Cega de tanto tê-lo

por Zulmira Furbino 22/07/2015 17:18

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Son Salvador

 

Há uma onda nova na firma. A moda agora é trazer a própria marmita e almoçar comida caseira todos os dias. Entrei para a turma. Já havia feito isso num emprego anterior, mas desta vez é bem melhor. Além de uma refeição realmente boa, tem aquele dedo de prosa com os colegas durante o almoço.

Agora, graças ao olhar estrangeiro dos meus colegas, descobri que os talheres que uso são, tipo assim, meio vintage. É que eles levam entalhes em arabescos que são pouco usuais (hoje, os faqueiros vendidos nas melhores casas do ramo costumam ser mais básicos).

Além dos desenhos incrustados, os garfos, facas e colheres, feitos em aço inoxidável, que trago lá de casa não têm nada de mais. Foram trazidos para o Brasil no fim da década de 1980 por uma brasileira que morava nos EUA.

Aqueles eram os “áureos” tempos em que os brasileiros saíam do Brasil para ganhar a vida lá fora. Hoje, apesar da turbulência, a gente se vira bem por aqui mesmo e prefere sair do país a passeio.

Por ser diferente, em que pese meu esforço gastronômico, meu faqueiro virou “a” atração dos almoços e jantares lá de casa. O que dá pena é que várias peças foram perdidas. E agora que meus filhos passaram a comer no trabalho, o risco de perder mais algumas aumentou vertiginosamente.

Diante disso, ando pensando em adquirir um pequeno conjunto de garfos e facas para levarmos ao trabalho, mantendo intacto – e em casa – nosso precioso faqueiro de inestimável valor afetivo.

Em meu tempo de menina, talvez porque minha família seja um ponto fora da curva de tão grande, meu sonho era ter uma casa só minha, toda enfeitadinha. E ela teria cortinas que ficariam sempre fechadas para manter o ambiente na penumbra.

Decerto isso era porque, na casa dos meus pais, um cobertor pendurado no basculante da janela fazia as vezes de cortina e protegia nosso sono dos primeiros raios de sol até que mamãe acordasse e pusesse todos de pé, às 7h.

Desde que me tornei independente, sonhos conquistados e renovados, passei a gostar de lugares arejados, mas mantive o hábito de brincar de casinha nas casas de verdade onde vivo e vivi. Nelas, a regra básica é usar tudo de bonito que há, já que não sei até quando estarei aqui para desfrutar.

O uso habitual do faqueiro de inox com arabescos faz parte dessa filosofia do aqui e agora. Mas durante muito tempo, usar essas peças diariamente em casa foi uma coisa tão natural que deixei de pensar nelas e no valor que tinham para mim.

Uma vez, meti alguns desses talheres numa panela com água e levei ao fogo para que, graças à água fervente, ficassem bem limpos e desengordurados. Logo depois, saí da cozinha e fui trabalhar, largando tudo no fogo.

Oito horas depois voltei, abri a porta de casa, senti calor. Corri até a cozinha e me deparei com parte do teto coberto de fuligem, o cabo da panela derretendo e os talheres dentro dela, ainda inteiros, mas totalmente queimados.

A casa poderia ter pegado fogo. Ciente disso, fui invadida por aquela sensação horrível, misto de arrependimento e ressaca, pelo que poderia ter sido e não foi – só um milagre explica que não tenha havido danos.

Desliguei o fogo, joguei os talhares para a pia, resfriei e tentei lavá-los. Não adiantou. Pensei em dar um banho de prata, mas o preço era impraticável. No fim, levei horas ariando as peças com sal e elas retomaram uma cor próxima da original. Hoje, nem se nota que já foram queimados.

Durante o almoço na firma, graças aos meus colegas de trabalho e profissão, recordei o episódio e me dei conta de que esses talheres são, de fato, bacanas.

A pergunta que fica é: por que aquilo – e isso vale para o amor e para as coisas – que a gente tem e gosta se apaga pouco a pouco diante de nosso olhar até que nos tornamos cegos de tanto tê-lo?

É como diz Caetano Veloso, referindo-se à Baía de Guanabara: “E eu menos a conhecera mais a amara?/Sou cego de tanto vê-la / O que é uma coisa bela?”.

Sim, o que é uma coisa bela?

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