Pequeno milagre

por Zulmira Furbino 11/05/2015 18:25

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Maria pegou uma chuvarada a caminho do analista. Tremendo de frio, ligou chorando para a mãe, que estava no trabalho. No fim da sessão, ela poderia, pelamordideus, lhe enviar um Uber? O fato se deu justo no momento em que sua genitora observava, num site de notícias, slides dos alienígenas que teriam sido recolhidos pelos EUA em 1947 (caso Roswell).

Tudo certo, tudo incerto, não custou um átimo para que ela se transportasse para uma era entre o fim de 1982 e o início de 1983, no meio de um temporal na Rua Tupis, em frente ao Cine Jacques (num certo ponto da vida, é inevitável que tudo deságue em memória).

E.T. – o Extraterrestre acabava de estrear no cinema e havia uma multidão embolando-se pra lá do Ted's, na tentativa de ver o filme. Sem dinheiro e sem sombrinha, a mãe de Maria tentava achar o irmão, Tunico, que deveria estar na fila para a sessão das 16h. Não deu.

A grana embolada no bolso da calça jeans suja e apertada era a conta exata da passagem de volta pra casa. Como a chuva não parava e a sessão havia começado, a saída seria encarar o aguaceiro até o ponto do ônibus.

Fazia frio, ventava. A roupa da mãe de Maria estava encharcada e, ainda por cima, ela havia perdido a estreia de E.T. (não era uma tragédia, mas era quase, por isso, nesse ponto, ela começou a chorar).

Uma hora e meia de tempestade depois, nada do ônibus apontar na avenida. Para não entrar em desespero, a futura genitora resolveu aguardar e, sem perceber, foi dividindo a espera em pequenos blocos molhados de tempo, até que três preciosas horas se passaram.

Aí não deu mais. O único jeito seria tentar tomar um táxi, que o pai pagaria quando ela chegasse em casa (não, não, e se ele estivesse sem dinheiro no bolso?). Antes, ela teria de comprar uma ficha de telefone, com o risco de desinteirar o dinheiro da passagem.

Smartphone, Uber, WhatsApp, que falta vocês fizeram!

Ao lado dela, uma moça de camisa de ombreira e calça bag falou com alguém no orelhão e saiu feliz da vida. Animada com a cena, a garota, que a essa altura já tinha chorado rios inteiros, decidiu comprar a tal ficha telefônica.

Discou 462-2735. Nem sinal. A ficha foi engolida. Tudo bem, o dinheiro que sobrou dava para comprar outra, pensou, saindo em busca de outro orelhão.

Plic, plec, plec, plic, plec.

Com sua boca de monstro-dragão-jacaré-tubarão, o terrível engolidor de chamadas urgentíssimas devorou a última ficha, sem completar a ligação. Agora não dava mais nem pra comprar outra e muito menos pegar o busão. A única saída seria tomar um táxi (momento seja o que Deus quiser).

A então adolescente, que um dia daria luz a Maria, atravessou a Avenida Augusto de Lima e desceu a Rua Espírito Santo, no rumo da Avenida Afonso Pena. Sem táxi à vista, resolveu caminhar até a rodoviária, onde seria impossível não encontrar transporte. Tiritando de frio e medo, cruzou a Praça Rio Branco, seguindo para o terminal de chegada.

No primeiro lance de escada de acesso à área, um choque.

Estava tudo inundado. A água ia a pelo menos metro e meio de altura. A futura genitora desabou e voltou para a Afonso Pena, sem saber o que fazer. Na esquina da Rua São Paulo, porém, deu-se o pequeno milagre: ela se lembrou de Antônia, amiga de sua irmã que morava ali pertinho. Bateu na porta dela com a humildade dos desamparados.

Foi acolhida com carinho, banho quente, escalda-pé, leite com Toddy, roupa seca e cheirosa, por um tempo que durou até que a chuva fosse embora por completo. Sã, seca e salva, despediu-se, agradecendo, e levando como única preocupação a possibilidade de encontrar um conhecido no caminho, porque, francamente, a roupa que Antônia emprestou estava meio fora de moda.

E assim termina a história de uma mãe outrora filha.

 

Aos olhos das meninas de hoje o caso parecerá um conto alienígena, ambientado num tempo estranho, quando o mundo era gentil, despovoado de petralhas e coxinhas, onde havia água pra dar e vender e não existia Uber ou smartphone para acionar socorro imediato na iminência de um aperto.

Coisa da Idade da Pedra, claro.

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