Enfermeira mineira relata em livro a experiência de conviver com a doença de Chron

Enfermidade pouco conhecida provoca inflamação no intestino e não tem cura

por Sandra Kiefer 08/06/2015 09:31

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Gladynston Rodrigues / EM / D.A Press
Comecei a perceber que muita gente sofria do mesmo problema - Alessandra Vitoriano de Castro, 46 anos, autora do livro Registros de uma CROHNista (foto: Gladynston Rodrigues / EM / D.A Press)
Por definição, crônica é uma narração curta, em geral relacionada a fatos do cotidiano, podendo ter linguagem lírica ou bem-humorada. No livro Registros de uma CROHNista, que será lançado nesta terça-feira (09/06), na Livraria Leitura do BH Shopping, nem sempre os relatos contidos nas mais de 250 páginas podem ser leves ou mesmo poéticos. Sua autora, a enfermeira Alessandra Vitoriano de Castro, de 46 anos, é, na verdade, portadora há 15 anos da doença de Crohn, que apesar de não ser rara, é enfermidade ainda pouco divulgada. Manifesta-se em jovens adultos, como é o caso dela, que descobriu ser portadora aos 31 anos.

“Procurei um médico homeopata para tentar um tratamento alternativo para a doença de Crohn, paralelamente à alopatia. E ele explicou que, quando nosso corpo precisa ‘gritar’ que está precisando de ajuda por causa do emocional desestruturado, ele tenta pelas vias de eliminação, que seriam a pele, pulmão e intestino. No meu caso, ele tentou pela pele e consegui brecá-lo. Daí, ele protestou pelo intestino”, escreve Alessandra, mais conhecida como Leca. Ela já enfrentou oito cirurgias para retirada de partes do intestino até atingir o estágio de osteotomia, em 2006.

Para prevenir surtos de diarreias e de dor, Leca foi aconselhada pelos médicos a não mais represar as emoções, buscando, inclusive, o apoio de uma psicoterapia. Tornou-se cronista, nos dois sentidos. Ao ser hospitalizada, passou a escrever uma espécie de diário da doença, publicado no site da Associação Mineira dos Portadores de Doenças Inflamatórias Intestinais (AMDII), entidade que ajudou a fundar e que presidiu por mais de 10 anos. “Cada post dava mais de 100 visualizações por dia, mesmo sem fazer propaganda. Comecei a perceber que muita gente sofria do mesmo problema”, conta a autora, que capturou o interesse de um laboratório para patrocinar a obra, com valores revertidos para a entidade.

Dores
Não há estatísticas precisas sobre o alcance da doença no Brasil. Em número de associados a entidades como a AMDII, são contabilizados 2,3 mil filiados no país, sendo 850 deles em Minas Gerais. “Quando se vê o portador de Crohn tranquilo, com a cara boa, ninguém suspeita que está morrendo de dor intestinal. Quando vem a dor, você pede para morrer”, revela a atual presidente da AMDII, Patrícia Mendes, de 50 anos, servidora do judiciário em Minas. Há 18 anos, foi diagnosticada com retocolite ulcerativa e entrou em remissão, até que a doença reapareceu este ano. “Quando você tem uma dor de garganta, o médico receita antibiótico, que você toma por 15 dias e fica bem. Levei um choque quando o médico me passou uma caixa do remédio e mandou tomar para o resto da vida. Mas é preciso se conformar com a medicação. Se você parar, a crise volta pior”, completa.

Sinara Leite, presidente da Sociedade Mineira de Coloproctologia, esclarece que as doenças inflamatórias intestinais podem ser desencadeadas por um problema de ordem emocional, mas não se pode dizer que essa é a única causa. “Hoje, o que temos de mais moderno são os chamados medicamentos biológicos: drogas desenvolvidas em laboratório para bloquearem moléculas específicas da inflamação.” Segundo a especialista, duas delas já estão sendo oferecidas pela saúde pública no Brasil (infliximabe e adalimumabe) e existem outras já no mercado ou entrando no país. “Quanto à cirurgia, o mais moderno é poder realizar o procedimento por método minimamente invasivo (por laparoscopia), com vantagens como melhor recuperação, menor formação de aderências e melhor resultado estético (lembrando que a faixa etária mais afetada é a de jovens)”, completa.

O intestino delgado é o único órgão do corpo humano capaz de executar funções por si só, absorvendo nutrientes dos alimentos. Para os crohnistas, simboliza também o coração, capaz de absorver emoções. “Não há como prevenir a doença, que ainda não tem causa conhecida. O ideal, na verdade, é tentar viver de forma mais leve, aprendendo a colocar para fora a energia negativa por meio de uma terapia, hobby ou esporte. É melhor do que ter de lidar depois com a doença, o que pode ser muito mais complicado”, alerta Alessandra. Por fim, fazer da vida uma boa crônica.


Descrita em 1932 por Ginzburg e Burrill B. Crohn, essa doença autoimune manifesta-se principalmente em adultos jovens, com uma inflamação intestinal de origem desconhecida. Nos estágios mais graves, pode levar à amputação do reto ou retirada de algum trecho do intestino. Diarreia contínua, às vezes com sangue, dor abdominal associada àperda de peso, febre e fadiga constante são sintomas. Não há cura: o paciente passa a fazer uso contínuo de medicamentos, além de dieta especial e sessões de psicoterapia, como forma de suavizar crises emocionais.

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