Como anda a sua memória?

Esquecer-se com frequência das coisas pode ser apenas um indício de cansaço e estresse temporário. Mas as causas devem ser combatidas para que o cérebro volte a guardar as informações importantes

por Zulmira Furbino 29/04/2015 09:00

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A hora de se preocupar com o esquecimento quando a rotina diária começa a ficar comprometida (foto: istockphoto)
O empresário Ademir Lopes, de 55 anos, não é propriamente fã das viagens de avião, mas precisa enfrentar seus muitos temores mais vezes do que gostaria. Foi o que ocorreu em sua última viagem a São Paulo, para participar de uma importante reunião de trabalho. Quando a aeronave aterrissou na pista do aeroporto de Congonhas, Ademir sentiu-se aliviado por sair de um voo difícil, com muita turbulência. Mas, ao pisar no saguão do aeroporto, se deu conta de que acabara de esquecer algo fundamental: o local onde seria realizado o encontro de negócios. Assim como o empresário, todos os dias, milhões de pessoas passam pela agonia da sensação da perda momentânea de memória, já considerada um mal do século 21. A boa notícia é que isso não quer dizer que apagar um endereço da cabeça, levar um tempão para encontrar a chave do carro na hora de sair de casa ou esquecer onde você estacionou o carro sejam sintomas de doença. Na maioria das vezes, a perda de memória no dia a dia está ligada à falta de atenção, que, no caso de Ademir, foi causada pela ansiedade e pelo estresse com a viagem aérea.

De acordo com o geriatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Flávio Chaimowicz, que presta atendimento geral no ambulatório do Hospital das Clínicas, a maioria das pessoas que se queixam de falta de memória não têm problemas com a memória em si, apenas estão impedindo que ela funcione bem, não importa a idade. Para que isso ocorra, segundo ele, é preciso, em primeiro lugar, prestar atenção no que se está fazendo. Do contrário, o cérebro não vai guardar a informação. “Quando você entra de carro no estacionamento do shopping e, na volta, esquece onde ele foi deixado, certamente, no momento de estacionar estava atrasado para o cinema ou pensando nas compras que ia fazer e, por isso, não prestou atenção no local onde deixou o carro”, explica Chaimowicz. O mesmo ocorre quando você chega em casa, fecha a porta, joga a chave em algum lugar, vai correndo para o banheiro fazer xixi e só se dá conta de que não tem a menor ideia de onde foi parar a chave quando tem de sair de novo.

REGISTRO
Nesses momentos, o local onde o carro foi estacionado ou a chave foi deixada foram, de certa forma, deixados de lado e não chegaram a ser registrados pelo cérebro por falta de atenção, que pode ser causada por ansiedade ou estresse, pela falta de sono satisfatório, pela depressão e até por causa de medicamentos para dormir. Também entram no pacote as intensas cobranças da vida contemporânea, como o hábito de fazer coisas demais ao mesmo tempo e jornadas de trabalho muito longas. Como a atenção é uma das funções mais atingidas em situações de estresse, depressão e fadiga, a sensação de falha na memória começa a aparecer, já que o cérebro prioriza algumas informações e descarta outras.

Uma boa regra para começar a se preocupar com o esquecimento é verificar até que ponto ele está comprometendo a rotina diária em contextos diferentes. Se alguém tem problemas de memória apenas na escola, por exemplo, certamente é devido ao mau hábito e não a uma condição médica. Vale lembrar que, no tocante à memória, o diagnóstico mais temido é a doença de Alzheimer, que atinge principalmente pessoas acima de 75 anos. Nessa idade, se a pessoa estiver muito esquecida, a primeira coisa a fazer é observar os medicamentos para dormir e trocá-los, no caso de eles atrapalharem a memória. Se, aos 75, uma pessoa está esquecida das mesmas coisas que a maioria das pessoas mais novas, seu caso não é preocupante. Para saber como está sua memória, faça o teste:

Arte: Soraia Piva / EM / D.A. Press


Foco na consciência
Atenção ao que se faz é o melhor passo para reter informações na memória. Especialistas alertam que cérebro sobrecarregado fatalmente vai levar ao esquecimento

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
Ademir Lopes diz que se esquece frequentemente de compromissos marcados com a filha, Adriana (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
Ao contrário do que se imagina, o cérebro humano não é uma máquina preparada para registrar tudo e, em seguida, selecionar e apagar o que é mais importante. A maioria dos estímulos tem passagem breve pela memória, como aquele número de telefone que você guarda só para discar e depois esquece. É a atenção que seleciona o que é mais importante. Mas se uma pessoa está continuadamente preocupada com uma série de coisas, é como se tivesse investindo sua atenção num número grande demais de objetos. Se isso ocorre todos os dias, alguns desses objetos não receberão atenção suficiente para serem guardados na memória. As consequências dessa desatenção podem ser ligeiramente incômodas, como no caso da cabeleireira que, repetidamente, se esquece de onde guardou a escova de cabelo. Mas em alguns casos vai a extremos, como pais e mães que esquecem seus filhos pequenos no carro, provocando uma tragédia de proporções inimagináveis em suas vidas.

De acordo com o psiquiatra e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) José Lorenzato de Mendonça, a atenção é responsável por dirigir o foco da consciência. Mas se os episódios de esquecimento estiverem frequentes demais, o ideal é que a pessoa procure um especialista com o objetivo de avaliar se seria recomendável reduzir o ritmo e mudar o estilo de vida. “Um nível de estresse médio é necessário para manter o animal (e o homem) vigilante e a ausência do estresse é a depressão”, explica. De acordo com ele, o estresse desejável garante a sobrevivência, mas se ele está muito diminuído, é sinal de depressão ou outra doença. Se está elevado demais, a situação se torna mais perigosa. Um cérebro que está sendo obrigado a atentar para uma série de coisas está sobrecarregado; portanto, não vai sobrar atenção para que a pessoa se lembre de onde deixou a escova de cabelo ou para perceber que a criança ficou dentro do carro”, sustenta.

A cabeleireira Simone Maria de Castro Fonseca, de 38 anos, queixa-se de esquecimentos recorrentes. “Esqueço sempre onde coloco as coisas. Pego uma chave, ponho em cima de algum lugar e vou atender à porta. Depois, não sei onde ficou a chave e preciso procurar na casa toda outra vez. No trabalho, pego a escova de cabelo e acho que a coloquei na bancada, mas quando vou procurar e não acho me dou conta de que não a deixei ali, e sim dentro de uma gaveta. O mesmo ocorre com os pincéis de maquiagem”, reconhece. Ela atribui isso ao fato de já haver tomado antidepressivos e medicamentos para dormir. “Foi há sete anos e apenas por quatro meses, mas depois passei a esquecer algumas coisas. Para combater esse esquecimento, leio muito e faço palavras cruzadas”, diz. Além dos remédios, Simone acredita que as facilidades oferecidas pela tecnologia contribuem para que as coisas não sejam retidas na memória. “Com o Google, por exemplo, fica tudo muito fácil. Você procura uma informação, encontra-a imediatamente, e esquece rápido. Não dá tempo de aprender, compreender ou decorar”, avalia.

PILOTO AUTOMÁTICO
Quando está trabalhando, o empresário Ademir Lopes precisa percorrer uma série de rotas para chegar aos seus clientes, mas não é incomum que, nos fins de semana, ao passar nessas ruas por outros motivos, ele se pegue bem no meio de uma das rotas do trabalho, guiado pelo piloto automático. Ademir costuma descer o elevador lendo anotações ou checando o celular e, por isso, quando a máquina para no meio do caminho para apanhar outro morador, ele costuma sair como se já tivesse chegado à garagem. Também já deu o bolo na filha, Adriana Lopes, com quem havia combinado de ir ao cinema e sair para jantar. “Acredito que situações como essas ocorram com todo mundo. Comigo, que sou prestador de serviços, ocorre sempre que estou concentrado em solucionar um problema que pode acarretar algum tipo de transtorno para os meus clientes. É como se todo o resto fosse periférico”, observa. Além disso, na visão dele, o número de compromissos que uma pessoa tem hoje em dia triplicou, o que torna o tempo escasso para fazer tanta coisa. “O desgaste mental é muito grande”, resume.

Cristina Horta/EM/D.A Press
A cabeleireira Simone Maria de Castro vive às voltas com as ferramentas de trabalho que, geralmente, não sabe colocou (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
Para José Lorenzato, porém, as pessoas costumam acreditar que a vida contemporânea é estressada, mas é preciso lembrar que estressado é o jeito de viver. “Estresse é sobrecarregar o cérebro de ambição demais, medo demais, por exemplo. Isso é um alerta de que a pessoa está indo para um caminho perigoso. O indivíduo bacana tem um estresse bacana, bonito, como as cordas de um violino. Sem esse estresse, bambas demais, elas não produzem o som; excessivamente retesadas, podem se romper”, alerta. O geriatra Flávio Chaimowicz diz que os problemas mais comuns, que levam pessoas como Simone e Ademir, que estão longe de doenças como o Alzheimer, a deixar de se lembrar de coisas rotineiras podem ser o sono inadequado, o abuso no uso da memória ou o uso de remédios para dormir. “No mundo atual, um fenômeno muito comum é a atenção dividida, o que prejudica o funcionamento da memória. As pessoas têm tanta coisa para fazer que é preciso se organizar, ter uma agenda. É melhor usar uma agenda e manter o cérebro funcionando bem do que deixá-lo funcionar mal”, recomenda.

MEMÓRIA
O que é e como funciona

» Trata-se de um complexo processo que usa os cinco sentidos para captar informações e envolve diferentes habilidades e estágios. Falhas em qualquer uma das etapas podem resultar na perda da informação

Atenção
» Habilidade de estar atento para absorver as informações

Registro/Codificação
» Registro inicial da informação, assim que é recebida pelo cérebro. Nesse estágio, é determinado se o dado será armazenado ou não. Isso vai depender da atenção despendida e do quanto a informação é significativa

Armazenamento
» Se a informação foi registrada, ficará armazenada na memória de longo prazo

Consolidação
» Processo de uso da informação que foi armazenada. Caso um dado não seja utilizado com frequência, será descartado pelo cérebro

Evocação/lembrança
» Resgate da informação, que pode ser voluntário ou involuntário

COMO MANTER A MENTE AFIADA
» É preciso treinar desde cedo, mas não basta ler livros ou jornais. É preciso argumentar, expor opiniões, o que é fundamental para a memória
» Manter uma alimentação saudável, com baixo teor de gordura, para prevenir-se contra doenças vasculares
» Praticar atividades físicas
» Levar um estilo de vida menos estressante

TIPOS DE MEMÓRIA
Memória de trabalho

» Usada para coisas rápidas que, provavelmente, não serão necessárias novamente, como um número de telefone memorizado pelo tempo suficiente de discar.

Memória declarativa
» Aquela que entendemos como autobiográfica. Está relacionada a fatos: “Lembro-me de que ocorreu um tsunami no Japão”

Memória não declarativa
» É a memória de atos, como o de andar de bicicleta ou de amarrar os cadarços dos sapatos. Não sabemos exatamente como ocorreu, mas memorizamos o movimento. Geralmente, está relacionada à repetição.

Fonte: Hospital Israelita Albert Einstein

ENTREVISTA
Exercite sua memória
Professor universitário e recordista latino-americano de memorização


Euler Junior/EM/D.A Press-21/2/11
"Uma fórmula interessante de revisão seria a seguinte: para cada hora de aula, faça uma revisão de 10 minutos. Observe que essa revisão deve ser feita nas primeiras 24 horas. Ela será suficiente para segurar em sua memória toda a informação aprendida em sala de aula" (foto: Euler Junior/EM/D.A Press-21/2/11)


Para o professor universitário e recordista latino-americano de memorização Alberto Dell’lsola, não existe memória espontânea. E ele mesmo é o exemplo vivo disso. Houve um tempo em que Alberto esquecia os nomes das pessoas, reuniões, números de telefones, senhas do banco, piadas que o Jô Soares havia feito na noite anterior e até mesmo a chave de casa. Em contraste com essa realidade, porém, hoje ele ganha a vida por causa de sua memória excepcional. O que mudou, afinal? Alberto resolveu treinar sua memória. Passou vários meses debruçado em livros sobre o tema, testando o que funcionava, e criava a cada dia uma nova técnica, descartando ou alterando as que não produziam efeito. O exercício foi um sucesso.


O que é a memória? Como ela funciona?
A memória é uma função “inteligente”, que permite que seres humanos e animais se beneficiem da experiência passada para resolver problemas apresentados pelo meio. Proporciona aos seres vivos diversas aptidões, desde o simples reflexo condicionado até a lembrança de episódios pessoais e a utilização de regras para a antecipação de eventos. Normalmente, é vista como uma fita de vídeo, como se todas as nossas experiências estivessem gravadas para sempre. Mas lembrar implica um processo ativo de reconstrução e não se assemelha em nada a assistir a uma fita de vídeo do passado.

Estamos programados para esquecer ou para lembrar?
Somos programados para lembrar de coisas diretamente relacionadas com a nossa sobrevivência e desejos pessoais. Lembramos facilmente do encontro com uma pessoa em quem estamos sexualmente interessados, ou de almoçar. No entanto, é bem mais difícil recordar a matéria que estudamos no colégio ou na faculdade, a não ser que exista um grande envolvimento emocional. Alguém que é aficcionado por carros, naturalmente vai memorizar qualquer coisa relacionada ao tema.

Por que a gente se esquece de coisas rotineiras?
O problema é a multitarefa. Nossa mente consciente só é capaz de trabalhar com uma tarefa por vez. Todos os outros comandos realizados simultaneamente serão executados por nossa mente inconscientemente, de forma automática. Isso explica por que, às vezes, entramos no carro para ir ao clube no fim de semana e, sem perceber, nos damos conta de que o caminho que tomamos é o do trabalho. Apesar de o nosso inconsciente ser bastante rápido nas suas decisões, ele nem sempre toma as melhores decisões.

É possível combater lapsos de memória?
Sim. Primeiro pelo hábito. Criar o hábito de sempre deixar as chaves e a carteira no mesmo lugar ao chegar em casa é um exemplo disso. Outro meio é evitar a multitarefa. Além disso, é preciso evitar a transitoriedade. Entre 50% e 80% do que um estudante aprende num dia depois de uma hora de palestra é esquecido nas primeiras 24 horas. Ao fim de um mês, restarão apenas entre 2% e 3% de toda informação adquirida no primeiro dia. Assim, quando chegar lá, você terá a impressão de que nunca ouviu falar do assunto estudado e vai ter que começar a estudar do início.

Isso pode mudar?
Nosso cérebro grava informações de maneira temporária: conversas no corredor da faculdade, a roupa que você estava usando no dia anterior, o nome de amigos apresentados em uma reunião, a música que acabou de tocar no rádio. Se você não criar códigos de memória, toda essa informação será descartada. A cada revisão você cria novos códigos de memória, fixando a informação. Uma fórmula interessante de revisão seria a seguinte: para cada hora de aula, faça uma revisão de 10 minutos. Observe que essa revisão deve ser feita nas primeiras 24 horas. Ela será suficiente para segurar em sua memória toda a informação aprendida em sala de aula. Uma semana depois, para cada hora de aula expositiva, você precisará de apenas 5 minutos para reativar o mesmo material, elevando a curva para 100% mais uma vez. Ao final de 30 dias, você precisará de apenas entre dois a quatro minutos para obter novamente os 100% da curva de aprendizagem.

É possível treinar a memória? Há treinos diferentes para objetivos diferentes?
Seim existem treinamentos. O grande segredo é que cada assunto a ser memorizado requer uma técnica diferente. Ou seja, se eu for treinado para memorizar cartas de baralho, isso não vai garantir que eu me lembre da data de aniversário do meu casamento. Tarefas diferentes precisam de técnicas diferentes.

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