores fortes e constantes e a única coisa que amenizava o meu sofrimento era fumar maconha”, sustenta.



Autismo
O médico Paulo Fleury Teixeira, especialista em medicina preventiva e pesquisador do Ministério da Saúde, é um dos profissionais que aceita receitar a maconha medicinal para pacientes que necessitam dela para viver. “Comparada com o álcool e com o cigarro, os riscos oferecidos pela erva são infinitamente menores. Os canabinoides têm eficácia comprovada para o tratamento de diversos problemas de saúde. Um dos meus pacientes é autista e tem tido uma resposta muito boa com o uso”, atesta. A família da paciente de 8 anos procurou os derivados da cannabis para o tratamento na tentativa de regularizar o sono da menina, que tinha insônia e agitação noturnas e despertava entre 20 e 80 vezes por noite e só dormia na cama dos pais. “Isso significa que a mãe passou oito anos sem dormir. Com o uso do canabidiol, em uma semana ela passou a despertar entre duas e quatro vezes, dorme em seu próprio quarto, muitas ocasiões durante a inteira”, afirma. Seis meses depois do início do tratamento, a acumula consideráveis ganhos psicomotores, tanto que teve suas primeiras aulas de música (está aprendendo órgão e cantando). “Isso seria inimaginável antes da maconha medicinal”, sustenta o médico.

AJUDA
O grupo do psiquiatra, neurocientista, pesquisador e professor da Faculdade de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), José Alexandre Crippa, entre outros no país, está na vanguarda mundial da pesquisa sobre o potencial uso terapêutico do canabidiol (CBD), conduzindo pesquisas de seu uso para a doença de Parkinsson, esquizofrenia, ansiedade, distúrbios do sono, dependência de drogas e outros problemas. Ele lembra que um medicamento que combina o uso do CBD e do THC está disponível para o tratamento da esclerose múltipla no Canadá, Espanha e Reino Unido, mas lamenta que o uso benéfico dos canabinoides seja usado como argumento para a legalização da maconha para fins recreativos. “Os compostos de canabinoides têm mostrado incrível potencial terapêutico e poderão ajudar milhões de pessoas no mundo todo, inclusive no Brasil”, sustenta Crippa. Mas, para ele, a ampliação dos ensaios clínicos avaliando a segurança e faixa de dose é essencial.



EFICÁCIA

  • Dores crônicas
Revisão de 15 estudos sobre uso da maconha e derivados no controle de dores crônicas mostra que ela é eficaz e produz poucos efeitos colaterais adversos. Há benefícios para pacientes com fibromialgia, artrite reumatoide, dores neuropáticas, que produzem dores que não podem ser aliviadas por nenhuma medicação disponível em farmácias e, às vezes, nem por morfina. Em 2014, nada menos do que 80% dos pacientes do programa federal de cânabis medicinal da Holanda afirmaram que a terapia funciona, 53% deles com dores crônicas.

  • Quimioterapia
A quimioterapia, usada para o controle de tumores, produz náuseas e vômitos em muitos pacientes, que perdem o apetite e passam a se alimentar mal, o que compromete sua saúde real e, logo, o tratamento contra o câncer. O THC contido na maconha é antiemético (inibe enjoo e vômitos). Por isso, ela tem sido usada em pacientes com câncer em diversos países. A cânabis ajuda na saúde geral dos pacientes, porque aumenta o apetite e combate a insônia. Medicamentos com THC ou similares são indicados para pacientes com câncer pela Rede Nacional de Câncer, composta pelas instituições de pesquisa oncológica mais importantes dos Estados Unidos.

  • Esclerose múltipla
A esclerose múltipla é uma doença degenerativa do sistema nervoso que causa dores crônicas, espasmos musculares e perda progressiva dos movimentos, da memória e da sensibilidade. Desde os anos 1990, estudos indicam que o uso da cânabis in natura ajuda a diminuir diversos sintomas da doença, principalmente os espasmos musculares e as dores. Pesquisas clínicas mais recentes confirmam a eficácia do medicamento Sativex, extrato natural de maconha, no controle da doença.

  • Epilepsia
O uso de maconha para o tratamento da epilepsia é conhecido há pelo menos 500 anos, mas ganhou maior relevância nos últimos anos, com a repercussão de casos de diversas crianças que conseguiram controlar as dezenas ou centenas de convulsões que tinham por dia. O efeito anticonvulsivante da planta, revelado em diversos estudos com animais, é produzido pelo canabidiol (CBD), substância que não produz a “viagem” típica da maconha e não causa dependência. Atualmente, um grande estudo clínico para testar a eficácia do CBD no controle de epilepsias raras e sem cura está em curso nos Estados Unidos. Em Israel, o programa de maconha medicinal do governo federal autoriza o uso da substância em crianças que não respondam a outros tratamentos.

O QUE DIZ O CFM

Riscos e benefícios
O Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou, em 2014, o uso compassivo do canabidiol como terapêutica médica. O tratamento pode ser prescrito somente por neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras e deve ser usado exclusivamente para tratamento de epilepsias na infância e adolescência refratárias às terapias convencionais. Os pacientes ou responsáveis legais deverão ser esclarecidos sobre os riscos e benefícios potenciais dessa terapia e autorizar o tratamento por meio de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os médicos prescritores e os seus pacientes deverão ser previamente cadastrados no CRM/CFM para monitoramento.

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