Tecer manhãs

por Zulmira Furbino 02/08/2015 14:43

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Marcelo Lelis
Adoro um poema de Adélia Prado que diz assim: “Uma ocasião/Meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante./Por muito tempo moramos numa casa,/como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo”.

Meu pai não pintou a casa de alaranjado brilhante, mas sempre nos trouxe os melhores orvalhos. Quando nos mudamos de bairro e, na rua nova, não havia nenhuma menina que me fizesse companhia, brincou comigo de casinha vezes sem conta.

Se, aos prantos, me recusava a entrar na escola por não conhecer ninguém, ele contornava a situação e me convencia a encarar o desafio, mas esperava lá fora batendo altos papos com o guarda Pelé, até ter certeza de que tudo estava bem.

Não gostava quando eu saía para a faculdade de batom, marcando sua bochecha com um beijo apertado, mas limpava a mancha vermelha com os olhos brilhando de achar graça.

Como era velhinho, magro e pequeno, dava pra carregá-lo com um abraço que o suspendia no ar, a um palmo do chão. Nessas ocasiões, batia os pés e ficava bravo de mansinho, desmanchando dúvidas de espantos.

Tecia ao meu lado manhãs de inverno, costurava lembranças com o azul do céu, desmanchava tristezas com um galho de riscar o chão. E me contava causos, que esqueci, da sua vida de tropeiro.

Uma vez, aos 82 anos, desabafou comigo, chorando de saudade, porque minha mãe viajou e não voltou a tempo de comemorar o aniversário dele. Para depois arrematar: "depois ela reclama se eu olho pras morenas".

 

Quando me casei, se emocionou tanto que não conseguiu entrar comigo na igreja. Os papéis se inverteram, de modo que fui buscá-lo num banco lá da frente para que ele chegasse comigo ao altar.

No fim do casamento, enquanto a família seguia para um almoço, ele passou mal e foi hospitalizado. Quando abri a porta do quarto, ele me viu, levantou a cabeça, deixou-a cair, fingindo um desmaio, e disse brincando:

– Morri!

Para um homem que nasceu nas portas do sertão, em 1903, cresceu no meio do mato, foi tropeiro e fazendeiro e depois perdeu tudo o que tinha, para nunca mais recuperar, sua doçura com a família era incrível.

Ele só não perdoava Deus. E a si mesmo. Por isso, durante bastante tempo bebeu muito (para minha tristeza completa).

Dentro das suas possibilidades, foi o melhor pai do mundo. Mesmo sem dinheiro, dividia comigo tudo o que tinha. E me dava sábios conselhos, como terminar com um namorado, que, segundo ele, nunca havia sido “homem” para mim.

Na maioria das vezes, meu pai simplesmente estava certo. Tinha razão sem fazer alarde.

Meu pai era Yin, minha mãe era Yang.

Ele, princípio, feminino e passivo. Ela, princípio ativo, masculino e cheio de luz.

Nossa comunicação mútua era impressionante e dispensava palavras.

Quando adoeceu e foi internado, sonhei que me pedia para proibir meus irmãos de entrar no quarto em que estava, pois precisava morrer e não conseguia fazer isso perto dos filhos.

No dia seguinte ele foi para a UTI.

Sonhei de novo que me pedia para ajudá-lo a tirar os tubos que o ajudavam a respirar, os cateteres que permitiam que seu corpo fosse hidratado e que os medicamentos que o mantinham vivo escorressem pelas veias.

Meia hora antes de partir, ele pediu ao médico que arrancasse todos aqueles tubos e agulhas que levavam a medicação intravenosa. Sem saber o que estava ocorrendo, mais ou menos naquele momento pedi ao universo que acontecesse o que fosse melhor para ele. Pouco depois, meu pai se ausentou do mundo, vindo morar para sempre presente em mim.

Eu estava grávida e me senti terrivelmente triste, mesmo sabendo que, “se por um lado a vida nos machuca, por outro ela se justifica pela renovação”, como veio escrito num cartão que recebi de amigos.

Naquele tempo, minha casa não era pintada de alaranjado brilhante – como depois esteve por muito tempo –, meu pai não estava mais aqui, e, no entanto, a vida, que de tão bonita chega a ser cruel, me prometia maravilhosas transformações.

Desde então, às vezes anoiteço, mas levo a vida como se estivesse constantemente amanhecendo.

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