Pesquisa mostra que estratégia de restringir antibióticos pode fortalecer as bactérias

Pesquisadores de universidade israelense chegaram à conclusão após simulações matemáticas feitas a partir de registros médicos. Segundo eles, o uso de medicamentos mais agressivos no início da infecção também reduz o tempo de tratamento

por Roberta Machado 06/07/2015 13:00

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EM/D.A Press
Usar as armas pesadas logo no início da batalha, ressaltam os autores do trabalho, pode trazer mais benefícios do que prejuízos (foto: EM/D.A Press)
A queda de braço entre antibióticos e bactérias é uma situação delicada e que, há alguns anos, tem pendido a favor dos micro-organismos. Enquanto esses patógenos são bastante eficientes em desenvolver resistência aos medicamentos ingeridos para combatê-los, a ciência não consegue desenvolver alternativas mais eficazes com a mesma velocidade. Para atrasar a vitória bacteriana, os médicos geralmente recorrem ao procedimento de restringir o uso de alguns antibióticos, mantendo-os como um tipo de “último recurso”, evitando, assim, que os micro-organismos tenham contato constante com o remédio e acabem se adaptando a ele. Um novo estudo da Universidade de Tel Aviv indica, no entanto, que essa estratégia pode ser ineficiente. Guardar as armas mais potentes para o fim da guerra, aponta o artigo publicado na Plos Computational Biology, pode dar oportunidade para que o inimigo se desenvolva e surja mais forte do que nunca.

O trabalho foi feito a partir de dados colhidos no centro médico Rabin, em Israel. Com a ajuda de um modelo matemático, os pesquisadores puderam fazer simulações a partir de registros médicos e criar uma projeção da resposta futura dos micro-organismos ao longo de um longo período de tratamento contra infecções. Com essa ferramenta, os médicos teriam acesso a três tipos de antibióticos: dois considerados menos eficientes e um de ação mais ampla, potente contra mais tipos de bactérias. “Uma parte importante da dinâmica é a frequência da resistência dos pacientes que vêm ao hospital. A fim de estimá-la para vários antibióticos, usamos dados obtidos de amostras de sangue de recém-internados”, explica Uri Obolski, estudante de doutorado na Universidade de Tel Aviv e um dos autores do trabalho.

As simulações mostraram que, ao não usar o antibiótico restrito, a chance de o tratamento falhar é mais alta, o que dá ao patógeno mais chances de infectar outros pacientes. “Eventualmente, os pacientes infectados com essa bactéria resistente terão de ser tratados com o medicamento restrito porque ele é o único que funciona. Dessa forma, contraintuitivamente, mais pacientes terão a probabilidade de desenvolver infecções resistentes à substância restrita”, esclarece Obolski.

Para os pesquisadores, a limitação ao medicamento de ação mais ampla deveria ser reexaminada pela comunidade médica. “O nosso trabalho não defende o uso desnecessário ou aumentado de antibióticos. Nós simplesmente sugerimos que seja repensada a restrição sob certas circunstâncias”, ressalta Obolski. “Nós esperamos que o nosso trabalho não seja considerado controverso, mas que seja aceito como um passo que possa ajudar a reduzir a resistência aos antibióticos”, acredita o pesquisador.

Usar as armas pesadas logo no início da batalha, ressaltam os autores do trabalho, pode trazer mais benefícios do que prejuízos. Novas pesquisas seriam necessárias para apontar os medicamentos e as infecções com que a nova medida seria mais eficiente, principalmente em hospitais em que a taxa de infecção é considerada alta e o tempo de internação, mais longo. Se usado de forma correta, o método mais agressivo de tratamento também evitaria os casos de terapias prolongadas, diminuindo, assim, a taxa de mortalidade e outras complicações causadas por infecções persistentes.

Uso indiscriminado
Cada antibiótico apresenta um certo espectro de ação, ou seja, age sobre tipos diferentes de patógenos. Quanto mais tipos de micro-organismos o antibiótico for capaz de afetar, mais amplo é sua área de atuação. Restringir o uso de agentes antimicrobianos de espectro mais amplo envolve uma escolha entre aumentar a resistência a um medicamento antes considerado eficiente e elevar a probabilidade de um tratamento bem-sucedido.

Para a infectologista Anna Sara Levin, uma das maiores causas do problema é a prescrição indiscriminada de antibióticos, inclusive em casos que poderiam ser tratados de outra forma. “O médico prescreve (o antibiótico) muitas vezes sabendo que não precisa, mas por excesso de cautela. Aí, você paga o preço da resistência. Quando chega na hora de uma infecção grave, o antibiótico deixa de ser potente porque foi usado muito mais do que deveria”, alerta a coordenadora do Grupo de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Embora o Brasil tenha adotado em 2010 as medidas que restringem a venda de antibióticos (Veja o que diz a lei), não há nenhuma orientação oficial que determine aos médicos que deem preferência aos antibióticos de uso comum aos medicamentos de efeito mais amplo. No entanto, a prática de prescrever antibióticos com espectro de ação menor foi adotada pela comunidade médica como uma medida para evitar o desenvolvimento de superbactérias.

O uso indiscriminado de antibióticos, ressaltam especialistas, tem danos nocivos ao organismo e pode deixar o paciente mais sensível a futuras infecções. “No nosso corpo temos micro-organismos que não são patogênicos, que não provocam doença. Pelo contrário, eles fazem parte da nossa defesa, para que outras bactérias não se propaguem. Se você toma um antibiótico que mata essas bactérias, desprotege essa mucosa, seja do estômago, seja do intestino, por exemplo. Eles estão disputando espaço. Quando não tem ninguém para disputar, a bactéria patogênica que chegar vai se propagar mais facilmente”, ressalta Rogério Hoefler, do Centro Brasileiro de Informação sobre Medicamentos (Cebrim) do Conselho Federal de Farmácia (CFF).

O que diz a lei
A Resolução RDC nº 44, de 26 de outubro de 2010, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), determina que a venda de medicamentos antimicrobianos só pode ser efetuada mediante receita de controle especial. Desde então, médicos precisam emitir a recomendação em duas vias: uma, que é guardada pelo paciente; e a outra, mantida na farmácia. O documento para compra tem validade de 10 dias, e precisa constar do nome completo do paciente, que deixa os seus dados pessoais com o vendedor.



Alertas da OMS
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu em 2001 um conjunto de recomendações para o controle da resistência microbiana, que incluem o reforço da vigilância e da capacidade laboratorial, a garantia de acesso a medicamentos essenciais, a garantia de cuidados adequados ao paciente, o aprimoramento da prevenção e do controle de infecções e a promoção de inovação, pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos. Treze anos depois, a agência da ONU divulgou um relatório, após análise de dados de 114 países, sinalizando poucos avanços na área. A OMS alertou que o mundo caminhava rumo a uma “era pós-antibiótico”, em que pessoas morrem de infecções simples e tratáveis há décadas. O documento indicava que, à época, antibióticos-chave já não funcionam mais em metade dos pacientes. Um deles é o carbapedem, prescrito para tratar pneumonia, infeções sanguíneas e em recém-nascidos. No mês passado, a agência deu dois anos para que os governos estabeleçam planos para conter a resistência a esses medicamentos. O Ministério da Saúde atualmente coordena a elaboração de um plano nacional em resposta ao chamamento da OMS.

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