Mineiro não enlouquece, piora

por Zulmira Furbino 22/06/2015 15:06

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Marcelo Lelis
(foto: Marcelo Lelis)
 

Na aula de boxe, na academia, me espanto com a conversa de colegas jovens e sarados.


– E aí, você terminou mesmo com a Marina?

– Terminei, acabou tudo.
– Mas o que houve, ela te sacaneou?
– Não, até que ela foi legal. Só que não tem retorno. Acabou, acabou. Aqui é a tradicional família mineira, fio...
Sorry, Fernando Sabino.

 

Sua poética concepção de mineiridade – “todos os princípios se desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas de limão, tutu de feijão com torresmos e linguiça frita com farofa” – é linda, mas sabe como é, os tempos mudaram.

 

Hoje é assim: bastante musculação, aula de boxe, jiu-jítsu e suplemento alimentar pra fazer os músculos crescerem; nada de gordura de porco, tutu ou glúten; muito botox e silicone preenchendo rugas e bundas em Minas e Brasil afora.

 

Já a cabeça e o modo de pensar, Fernando, andam cada vez mais tacanhos, principalmente em médias esferas. Falta de leitura e torresmo, só pode ser isso!

 

Os avanços mais elementares, aqueles dos quais você com certeza se orgulharia – como os direitos gays, as cotas na universidade, a distribuição de renda, a liberdade conquistada pelas mulheres, o reconhecimento de que os jovens devem ir para a escola e não para a cadeia – transformaram-se em ofensa, o que indica que você é quem tinha razão: “Mineiro não enlouquece, piora”.

 

Sabe esse meu amigo da aula de boxe? Pois bem, esteve numa boate nos arredores bacanas da cidade outro dia e de repente viu que chegava uma turma com alguns gays. O local é sofisticado e tem público seleto. Ali, casais costumam se beijar tanto que quase se engolem. Até aí, tudo certo (avisei que Minas não é mais a mesma...).

 

A situação muda, porém, quando são os homossexuais que se beijam. Nesse momento, Fernando, desperta, estridente, o “sentimento” da tradicional família mineira. E a turma do meu colega joga para escanteio o respeito ao próximo, sentindo-se provocada e ofendida. Afinal, onde foram parar os valores cristãos?

 

Em reação, resolve acossar e ameaçar o grupo dos homossexuais, perseguindo-os pela boate e, ao mesmo tempo, impedindo-os de sair. Pedro Nava morreria mais três vezes se estivesse lá, não é mesmo?

 

A coisa foi séria e durou um tempo muito além do razoável. Uma menina que acompanhava os amigos ameaçados liga para o pai, chorando. Ele vai buscá-la e, quando entra no carro, ela é surpreendida por uma bronca:
– Você se arriscou, deveria ter saído de perto. Seus amigos são irresponsáveis e estavam provocando as outras pessoas!

 

Coisas do novo jeito de ser mineiro, Fernando. Nem os mais elementares direitos civis estão valendo. E assim, o mundo vai ficando ao contrário, com a vítima se transformando em agressor e o agressor em vítima.

 

Sabe de uma coisa? Depois do que ouvi na academia, vou para casa. Já são 9h da noite. Resolvo comer alguma coisa, tomar um banho e cair na cama. Mas antes de dormir quero ler um pouco. De repente, Fernando, não sei o que ocorre.

 

Simplesmente olho para o lado e me deparo com uma montanha musculosa que começa a se transformar em imensas luvas de pedra tentando me acertar. Peraí, é o meu colega da academia. Cruzes!

 

Levanto-me da cama e corro, corro, corro.

 

Mas meus movimentos não obedecem ao esforço que faço. Droga! Minhas pernas estão em modo câmera lenta e é impossível mudar o status (um dia te explico isso, Fernando). Não consigo sair do lugar. Estou prestes a ser nocauteada quando minha filha entra no quarto e diz, docemente: “Acorda, mãe, já são 8h!”.

Abro os olhos e grito:
– Cuidado!

Ela ri e pergunta: “Cuidado com o quê?”

E eu:
– Com o terrível fantasma da tradicional família mineira. Você não vê que ele está tentando nos pegar? Corre, avisa pro Fernando!



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