Pesquisadores conseguem avançar em estudo da síndrome de Werner que provoca envelhecimento precoce

A descoberta pode levar a tratamentos contra males que afetam mais as pessoas idosas, como o Alzheimer e o diabetes

por Vilhena Soares 13/05/2015 10:20

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A chegada à terceira idade pode acarretar problemas para o corpo que não têm cura e prejudicam muito a qualidade de vida, como o mal de Alzheimer e o diabetes. Essas doenças e outras mais recorrentes em pessoas idosas podem ser evitadas futuramente se o mecanismo que causa o envelhecimento celular for bem compreendido, esperam cientistas. Pesquisadores chineses e americanos conseguiram um importante avanço nesse sentido ao estudar o processo que causa a síndrome de Werner, condição que causa o amadurecimento acelerado do organismo.

Pacientes com essa enfermidade hereditária costumam viver pouco, em média 46 anos. Os cientistas utilizaram células-tronco embrionárias humanas para simular o que ocorre no organismo dos indivíduos com a síndrome e descobriram que a degeneração de uma estrutura do DNA chamada heterocromatina desempenha um papel crucial nos danos causados ao corpo pelo tempo. Os autores do trabalho, apresentado na edição de hoje da revista Science, acreditam que a descoberta pode levar a uma série de novos tratamentos.

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O tema do estudo interessa os especialistas há alguns anos. “Nossa equipe tem se empenhado em usar a tecnologia celular para estudar o envelhecimento humano e as doenças relacionadas com esse processo”, contou ao Correio Guanghui Liu, professor do Instituto de Biofísica da Academia Chinesa de Ciências. Guanghui e colegas já tinham feito estudos sobre a genética por trás de males como a síndrome de Hutchinson-Gilford e o mal de Parkinson, mas dessa vez decidiram investigar uma condição mais rara, que afeta uma em cada 200 mil pessoas. “Decidimos estudar a síndrome de
Werner por ser mais semelhante ao envelhecimento humano natural”, justifica.

O grupo utilizou, então, técnicas de edição de gene nas células-tronco embrionárias para replicar em laboratório a mutação genética responsável pela doença. Ao apagar o gene WRN, causador da síndrome, a equipe pôde notar o rápido declínio das estruturas, como ocorre com os pacientes.
Porém, eles perceberam algo novo: a supressão do WRN também levou a rupturas na estrutura de heterocromatina, um conglomerado de DNA e proteínas que auxilia no funcionamento das células.

O segundo passo foi investigar se a mesma degradação da heterocromatina ocorre no processo natural de envelhecimento. Uma análise em células de pessoas idosas mostrou que sim. Um novo mecanismo por trás do envelhecimento havia sido descoberto. “O achado mais importante é que a degeneração da heterocromatina é uma força motriz para o envelhecimento de células humanas, e esse é um novo conceito no campo de envelhecimento”, explica Guanghui.

Plausível
Os resultados alcançados chamam a atenção de especialistas da área que não participaram do trabalho. Segundo Maria Aparecida Camargos, geriatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pesquisa mostra novas informações importantes. “É um estudo muito benfeito, e a alteração da heterocromatina mostrada no experimento pode sim estar ligada ao envelhecimento em pessoas que não têm a síndrome de Werner, já que, no modelo com pessoas idosas sem a doença, constatou-se a mesma alteração. É bem plausível que o mesmo efeito ocorra com a chegada da idade ao corpo humano”, analisa.

"O achado mais importante é que a degeneração da heterocromatina uma força motriz para o envelhecimento de células humanas, e esse é um novo conceito no campo de envelhecimento” - Guanghui Liu, professor do Instituto de Biofísica da Academia Chinesa de Ciências


Michele Migliavacca, geneticista do laboratório Exame, também destaca que a pesquisa é interessante, pois utiliza dados de uma enfermidade conhecida para entender melhor como o envelhecimento acontece no corpo humano por meio da genética. “Os pesquisadores viram que os pacientes que tinham Werner mostravam uma instabilidade na heterocromatina. Se esse envelhecimento precoce está ligado a esse mecanismo, é possível que a mesma mutação esteja presente em pessoas mais idosas que não têm a doença”, resume a especialista. Migliavaca frisa a importância da heterocromatina para o corpo humano. “Ela é o que chamamos de DNA empacotado e está ligada à expressão dos genes. Um desarranjo nessa região pode, sim, estar ligado a problemas, como as doenças causadas pelo envelhecimento”, acredita.

Possíveis tratamentos
Os autores do estudo acreditam que a descoberta pode ajudar, futuramente, na criação de estratégias de combate as doenças ligadas à idade avançada. “Ao sugerirmos que alterações acumuladas na estrutura de heterocromatina podem ser uma das principais causas subjacentes do envelhecimento celular, levantamos a questão sobre se é possível reverter essas mudanças, como a remodelação de uma casa ou um carro antigo”, afirma à reportagem Juan Carlos Izpisúa Belmonte, coautor do artigo e professor do Laboratório Gene Expression (EUA).

De acordo com o professor, com isso, seria possível prevenir ou até mesmo reverter doenças relacionadas à velhice e à síndrome de Werner. “Precisamos agora estudar a relevância desses resultados, não só para os tipos de células específicas usadas em nossos estudos, mas também outros”, acrescenta Belmonte.

Entretanto, estudos mais amplos são necessários para confirmar o efeito do desgaste da heterocromatina e compreender melhor outros processos celulares ligados ao envelhecimento. Os autores têm desenvolvido também tecnologias de edição genéticas para reverter alterações que refletem no envelhecimento humano e no surgimento de doenças. “Utilizando nossa plataforma de células-tronco com base na síndrome de Werner, tentamos rastrear alguns compostos com a capacidade de retardar o envelhecimento humano. Precisamos saber que tipos de células diferenciadas podem ser reprogramadas. Se fizermos isso, poderemos ajudar na busca pela cura de muitas doenças”, adianta Guanghui. “Serão necessários mais modelos com animais para avaliar o papel das mudanças genéticas durante o envelhecimento do organismo”, complementa Belmonte.

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