Estudo investiga melhora de pacientes com autismo após uso de antibiótico

Melhoras em sintomas do transtorno após a ingestão do medicamento têm intrigado cientistas. Uma das linhas de pesquisa indica que o benefício pode estar ligado a mudanças na flora intestinal

por Isabela de Oliveira 28/04/2015 15:00

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CB/D.A Press
Pai notou melhora no filho diagnosticado com autismo aos 2 anos após tomar amoxicilina para dor de garganta (foto: CB/D.A Press)
As observações de um pai atento detalhadas na revista especializada Microbial Ecology in Health and Disease surgem como uma esperança para pessoas com autismo. O médico John Rodakis conta sobre uma experiência que pauta a sua vida: a incontestável melhora do filho autista após o uso de um antibiótico comum. A constatação não é exclusiva do norte-americano: outros pais e pesquisadores narram experiências similares. Por isso, defende Rodakis, a suspeita vale investigação.

O médico notou os primeiros sinais do distúrbio quando o filho tinha 2 anos e meio. A criança, até então com um desenvolvimento considerado normal, passou a evitar contato visual e a sofrer com tarefas que saíssem da rotina. Não demorou para que fosse diagnosticada com autismo moderado para grave no Centro Médico Infantil em Dallas, nos Estados Unidos. A experiência intrigante com o antibiótico ocorreu cerca de um ano depois, logo após o Dia de Ação de Graças de 2012.

Após o tradicional encontro com parentes, os dois filhos de Rodakis contraíram uma infecção na garganta. Eles foram submetidos a um tratamento de 10 dias com um dos antibióticos mais comuns do mercado, a amoxicilina. A inflamação regrediu em apenas dois dias. O que aconteceu em seguida, entretanto, foi o que chamou a atenção dos pais: no quarto dia do tratamento, alguns dos sintomas do filho com autismo melhoraram visivelmente. O progresso evoluiu diariamente e em velocidade impressionante.

“No sexto dia, ele andou de triciclo na sala, pela primeira vez, sozinho e desprotegido, o que foi incrível, porque havíamos comprado o triciclo seis meses antes”, comemora o pai, completando que, até então, o filho sequer havia conseguido empurrar os pedais com força suficiente para sair do lugar. “Alguns podem questionar a exatidão e a validade das nossas observações. Mas, além das minhas, os terapeutas fizeram comentários espontâneos sobre quão melhor ele parecia”, diz Rodakis.

O pai garante que não informou aos médicos que os progressos tinham acontecido simultaneamente à dor de garganta e à amoxicilina. Intrigado com a reação inesperada do filho, ele procurou outros pais para compartilhar a experiência. Ouviu relatos parecidos. Algumas pessoas, inclusive, admitiram administrar os antibióticos aos filhos regularmente, apesar das contraindicações. Outras famílias, por outro lado, observaram pioras, o que deixou o médico ainda mais intrigado. “Essas histórias não são contraditórias, mas reforçam a noção de que o antibiótico tem influência sobre o autismo”, diz Rodakis, acrescentando que, naquele ponto, já estava determinado a compreender melhor o fenômeno.

Estudos escassos
Sozinho, o médico começou a investigar a literatura em busca de algum relato científico que corroborasse a observação. Um dos resultados — uma pesquisa de 2000 conduzida por Richard Sandler, do Chicago Rush Children's Hospital — chamou a atenção. Sandler realizou testes clínicos com 10 crianças autistas, todas submetidas a tratamento com um antibiótico oral chamado vancomycin. Oito apresentaram melhoras visíveis, o que fez com que os pesquisadores especulassem que o benefício poderia estar ligado a alterações nas bactérias do trato intestinal.

“Até hoje, eu estou confuso pela falta de estudos sobre esse fenômeno”, lamenta Rodakis, acrescentando que, apesar do alarmante aumento de casos de autismo, ninguém consegue explicar o que o transtorno realmente é. Embora não existam muitas pesquisas direcionadas para o efeito dos antibióticos em autistas, há tímidos avanços e evidências indiretas. Há estudos, por exemplo, que detectaram diferenças na composição da microbiota de crianças autistas em relação às que não têm o transtorno. Outros identificaram espécies de micro-organismos não presentes na população geral. Os resultados, porém, são frágeis, pois crianças autistas costumam seguir dietas diferenciadas.

Em 2013, entretanto, notícias animadoras emergiram dos resultados de um estudo publicado na revista especializada Cell. Após simularem uma infecção em ratinhas grávidas, cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, verificaram que os filhotes com sintomas parecidos com o autismo tinham a microbiota diferente da dos demais. O curioso, nota Rodakis, é que as cobaias cresceram no mesmo laboratório, se alimentando da mesma comida.

“Esses achados sugerem que a diferença da composição das bactérias do intestino dos camundongos não foram resultado do acaso, mas, talvez, tenham sido ‘autorizadas’ ou ‘habilitadas’ pela infecção da mãe”, especula Rodakis, reforçando que podem existir mecanismos desconhecidos no processo. O médico ainda não tem respostas concretas sobre o que pode ter acontecido com o seu filho e com outras crianças autistas que experimentaram reações semelhantes.

Perigos

Na busca por respostas, procurou Richard Frye, diretor do Programa de Pesquisa em Autismo do Instituto de Pesquisa do Hospital de Crianças do Arkansas, também nos EUA, para desenvolver um protocolo de estudos que o permita se aprofundar na questão. Para isso, montou a organização sem fins lucrativos N of One: Autism Research Foundation. Juntos, estão desenvolvendo um ensaio clínico para esmiuçar a base biológica do fenômeno. A ideia, conta Rodakis, é analisar as alterações bioquímicas e microbianas que ocorrem antes e depois de algumas crianças com autismo ingerirem antibióticos. “A esperança é que possamos aprender mais sobre como funciona o transtorno.”

Christian Muller, neuropediatra do Hospital Santa Luzia, em Brasília, explica que, ao longo dos anos, todas as pesquisas sobre autismo se concentraram em duas áreas: diagnóstico e tratamento. “A discussão a respeito de antifúngicos e antimicrobianos vem nessa linha, buscando um suposto tratamento para fungos e bactérias intestinais que ocasionariam sintomas no autismo, principalmente os comportamentais”, conta. A dificuldade é que, assim como a história de Rodakis, os estudos dessa natureza são relatos de casos isolados e, por isso, não têm força suficiente para se tornar regra.

“Nenhum estudo ainda conseguiu adequadamente mostrar sua efetividade”, diz Muller, advertindo que utilizar medicamentos contra fungos ou bactérias indiscriminadamente pode gerar um grave desequilíbrio na flora intestinal. “Outro risco são os conhecidos efeitos colaterais dos antifúngicos, como anemia e alterações no fígado”, complementa.

O médico cita mais um exemplo de tratamento que coloca em risco a saúde do paciente autista: a dieta sem glúten. Segundo ele, embora existam observações de que as crianças com o transtorno apresentam uma resposta imune ao glúten, a restrição pode ser danosa, se feita sem orientação. Um desfecho ruim é a deficiência de cálcio, vitamina D e aminoácidos. “As pesquisas são importantes e fundamentais, mas é preciso cuidado ao extrapolar uma ideia inicial sem o adequado cuidado”, alerta o neuropediatra.

Mais diagnósticos
Um levantamento divulgado, no ano passado, pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA indica um aumento nos casos de autismo no país. Em 2010, a proporção era de 1 paciente para cada 68 crianças com 8 anos. Dois anos antes, era de 1 a cada 88. Em 2006, 1 para 110. O motivo do aumento não foi discutido no estudo, mas especula-se que seja devido a melhoras na detecção do problema. Ainda assim, a maioria das crianças não recebeu o diagnóstico antes dos 4 anos. Especialistas dizem que é possível fazê-lo a partir dos 2. Não há estudos científicos sobre o aumento dos casos de autismo no Brasil. A estimativa é de que 2 milhões de pessoas tenham o distúrbio no país.


Sem se precipitar
“Essas observações não têm evidência específica sobre como a ingestão de antibiótico altera os sintomas do autismo. Existe muita especulação, mas nada comprovado. No dia a dia, os médicos sequer cogitam isso. Relatos de casos isolados não têm força nenhuma. Assim, seria muito fácil. A gente simplesmente iria à farmácia, compraria esses antibióticos e estaria tudo bem. Mas a ciência não funciona assim. Então, é muito precipitado afirmar alguma coisa sem estudos que corroborem as impressões.”

Rudimar Riesgo, chefe da Unidade de Neuropediatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

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