Interação on-line é novidade na relação entre médicos e pacientes

Interagir com profissionais da saúde pela internet, seja por e-mail, seja pelas redes sociais, é uma realidade. Com moderação e bom senso, é permitido tirar dúvidas, mas nada substitui o olho no olho quando se trata do bem-estar

por Gláucia Chaves 22/07/2015 10:00

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 Lucas Pacífico/CB/D.A Press
(foto: Lucas Pacífico/CB/D.A Press)
A conectividade está entranhada na rotina. Manter-se conectado o tempo inteiro é tão comum que se tornou praticamente impossível pensar em uma vida sem aplicativos, smartphones e redes sociais. A interação 24 horas chegou também ao universo da saúde: se antes os médicos já estavam a uma ligação de distância, agora, é como se os pacientes nunca tivessem deixado o consultório. E ambos os lados parecem gostar da nova realidade. De acordo com uma pesquisa feita pela Escola Norte-americana de Medicina Pública Johns Hopkins Bloomberg, os pacientes querem manter contato com seus médicos pela via virtual, especialmente por e-mail ou via Facebook.

Tamires Morais, 26 anos, é um exemplo que aproveita a praticidade das redes sociais para agilizar o contato com médicos. Há oito meses, a publicitária deu à luz o segundo filho e, até hoje, tira dúvidas e marca consultas com o ginecologista por WhatsApp. “Ele até criou um grupo de gestantes em que muitas pacientes mandam dúvidas e ele responde”, acrescenta. O pediatra também entrou na lista de contatos de Tamires. Qual a idade e a forma ideal de viajar com os filhos, como alimentá-los corretamente, além de dúvidas do dia a dia, são os principais tópicos das mensagens. “Nada de medicação”, frisa a mãe. Para ela, quando se trata da saúde dos pequenos, é fundamental que o contato seja feito pessoalmente.

Para Tamires, ter a chance de se comunicar com médicos e especialistas é uma espécie de libertação. Primeiro porque, segundo ela, acaba com a distância no relacionamento médico-paciente. “Acho que facilita porque tem mais pessoalidade no contato. Na maioria, eles são muito distantes.” Outro ponto positivo é a praticidade: agora, ela não precisa mais marcar consulta, colocar as crianças no carro, dirigir até o consultório e esperar ser atendida para sanar dúvidas sobre qual é o filtro solar ideal para o filho.

As ferramentas virtuais vão além da chance de manter um acompanhamento médico mais rápido. A internet é, hoje, também um atalho para que o paciente encontre o médico. É o caso da HelpSaude Brazil S/A, gerenciada pelo CEO José Luiz Carvalho. O empresário explica que a plataforma permite que o usuário não apenas encontre a clínica mais próxima, como agende consultas diretamente, sem precisar nem mesmo falar com secretárias. “O horário marcado cai diretamente no sistema de gestão do consultório”, completa. Caso o paciente tenha plano de saúde, a comunicação é feita automaticamente.

O prontuário também está lá, à disposição dos médicos. Atualmente, José Carvalho estima que exista mais de 6 mil relatórios na plataforma. “O médico pode enviar os documentos para outros especialistas”, explica o empresário. Depois dessa mediação, a consulta segue normalmente. “Quando há necessidade de retorno, a pessoa marca e o próprio médico avisa o paciente por e-mail ou SMS.”

Tanta modernidade é boa também para os profissionais de saúde, desde que os limites fiquem claros. A opinião é de José Bonamigo, diretor da Associação Médica Brasileira (AMB). O conflito, para ele, começa quando o paciente não entende (e o médico não consegue explicar) que um diagnóstico ou mesmo uma opinião sobre um quadro clínico não é tão simples para ser esclarecido por meio de uma mensagem de texto. “É a famosa consulta de corredor”, brinca. Para acompanhar procedimentos feitos no consultório, contudo, as ferramentas virtuais são uma boa opção. “Uma paciente teve uma reação alérgica na mão e me mandava fotos de como o quadro estava evoluindo. Isso ajudou no acompanhamento e evitou que ela tivesse que se deslocar.”

Um espaço a mais na agenda do médico também é bom para todo mundo. Além de poupar o tempo do paciente, o profissional tem como atender casos que realmente precisam de uma consulta ao vivo. No caso de lesões que estejam evoluindo de maneira preocupante, por exemplo, a praticidade do contato facilita a atuação do médico. “É conveniente porque poupa o tempo de retorno e ele pode agir de maneira mais rápida”, reforça Bonamigo. Quando pensamos em cidades em que há dificuldade de deslocamento, onde marcar uma consulta médica significa gastar toda uma manhã ou uma tarde para chegar ao consultório e ser atendido, a interação virtual faz ainda mais sentido. “Pessoalmente, vejo com certo entusiasmo, porque isso otimiza o tempo de todos.”

Lícia Stanzani, da clínica Respirar Pneumologia e Cirurgia Toráxica, concorda: as redes sociais podem ser ferramentas úteis para facilitar o contato de médicos e pacientes, mas a relação precisa de limites. A barreira precisa ser reforçada especialmente quando o contato é feito por meio de redes socais que costumam disponibilizar informações pessoais dos usuários, como o Facebook. “Percebo que os pacientes, geralmente, respeitam o médico”, comenta. “Mas, com todas essas redes, a gente acaba ficando disponível praticamente o tempo todo.”

Se uma ligação no meio da noite pode ser algo invasivo, não há esse tipo de constrangimento (ou pelo menos, é muito menor) com uma mensagem de texto ou mesmo de áudio — que pode ser vista e respondida a qualquer tempo. Mas isso parece não incomodar os médicos.

Ao contrário: para Lícia Stanzani, esse tipo de “entrega” faz parte da própria conduta profissional. “Tenho pacientes que falam que, quando me mandam mensagem, não conseguem soltar o celular até eu responder”, diverte-se. “Percebo que os pacientes valorizam isso. Quando você dá retorno, eles se sentem seguros.”

Mas atenção: poder se comunicar com seu médico por e-mail, WhatsApp ou Facebook, contudo, não significa que é possível fazer uma consulta sem sair de casa. De acordo com o Manual de Publicidade Médica (resolução CFM nº 1.974/2011), médicos são proibidos de “oferecer consultoria a pacientes e familiares como substituição da consulta presencial”. Emmanuel Fortes, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina e relator do documento, explica que não é possível para o profissional fazer nenhum procedimento ou conduta que envolva a possibilidade de diagnóstico sem ser por meio presencial. “A medicina é feita por visão, odor, toque. O primeiro instrumento é a percepção. É impossível fazer isso pelos meios digitais.” Quem desobedece está sujeito à investigação, sindicância e, se for o caso, processo.

É claro que os médicos não estão proibidos de conversar com os pacientes por outros meios que não o consultório. Tratar de questões relacionadas a um tratamento que esteja em andamento é permitido, mas Emmanuel Fortes admite que a linha que divide o tirar dúvidas de uma consulta on-line é tênue. “Se o paciente tem uma pergunta a respeito de um efeito colateral, o médico pode dizer: ‘Tome tal providência’. Isso seria o mesmo que um telefonema”, compara. “O que não pode é fazer consultoria. Há empresas que colocam à disposição telefones ou e-mails para que o paciente diga o que está sentindo e o médico diga o que ele tem. Isso é vetado, pois a margem de erro é muito alta.”

A pesquisa
O trabalho norte-americano entrevistou mais de 4,5 mil clientes de uma farmácia. As respostas dos 2.252 entrevistados mostraram que a maioria quer usar e-mail e Facebook para interagir com os médicos

Seis meses antes do levantamento, inclusive, 37% dos pacientes tinham mantido contato com seus médicos por e-mail e, 18%, pelo Facebook

Pacientes responsáveis pelos cuidados a parentes, além de pacientes com doenças crônicas, estavam entre os usuários mais assíduos das ferramentas virtuais para tirar dúvidas

57% dos pacientes gostariam que o site dos médicos tivessem informações sobre saúde

Cerca de 46% dos pacientes querem usar e-mail para acompanhar o progresso de seus tratamentos


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