Aqueles olhos verdes

por Zulmira Furbino 27/04/2015 14:18

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Lelis
(foto: Lelis)

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A primeira vez que li Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, o segredo do romance me foi revelado antes do fim. Era o tempo em que Walter Avancini estava adaptando o clássico da literatura brasileira para a minissérie da Globo. Foi aí que eu soube quem faria o papel de Reinaldo (Diadorim).

Preocupada com o fim da história, cheguei a imaginar que a graça acabava ali. Qual!!! “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”, ensina Riobaldo, o protagonista da trama.

Atenta ao conselho, segui vivendo, lendo, atravessando o romance.

Depois disso, muito tempo se passou até que, em fevereiro deste ano, no meu aniversário, ganhei de presente uma lindíssima adaptação em quadrinhos do clássico de Guimarães Rosa. Mergulhar na HQ foi o que bastou para que o Capiroto, o Não-sei-que-diga, o Coisa-ruim, o Cramulhão, o Sete Peles, enfim, o diabo com os seus nomes, viesse me provocar. Ele ganhou a parada – comecei a reler Grande sertão: veredas.

Não é que eu nunca tenha tido – e caído – na tentação de ler um livro mais de uma vez. Alto lá! Fiz isso e não foi pouco. Podem falar mal, dizer que é culpa da minha péssima memória, perda de tempo; podem rir da minha cara, puxar o meu cabelo;. Não me abalo. Em matéria de reler os livros que gosto, sou adicta assumida.

Fiel a esse princípio, e caindo na tentação, depois de ler a versão de Grande sertão: veredas em quadrinhos embarquei no romance, no devagarzinho de poucos remansos. Também peguei emprestados os DVDs da minissérie, que estão comigo desde março e até agora não tinha começado a assistir, por falta de tempo.

Deu-se, no entanto, que fui derrubada por uma gripe e, de cama, embalada pelas páginas do livro, resolvi fazer um combo. Isto é: mesclar a leitura do livro e assistir à minissérie, entre pitadas da história em quadrinhos.

No romance, Guimarães Rosa faz um vaivém de memórias, reflexões sobre a vida e a existência (ou não) do Dito-cujo. Na minissérie, a história é linear, pescada no princípio, tempos em que Reinaldo e Riobaldo se conhecem, ainda crianças. Na HQ, a guerra é entre desenho e palavra.

Continuo meio derrubada pela gripe, agora com um agravante: ando caída pelos mil amores nascidos e ressuscitados por essa confusão de mídias. “O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias”, observaria Riobaldo.

Recomendo a experiência de ver uma história lá e encontrá-la aqui e ali, recontada de um outro modo, e, nessa “tecelância”, tocar a palavra maravilhosa e o sentimento do mundo que brota em Guimarães Rosa. Faça isso com a devoção dos gripados, que não têm corpo pra ir muito além da cama, mas não se esquecem de dar de comer à alma.

Não se assuste se, em meio ao processo, o senhor se pegar mudando de opinião a cada 15 minutos. Vem ocorrendo comigo.


A princípio, comecei achando o livro difícil de reler, agora já estou no deleite. Até as 19h30 de ontem, a pessoa escolhida para fazer o papel de Diadorim havia sido equivocada. Duas horas depois, me arrastei ao supermercado. Na volta, passei a avaliar que aqueles olhos verdes daquela pessoa têm o seu lugar e, além do mais, a química com Riobaldo é perfeita.

Até agora, o único consenso de mim para comigo é que Tarcísio Meira está o próprio Barzabu na pele de Hermógenes. No mais, desde que isso começou, a cada frase, cena ou desenho lindo, não sei se choro, rio ou mando chamar Riobaldo para dar-lhe um beijo na boca (é grave?!).

“O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem de ter um triste amor à honestidade”, me perdoaria o personagem. E completaria, “a modi” eu não me desapaixonar: “Se viam bandos tão compridos de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente”.

Está mais viciante do que Breaking bad, Home land e House of cards juntos. Deus esteja!

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