Meditação aliada a psicoterapia pode ser eficaz contra a depressão

Prática pode evitar novas crises em pacientes que sofrem com o problema

por Paloma Oliveto 19/05/2015 11:00

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Carlos Silva / CB / D.A Press
Estudos apontam o potencial da prática milenar da meditação para combater, além da depressão, males como o câncer e a síndrome do pânico (foto: Carlos Silva / CB / D.A Press)
Alguns minutos diários de retiro interior pode ser uma abordagem eficaz no combate à depressão. Um estudo publicado na revista médica The Lancet sugere que a meditação mindfulness, ou de plena atenção, tem capacidade de prevenir a recorrência de um distúrbio mental que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta 350 millhões de pessoas e é a principal causa de incapacitação no trabalho. O artigo se soma a um corpo amplo de evidências científicas sobre o potencial dessa prática na luta contra diversas doenças imunológicas e inflamatórias, incluindo o câncer, e os distúrbios da mente, como ansiedade, estresse e síndrome do pânico.

No estudo britânico, a técnica, que consiste em focar as próprias sensações e sentimentos (leia Para saber mais), foi tão eficaz quanto os antidepressivos no combate a recaídas de pacientes com alto risco de relapso. Os psiquiatras ingleses que conduziram a pesquisa afirmam que essa pode ser uma boa alternativa para pessoas que fazem o tratamento farmacológico, melhoram, mas não querem continuar tomando remédios na manutenção, um período de, no mínimo, dois anos.

Sarah Byford, professora do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociências do King’s College London, coautora do artigo, explica que o interesse na abordagem vem do fato de que um percentual signficativo de pessoas com histórico de depressão acabam abandonando o tratamento a longo prazo. “Com isso, elas correm um risco alto, algo entre 50% e 80%, de sofrerem novos episódios ao longo da vida. Para enfrentar esse problema, temos de pensar em estratégias que previnam o relapso ou a recorrência naquelas pessoas mais vulneráveis. O importante é atenuar os fatores que as deixam suscetíveis; assim, pensamos que é possível quebrar esse ciclo depressivo”, diz.

Combinação

A recomendação da comunidade médica é que, para ficar bem, pacientes com histórico de recorrência utilizem antidepressivos por, pelo menos, dois ou três anos após a manifestação da doença. “Contudo, as taxas de aderência são baixas e muitas pessoas expressam a preferência por intervenções psicossociais que forneçam proteção a longo prazo”, diz Byford. Além disso, ela cita os altos custos dos medicamentos de ponta como uma das razões por trás do abandono do tratamento. De acordo com a psiquiatra, é fundamental oferecer outras opções aos pacientes.

Para o estudo, o grupo da Universidade de Plymouth e do King’s College optou pela terapia cognitiva baseada em mindfulness. Nesse caso, os exercícios de plena atenção combinaram-se à terapia em grupo, conduzida por psicólogos. Algumas pesquisas anteriores, realizadas com um número pequeno de participantes, já haviam demonstrado o potencial do método na prevenção da recorrência da depressão.

Ana Rayssa / Esp. CB / D.A Press
Angela Lins, além de praticar, ensina o mindfulness: insights sobre a vida (foto: Ana Rayssa / Esp. CB / D.A Press)


A equipe de Richard Byng, professor da Universidade de Plymouth e principal autor do estudo, recrutou 424 pacientes que se tratavam da depressão. Desses, 212 foram incluídos no grupo da terapia cognitiva baseada em mindfulness, enquanto os demais continuaram sob o regime de medicamentos. O tratamento alternativo ao convencional consistiu em oito semanas de sessões em grupo, com duração de duas horas e meia, cada uma, e o aconselhamento da prática diária em casa. Caso manifestasse interesse, o paciente poderia, nos 12 meses seguintes, participar de até quatro sessões extras.

Ao longo de dois anos, em ambos os grupos houve relapso e recorrência: 44% no primeiro e 47% no segundo. O resultado, publicado na The Lancet, foi comemorado por Byng. “Em nenhum momento nossa intenção foi comparar se a terapia baseada em mindfulness funcionava melhor que os medicamentos antidepressivos na redução do relapso. Nossa intenção era verificar se essa poderia ser uma nova chance para milhões de pessoas que não querem continuar tomando remédios. As taxas de relapso foram praticamente iguais, sugerindo que, sim, essa pode ser uma alternativa ao tratamento farmacológico”, observa.

O psiquiatra, contudo, deixa claro: “Não estamos recomendando que um paciente abandone o tratamento por conta própria para aderir ao mindfulness. Todas as decisões devem ser conversadas com o médico e avaliadas de acordo com cada paciente”, observa.

Promissor
Em nota, Roger Mulder, psiquiatra da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, destacou os benefícios do tratamento. “Como é uma terapia de grupo que reduz custos, e o número de especialistas necessários não e grande, é bastante viável oferecê-la aos pacientes que não querem ou não podem usar medicamentos por muito tempo. É um novo tratamento promissor e com ótimo custo-benefício, além de ser aplicável a uma quantidade grande de pessoas que sofrem de depressão recorrente”, avaliou Mulder, que não participou do estudo.

Há 12 anos, a psicóloga Angela Lins, 61, pratica mindfulness. Ela diz que encontrou na meditação um poderoso aliado. “Costumo dizer que parece funcionar como um psicoativo: ela produz estados mentais alterados, mas em pleno estado de consciência”, define. “Ao meditar, tenho insights sobre mim mesma, sobre a vida, a espiritualidade”, revela.

De praticante, a terapeuta passou a instrutora e, hoje, conduz meditações em seu consultório e na Sociedade Vipassana de Meditação (vipassana e mindfulness são a mesma coisa). Angela conta que muitos pacientes com depressão estão se beneficiando da técnica, que ela ensina gratuitamente. “Com a meditação, as pessoas têm uma consciência maior dos conflitos e dos mecanismos que desencadeiam a depressão. A mindfulness leva a atenção para os conflitos e também apazigua angústias e medos, dá uma trégua aos pensamentos mórbidos”, enumera.

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