Batatinha, Olho de Sapo e Lagartixa

por Zulmira Furbino 08/06/2015 14:20

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marcelo Lelis
(foto: marcelo Lelis)


Subindo num barquinho a motor para fazer um passeio no Rio Caraíva, no Sul da Bahia, conheci Petróleo, capitão daquela nau, que tem como ofício pescar e levar turistas para um passeio de boia. O nome registrado em sua certidão de nascimento é Jenival.

Até virar Petróleo, Jenival trabalhava na companhia elétrica estadual, mas vivia triste e sufocado porque odiava estar trancafiado numa sala com tanto céu e mar dando sopa lá fora. A saída para amenizar a sofrência foi, a cada meia hora, fugir do calabouço e pitar um cigarrinho.

Exagerando nas escapadas e na fumaça, logo Jenival virou alvo dos colegas: “Olha só o Jenival soltando fumaça de petróleo de novo!”. Pronto, o apelido pegou.

Em Caraíva tem também o Wendelson, que todos conhecem como Guaratinga, uma homenagem à sua cidade natal. Tem o Nel, que na verdade se chama Manoel e atende na barraca do Giba, batizado por nome Ribamar.

Maria Damiana, a quem chamam Damica, foi assim apelidada porque é muito magra e pequena, além de ser doida por uma boa cachacinha.

Apelidando seus parentes, amigos, vizinhos e forasteiros, os caraivenses não fazem nada mais do que se mostrar profundamente brasileiros. São a personificação do “homem cordial”, mais emoção do que razão e, definitivamente, pouco afeitos a formalidades. A definição é de Sérgio Buarque de Holanda.

Deixando as regras sociais de lado, distribuindo apelidos, assumindo alcunhas que ganhamos e até incluindo-as em nossos nomes – e personalidades –, nos tornamos “chegados” uns dos outros, encurtamos distâncias.

Por isso, ao viajar para fora do Brasil, sentimos tanta dificuldade de tratar os outros de maneira muito mais formal do que estamos acostumados e chegamos a torcer o nariz para essa “frescura”. Nessas ocasiões, se nos chamam pelo nosso sobrenome, fica até meio engraçado.

Aqui, ao contrário de lá, além de dar preferência aos prenomes em desfavor dos nomes das famílias, é praticamente impossível encontrar alguém que nunca tenha sido chamado por um apelido carinhoso, jocoso e, quem sabe, até ultrajante.

No Brasil, até rei e presidente da República têm apelidos. Vide os casos de Pelé, nascido Edson Arantes do Nascimento; Jango – que era João Goulart –; e o marechal Hermes da Fonseca, tão azarado que era chamado de Dudu, o Urucubaca.

Não é de se estranhar, portanto, que os cerca de 700 quilômetros que separam a praiana Caraíva da montanhosa Dores de Guanhães, no Vale do Rio Doce, sejam insuficientes para determinar diferenças culturais no que diz respeito ao tema.

Tenho fartas provas disso em minha numerosíssima família dores-guanhanense, já que a maioria dos meus irmãos, quando crianças, teve apelidos. às vezes pensados sob medida para serem jogados na cara da vítima naqueles momentos em que o caldo fraternal entorna.

Vander, de pele clara, era Brancal.

Lincoln, por ser bonito demais, Mocinha.

Trajano, por ser muito feio, ficou sendo Dédi, nome de um primo muito esquisito.

Geraldo, que comia muito e era gordinho, Losca.

Iara, a única morena da família, Carioca.

Juarez, sabe-se lá porque, Lelepa.

João Paulo, metido a sabichão, virou sabão.

Ubiratan, pelo mesmo motivo de Trajano, virou Toreco. João Elias, Lilia. Beatriz, que tem olhos grandes, Olho de Sapo. Suzana virou Maria Supriana, alcunha inspirada, sabe-se lá o motivo, numa parteira da região.

Míriam Mara, forte e atarracada, era Pitoco. E Meire Marilda, sua gêmea, Lagartixa Tremedeira (porque era magra e quando passava raiva, tremia). Maria Divina, baixinha, gordinha e bravinha, era um Toco de Amarrar Onça.

Agenor, por ser loirinho e sensível, Mulherzinha. Aparecida, gordinha e baixinha, Batatinha. Antônio, Tunico Bode.

E esta cronista que aqui escreve, uma ventania pequena e magricela, era um Mosquito Elétrico.

Como em Caraíva, nas fazendas do Vale do Rio Doce é assim. Ninguém perdoa ninguém e quase todo mundo, gostando ou não, carrega um apelido.

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