É de morte!

por Zulmira Furbino 16/06/2015 11:35

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Marcelo Lelis
(foto: Marcelo Lelis)

 

 

Na adolescência, doei meus olhos e decidi que também doaria meu corpo para uma universidade em prol do desenvolvimento da ciência, mas, principalmente, para não ser enterrada viva e correr o risco de acordar dentro de um caixão.

Não. Não sou louca e meus temores não eram de todo infundados.

Nasceram muito antes, na infância, quando o astro global Sérgio Cardoso foi dado como morto e sepultado, para mais tarde descobrirem que ele sofria de catalepsia e que fora posto debaixo de sete palmos ainda com vida.

Lenda ou realidade, o caso Sérgio Cardoso amedrontou criancinhas e, claro, muita gente grande no Brasil. O temor já estava quase adormecido quando o Fantástico fez uma série de reportagens sobre a doença, transformando o entardecer dos meus domingos num verdadeiro inferno.

A ideia de doar meu cadáver para a universidade nasceu aí, é claro. Depois disso, nunca mais senti o pânico de ser enterrada tipo assim, vivinha da Silva Xavier. Até que a mãe de uma vizinha sofreu um ataque cardíaco e, conforme o médico atestou, passou desta para a melhor.

O velório foi realizado na casa onde a velhinha morava, numa sala com porta e janelas abertas, voltadas para um terreiro enorme, onde habitualmente a família promovia uma folia de reis. Ocorre que poucas horas antes do enterro alguém notou que a boa senhora havia aberto os olhos.

Deu-se um rebuliço, que ficou maior ainda no momento em que ela gemeu: “Me tirem daqui!!!!”. Nem é preciso dizer que a ocasião fúnebre virou uma festa, mas fustigou meus temores mais recônditos, quanto mais não seja porque a danada voltou a morrer na tarde seguinte, e desta vez, sem apelação.

Já quase ia me esquecendo desses fatos trágicos e inusitados, quando fui apresentada a um livro do escritor norte-americano Edgar Allan Poe e cheguei à página 322, deparando-me com o conto O sepultamento prematuro.

Na narrativa, um homem que sofre de catalepsia vive tão assombrado por fantasias hediondas acerca de sua própria morte que chega ao cúmulo de nunca se afastar daqueles que sabem de sua doença e de mandar remodelar o jazigo da família, de modo a facilitar a sua pronta abertura de dentro, caso necessário.

É de morte!

A experiência de ler Poe aumentou a convicção de que o destino do meu corpo sem vida seria a sala de aula de um curso de medicina ou uma pequena urna, capaz de abrigar minhas cinzas até que elas sejam jogadas do alto de um despenhadeiro, cachoeira ou barranco de rio, não importa.

Se Sérgio Cardoso – que deixou a vida no auge do sucesso, como um astro da novela, quando a Globo ainda era criança – pudesse imaginar até onde iria a repercussão de sua morte e adivinhasse o motivo pelo qual seria de fato lembrado pela posteridade...

A sogra da minha chefe, por exemplo, também exigiu que seu corpo fosse cremado pelos mesmos motivos que me levaram a pensar em doar o meu às faculdades de medicina. Seu desejo foi cumprido. Virar cinzas, chacota ou ganhar apelidos dos estudantes durante as aulas de anatomia, com seu insuportável cheiro de formol, é ficha diante do destino do ator.

Se alguém está achando esse papo meio esquisito e mórbido, é porque não leu uma reportagem sobre venda de pedaços de corpos humanos que saiu num portal de notícias na semana passada. Pois não é que agora, além da demanda dos programas universitários, empresas de pesquisa médica e indústrias de aparatos cirúrgicos também estão de olho nos cadáveres?

Se antes a fonte desse “material” eram as doações em vida de pessoas que, como no meu caso, manifestaram o desejo de entregar seu corpo para contribuir com a ciência, não importa o motivo, agora a coisa virou oportunidade de negócio, pasmem.

A diferença é que, desta vez, vamos por partes.

Segundo a reportagem, uma cabeça congelada sai por US$ 500; um pé, por US$ 200. Já um torso custa entre US$ 1,5 mil e US$ 1,8 mil; um joelho, US$ 300; e uma mão, US$ 125.

Ou o mundo anda mais bizarro do que nunca ou sempre foi assim, mas não havia internet. Sei lá, mil coisas.

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