Descoberta proteína que regenera células do coração

Testado em ratos recém-nascidos, composto humano aumentou a produção de células cardíacas. Cientistas trabalham agora para testá-lo em bebês

por Vilhena Soares 14/07/2015 15:00

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As anormalidades ligadas ao funcionamento do coração durante o nascimento, chamadas cardiopatias congênitas, são adversidades comuns, com tratamento pouco eficaz. Pesquisadores norte-americanos experimentam, por meio da ação de células com características regenerativas, reverter esse quadro. Obtiveram resultados positivos ao testar uma proteína humana em ratos. Segundo eles, o procedimento, detalhado na revista Science Translational Medicine, poderá ser usado tanto nos pequenos pacientes quanto em adultos com outras complicações cardíacas.

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O grupo responsável pela pesquisa tomou como base para os testes estudos também conduzidos por eles e que indicavam que a neuregulina-1 — proteína conhecida por estimular a regeneração de células cardíacas, os cardiomiócitos — poderia ser usada com sucesso em crianças. “As nossas publicações anteriores mostraram que a proliferação das células do músculo cardíaco é mais ativa nas crianças. Publicamos também que a neuregulina-1 pode ser utilizada para estimular esse processo. A novidade deste estudo é que ele prepara o terreno para um futuro ensaio clínico testando a administração da neuregulina recombinante em crianças com doença cardíaca”, detalhou ao Correio Bernhard Kuhn, médico do Hospital de Crianças de Pittsburgh e um dos autores do trabalho.

Para testar a ação de neuregulina, os cientistas criaram uma fórmula que tem a proteína como base e trataram ratos com injeções diárias do medicamente durante 34 dias. Trinta dias após o tratamento, detectou-se o crescimento dos cardiomiócitos nas cobaias. Os pesquisadores acreditam que o resultado positivo foi obtido, principalmente, porque os animais foram tratados logo após o nascimento. Isso porque, ao repetir o procedimento com ratos que foram medicados com três dias de vida, os benefícios não foram observados.

Diferente em adultos
“A capacidade de cura do coração adulto em seres humanos e em mamíferos em geral é muito baixa. Com base em observações casuais, podemos dizer que os bebês e as crianças têm uma melhor capacidade regenerativa do coração, apesar de isso não ter sido formalmente testado pela pesquisa”, destaca Kuhn.

Paulo Cardoso, cardiologista do Hospital do Coração do Brasil e não participante do estudo, também avalia que o experimento norte-americano teve destaque por testar a técnica em animais recém-nascidos. “A tentativa de restauração dos cardiomiócitos em adultos não teria o mesmo resultado, já que, possivelmente, essas células não se regenerariam da mesma forma”, frisa. Por conta dessa diferença nas habilidades, explica Cardoso, o diagnóstico precoce de doenças cardíacas facilita as intervenções médicas. “Temos exames que rastreiam essas cardiopatias com o bebê na barriga da mãe. Quanto mais cedo ele for feito, maiores as chances de regeneração.”

Segundo Lázaro Miranda, coordenador de Cardiologia do Hospital Santa Lúcia e membro da Associação Brasileira de Cardiologia, a capacidade da neuregulina-1 de reconstruir células do tecido cardíaco já tinha sido alvo de diversos estudos. “É um tema relativamente antigo, mas que está sendo retomado com outras possibilidades. Lesões no coração podem gerar a insuficiência cardíaca, seja em crianças, seja em adultos, seja em idosos. Com a regeneração dos cardiomiócitos, esse problema poderia ser sanado”, avalia.

Miranda também acredita que, caso o trabalho dos cientistas da instituição americana evolua para o uso da técnica em humanos, a contribuição para a área de tratamentos cardiológicos será considerável. “Existe uma busca incessante para novos tratamentos da insuficiência cardíaca. Há o transplante como opção, mas é muito difícil conseguir doadores, além do uso de células-tronco, que ainda é muito inicial”, destaca.

Proteção durante a gravidez
A maternidade tardia aumenta os riscos da doença cardíaca congênita. Um estudo publicado recentemente na revista Nature aposta na prática de exercícios físicos durante a gestação para proteger os bebês do problema. A constatação vem ainda de testes com ratos, mas os pesquisadores norte-americanos indicam que os resultados devem se repetir em humanos.

Um dos autores do estudo, Patrick Jay, também pesquisador da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, conta que a alta incidência de complicações cardíacas congênitas estimulou-o e ao restante da equipe a buscarem soluções para o problema. “Apesar de grandes avanços na gestão clínica, ele continua a ser uma das principais causas de morte de crianças. Por outro lado, por causa das melhorias, há tantos ou mais sobreviventes adultos do que crianças com cardiopatia congênita”, analisa.

No experimento, os cientistas transplantaram ovários de animais jovens em cobaias mais velhas para saber se a idade dos órgãos poderia influenciar no desenvolvimento dos filhotes. “Nós testamos essa hipótese por meio do transplante de ovários de ratas jovens e velhas. Em seguida, analisamos a incidência de defeitos cardíacos das proles. A incidência é correlacionada com a idade da mãe e não do ovário”, detalha o autor ao Correio.

A equipe de pesquisadores não sabe se os males relacionados à idade, como o diabetes e a obesidade, seriam também causadores do problema cardíaco congênito, mas resolveu estudar se o efeito de exercícios físicos faria diferença na gestação. “Exploramos as atividades físicas porque elas se mostram como auxiliar a muitas doenças relacionadas à idade. Nós colocamos as rodas nas gaiolas e deixamos os animais correrem voluntariamente. O exercício impediu defeitos cardíacos na prole de mães de idade avançada. A incidência foi de cerca de metade, e o risco, o mesmo que o na prole das jovens”, conta o autor.

Novos passos
Falta detalhar por que os exercícios reduziram os problemas cardíacos nos filhotes dos ratos, mas os cientistas acreditam que o resultado observado nas cobaias pode se repetir em humanos. “Essa é a minha esperança, mas há muitas perguntas a serem respondidas e experiências a serem feitas para que a gente possa projetar um bom ensaio clínico”, frisa Jay.

A identificação de genes que possam interferir no risco da doença cardíaca é o próximo passo do experimento. “Eles poderiam sugerir um outro meio que não o exercício físico para reduzir o risco (das complicações). Nós também queremos encontrar o fator relacionado com a idade que passe da mãe para o embrião, afetando, assim, o desenvolvimento cardíaco do filho. Esses resultados poderiam render novas estratégias de prevenção”, adianta o autor.

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