Tratamento precoce pode evitar que jovens com transtornos virem psicopatas

Especialistas afirmam que o diagnóstico e as chances de evitar que crianças e adolescentes com transtornos de conduta se tornem psicopatas cruéis na idade adulta são complicados

por Paloma Oliveto 27/04/2015 09:10

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
“O que é aquela coisa branca que sai do seu nariz quando você se afoga?” Naquela tarde de 31 de maio de 1986, o pequeno Jeffrey parecia bem curioso quando fez essa pergunta a um amiguinho de Kissimmee, cidade da Flórida onde moravam. Mas não havia nada de inocente no questionamento. Horas antes, o garoto de 9 anos tinha jogado uma criança de 3 no fundo de uma piscina, puxado uma cadeira e assistido, durante uma hora, a agonia e a morte da vítima. Quando interrogado pela polícia, explicou calmamente o motivo do crime. Simplesmente queria ver como alguém morria afogado. “Ele entendia que seu ato tinha levado à morte de Ricardo, mas parecia indiferente”, declarou, na época, a detetive Beth Peterka ao jornal local The Sentinel Staff.

O inquérito policial de 13 páginas revelou que o assassinato do garotinho não tinha sido o primeiro ato macabro praticado por Jeffrey. Crianças menores disseram que ele as aterrorizava, inclusive forçando-as a roubar brinquedos em lojas da cidade. Duas semanas antes de matar Ricardo, o homicida de 9 anos jogou uma garota de 6 na parte mais funda de uma piscina próxima de sua casa e fugiu. Uma pessoa viu a cena e conseguiu salvar a menina. A três dias do afogamento letal, Jeffrey ainda levou um vizinho de 5 anos para jogar videogame em um shopping sem avisar nada à família do menino, que chegou a procurar a polícia para comunicar o desaparecimento do filho.

Jeffrey Bailey foi diagnosticado como sociopata, mas nenhuma clínica de tratamento psiquiátrico o aceitou como paciente, por causa da pouca idade. Condenado por assassinato em segundo grau, ficou detido em um centro de correção juvenil até os 18 anos e, então, libertado. Apesar de não ter sido a primeira nem a última criança a cometer um crime desse porte, os especialistas que, na época, se manifestaram sobre o crime ficaram assustados por Jeffrey representar algo que, para a medicina, não existe: um psicopata mirim.

Quase 20 anos depois, uma sucessão de assassinatos perpetrados por meninos e meninas tão ou ainda mais jovens que ele convenceram alguns psiquiatras de que pode haver crianças psicopatas. Como o cérebro não está totalmente maduro antes dos 18 anos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais (DSM), a bíblia da psiquiatria, admite que pessoas que se encaixam nessa definição podem exibir transtornos de conduta antes dos 15 anos, mas só classifica a psicopatia após os 18. O problema, afirmam especialistas, é que isso dificulta o diagnóstico precoce e as chances de evitar que crianças e adolescentes com o transtorno se tornem psicopatas cruéis na idade adulta.

CB / D.A Press
Pesquisa defende a noção de 'pré-psicopata' (foto: CB / D.A Press)


Estereótipo

Um dos que pensam assim é o psicólogo Tim Stickle, professor da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, para quem, ao menos, deve-se aceitar a noção de pré-psicopatas. No mês passado, ele publicou um estudo na revista Journal of Abnormal Child Psychology afirmando que é possível ensiná-los a lidar com emoções, evitando que os traços psicopatas floresçam após os 18 anos. Stickle garante que, entre os jovens com tendência à sociopatia, algumas das características mais marcantes dessa condição podem não se aplicar.

“O estereótipo de um psicopata é aquela pessoa insensível, sem emoções, cruel, incapaz de sentir empatia e remorso”, diz o psicólogo, para quem o cinema tem uma boa dose de responsabilidade sobre essa imagem. Em um adulto, esses traços estariam acima de qualquer tentativa de tratamento, mas Stickle defende que, entre jovens, é possível revertê-los ou impedir que se agravem.

O artigo que o especialista publicou baseou-se em uma pesquisa que ele e o aluno de graduação Andrew Gill realizaram em centros de detenção juvenil dos EUA. O estudo focou 150 pessoas de ambos os sexos, entre 11 e 17 anos, que haviam passado por avaliação psiquiátrica prévia e sido classificadas como incapazes de ter emoções. Cumpriam medida penal devido a comportamentos antissociais graves e pareciam no caminho de se tornarem psicopatas.

Sally MacCay / Divulgação
"No fundo, parte desses jovens sente muito medo, são extremamente depressivos e ansiosos. Caso recebam tratamento a tempo, poderão viver uma vida normal e produtiva" - Tim Stickle, psicólogo da Universidade de Vermont (foto: Sally MacCay / Divulgação )
Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID), compêndio da Organização Mundial da Saúde, o transtorno da personalidade psicopática é um subgrupo da personalidade antissocial que, por sua vez, está inserido nos transtornos específicos da personalidade. O diagnóstico baseia-se em um checklist composto por 20 itens organizado pelo psicólogo canadense Robert Hare na década de 1970. Com pontuação de 0 a 2, são avaliadas a ausência, a presença moderada ou a presença forte de cada uma das características, como impulsividade, delinquência na juventude, egocentrismo e mentiras patológicas.

Medo e ansiedade

Stickle reconhece que parte dos jovens da pesquisa se encaixa perfeitamente na lista de Hare. Hoje, inclusive, já existe uma versão juvenil do checklist. “São indivíduos que se adequam bem ao conceito de ‘frieza’. Eles simplesmente não se importam com os outros, têm grande dificuldade em se colocar no lugar do outro e não conseguem compreender a empatia”, diz. Mas alguns dos internos acompanhados pelo psicólogo viveriam, na realidade, um turbilhão de emoções negativas. “Esses jovens também exibem muitas características antissociais. São impulsivos, delinquentes, mentirosos, egocêntricos, perigosos, agressivos… Em uma primeira conversa, de fato aparentam frieza e incapacidade de sentirem empatia. Mas, na verdade, são extremamente suscetíveis”, defende.

Nesses casos, uma abordagem terapêutica poderia evitar que, em poucos anos, eles apagassem qualquer traço emocional e se convertessem em psicopatas clássicos, diz o especialista, que aposta na terapia cognitivo-comportamental e na dialética comportamental como abordagens possíveis de gerar resultados. “No fundo, parte desses jovens sente muito medo, são extremamente depressivos e ansiosos. Caso recebam tratamento a tempo, poderão viver uma vida normal e produtiva.”

Essa visão é compartilhada pela psicóloga norueguesa Aina Sundt Gullhaugen. Há três anos, ela publicou um trabalho na revista International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology, defendendo que psicopatas carregam uma alta carga de sofrimento, geralmente provocada por experiências traumáticas e dolorosas ocorridas na infância. Segundo a terapeuta, sem tratamento adequado, essas pessoas não sabem como lidar com as emoções — delas e dos outros. “Ainda estamos começando a compreender alguns distúrbios psiquiátricos. As minhas pesquisas estão indicando que aqueles que chamamos de psicopatas têm uma grande dificuldade de entender as emoções e controlar seu comportamento”, diz.

Um caso bem sucedido

Há pelo menos um caso famoso e bem-sucedido de uma criança pré-psicopata que, tratada, tornou-se uma adulta normal. Beth Thomas chegou à casa de Julie e Tim Tennant em 1984, com apenas 1 ano e 7 meses. Órfã por parte de mãe, foi adotada com o irmão de 7 meses pelo casal, que não desconfiava dos abusos que Beth havia sofrido do próprio pai. À medida que crescia, a menininha de olhos azuis tornava-se um monstro. Sua vítima predileta era o irmão. Ela o espancava, enfiava agulhas em seu corpo e o torturava, machucando, principalmente, seus órgãos sexuais. Beth também exibia uma característica atribuída aos psicopatas: sentia prazer em maltratar animais, chegando a matar filhotes de pássaros esmagados.

Sem saber o motivo de tanta agressão, os pais adotivos passaram a trancá-la no quarto durante a noite. Com apenas 6 anos, Beth estava roubando as facas da cozinha e tinha um propósito para elas. “Eu quero matar mamãe e papai.” É com uma calma desconcertante que a menina fala com o psiquiatra Ken Magid em uma cena filmada e exibida no documentário A ira de um anjo, de 1989. “Como você os mataria, Beth?”, pergunta o especialista. “Esfaquearia.” Ao longo do filme ela vai revelando com a mesma indiferença todas as atrocidades cometidas contra o irmão. Magid aconselhou que ela fosse internada em uma instituição de tratamento de crianças sociopatas, por onde já haviam passado pequenos homicidas.

Depois de um longo período de terapia intensiva, Beth aprendeu a ter consciência e a diferenciar o certo do errado. Contudo, jamais voltou à casa dos Tennant. Foi novamente adotada — dessa vez, por Nancy Thomas, que trabalhava no centro de recuperação. Hoje, a mãe adotiva tem uma organização de apoio a pais de crianças pré-psicopatas e, com Beth, escreveu um livro, lançado em 2010. A menina que tinha tudo para se tornar uma assassina fria é, atualmente, uma enfermeira bem conceituada e especializada no atendimento de crianças com traumas.

Para a professora de psiquiatria forense da Universidade de Monash (Austrália), Mairead Dolan, a certeza sobre a eficácia de um tratamento para pré-psicopatas só virá quando, em primeiro lugar, existir um consenso a respeito dessa condição. “Não sabemos se crianças e jovens podem mesmo ser psicopatas. Eu, particularmente, prefiro me referir a eles como jovens com características psicopatas. Acho prematuro rotulá-los dessa forma”, diz a especialista. “Mas, de fato, a maior parte dos médicos e psicólogos acredita que a psicopatia juvenil é um distúrbio com potencial de tratamento. Há, inclusive, alguma evidência de que a identificação precoce desses traços reduz o potencial de danos infligidos por esses jovens”, diz. (PO)

Controvérsia cerebral
Há dois anos, um estudo controverso publicado no jornal Current biology afirmou que o cérebro de crianças com traços psicopatas tem respostas semelhantes aos de adultos com essa condição. Os pesquisadores da Universidade College London examinaram ressonâncias de crianças com distúrbio de conduta — marcado por agressão, crueldade e comportamento antissocial —, sendo que algumas delas também não demonstravam culpa ou empatia. As imagens revelaram que regiões cerebrais que parecem inativas em adultos psicopatas também apresentavam o mesmo traço nas crianças que, além de agressivas, são indiferentes às emoções. Os autores do estudo afirmaram ao site LiveScience que o exame poderia ajudar a identificar e tratar esses jovens, antes que se tornassem psicopatas clássicos.

"Não sabemos se crianças e jovens podem mesmo ser psicopatas. Eu, particularmente, prefiro me referir a eles como jovens com características psicopatas. Acho prematuro rotulá-los dessa forma” - Mairead Dolan, psiquiatra forense da Universidade de Monash

VÍDEOS RECOMENDADOS