Diagnóstico de câncer de mama não deve ser mais encarado como 'sentença de morte'

Novos medicamentos podem proporcionar sobrevida com mais qualidade. Entretanto, acesso ao tratamento é entrave na rede pública

por Márcia Maria Cruz 21/06/2015 14:03

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São Paulo – O diagnóstico de câncer de mama cai como uma bomba na vida de qualquer mulher. O calvário do tratamento com todos os efeitos colaterais, incluindo a queda do cabelo, e a possibilidade de retirada de uma das mamas (mastectomia) são alguns dos desafios. Ainda mais difícil é descobrir a doença na fase de metástase, já que, por muitos anos, o câncer de mama metastático foi encarado com “sentença de morte”.

EM/D.A Press
(foto: EM/D.A Press)


Entretanto, esse diagnóstico não é o fim. Há tratamento para as mulheres nesta fase da doença e a sobrevida pode ser com muita qualidade de vida. É isso que a campanha “Por mais tempo”, criada pela Fenama e o Instituto Oncoguia e lançada na quarta-feira (17/11) em São Paulo, defende. Uma petição solicita ainda ao Ministério da Saúde a incorporação de tratamentos mais adequados para as pacientes com o câncer de mama metastático. “Um diagnóstico desse muda seu olhar sobre a vida. Tirei o pé do acelerador. Passei a trabalhar menos para viver mais”, relata a empresária Adriana Leão Venâncio, de 50 anos, que descobriu um câncer de mama metastático há quatro anos.

A doença havia atingido o fígado. Ela iniciou os tratamentos de quimioterapia e radioterapia. “Fiquei dois anos careca. Isso mexe muito com a mulher. Para mim a questão da beleza é ainda mais forte, porque sou proprietária de um salão, onde ajudo as pessoas a escolherem sua imagem. Mas resolvi levantar, sacudir a careca e ir à luta”, relembra. Ela teve que fazer a mastectomia radical e, ainda assim, enfrentou recidivas da doença. Nada, porém, lhe retirou a vontade de viver. Apesar do diagnóstico, não perdeu a esperança e resolveu enfrentar o câncer de mama metastático de frente. Bem disposta, maquiada e com os cabelos arrumados, ela era uma das mulheres que foram ao lançamento da campanha. Um dos objetivos que a fazem prosseguir é acompanhar a vida das duas filhas. Adriana espera realizar o sonho de ver a filha Amanda Leão Venâncio, de 23, entrar na igreja de véu e grinalda em agosto.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima pelo menos 57 mil casos novos de câncer no Brasil este ano. Não há uma estatística precisa sobre os casos metastáticos, porém, é importante atenção para essa fase da doença. São cerca de 8 milhões de mortes por ano em todo mundo causados pelo câncer de mama. “As pessoas têm muito medo de falar da doença. Mas a realidade pode ser outra. Temos disponíveis novos medicamentos e tratamentos para dar mais tempo de vida a essas mulheres. No entanto, o acesso a esses tratamentos não é universal”, diz Maira Caleffi, chefe de Mastologia do Hospital Moinhos de Ventos de Porto Alegre.

LUCIANA SERRA/DIVULGAÇÃO
Adriana Leão Venâncio, de 50 anos, empresária, que tem câncer de mama metastático há quatro anos: "Um diagnóstico desse muda seu olhar sobre a vida. Tirei o pé do acelerador. Passei a trabalhar menos para viver mais... Resolvi levantar, sacudir a careca e ir à luta" (foto: LUCIANA SERRA/DIVULGAÇÃO)


AVANÇOS

O cenário do tratamento da doença, no entanto, mudou muito nos últimos 50 anos. “Na década de 1970, todas as mulheres diagnosticadas com câncer metastático faleceram com menos de 30 meses”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), Ruffo de Freitas Júnior. Atualmente, se elas tiverem acesso aos medicamentos adequados, cerca de 30% delas vivem em média cinco anos.

Apesar dos avanços, ainda há muito desconhecimento da população brasileira em relação à doença e ao tratamento. Pesquisa realizada pelo DataFolha, entre 31 de março e 4 de abril, com 2.907 entrevistados, demonstrou que 49% não conhecem o câncer de mama metastático. Esse percentual representa um universo de 51 milhões de brasileiros. A pesquisa também apontou que cerca de 5 milhões de mulheres, com idade entre 40 e 69 anos, nunca fizeram nenhum exame para detecção da doença – mamografia, ultrassonografia da mama e mesmo o exame clínico do toque.

A identificação precoce da doença é a melhor forma de se alcançar a cura. No entanto, algumas mulheres identificam o problema no estágio avançado. Em alguns casos, mesmo tendo sido diagnosticada de forma precoce, a doença evolui para o estágio mais agressivo. “Nesses casos, a prioridade é que a mulher tenha acesso ao tratamento adequado. Também é importante que o câncer não vire o foco da vida dela”, pontua Rafael Kaliks, oncologista do Hospital Albert Einstein. Para que o tratamento possa ser eficiente é importante que seja personalizado. Entre as opções estão a quimioterapia, radioterapia, terapia hormonal, terapia alvo e a mastectomia. Cada caso exige uma delas ou até a combinação. Com a evolução das pesquisas, os médicos identificaram que existem diferentes subtipos de cânceres e, consequentemente, os tratamentos podem ser mais ou menos eficientes em relação a cada um deles.

DIFERENÇAS NO TRATAMENTO
Cerca de 70% dos cânceres de mama têm em sua superfície o Her 2. A identificação do marcador abriu um amplo campo de tratamento, as terapias alvo. “Para querer mais, é preciso saber que é possível. Muitas mulheres não sabem que existem esse tratamento disponível”, diz Kaliks. Para ele, outro fator agravador é que cerca de 63% das mulheres não são examinadas de forma rotineira por seus ginecologistas.

A diferença de oferta de tratamento no serviço público e no particular é apontada pelo oncologista Max Mano, chefe do grupo de câncer de mama do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo. Ele também atua no Hospital Sírio-Libanês, da rede complementar. “Podemos dizer que em relação a alguns tratamentos do Her 2 positivo estamos 15 anos atrasados. No Sistema Único de Saúde (SUS), as mulheres podem ter até três anos a menos de sobrevida”, afirmou. Os médicos criticaram o fato de alguns medicamentos não serem contemplados pelo SUS. A prevenção inclui hábitos saudáveis, a realização periódica dos exames e a prática de exercícios físicos.

* A repórter viajou a convite da Roche, Femama e Oncoguia

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