Estudo indica que autoconfiança aumenta à medida que envelhecemos

Trabalho norte-americano feito com mais de 199 mil pessoas. Segundo especialistas, a postura fortalece as relações sociais e evita doenças

por Correio Braziliense 27/04/2015 15:00

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Antonio Cunha/CB/D.A Press
Aos 84 anos, Adonira acredita e usufrui das facilidades tecnológicas: 'No início, eu era meio insegura, pois ouvia falar de muitos casos de golpes on-line, mas agora não vivo sem (a internet)' (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)

Ranzinzas e desconfiadas com tudo, das modernidades tecnológicas a quem está ao redor. Prega o senso comum que as pessoas vão envelhecendo e ficando assim. Estudiosos norte-americanos, porém, avaliaram informações de mais de 199 mil pessoas e concluíram justamente o contrário: com o passar da vida, a confiança em si e nos outros aumenta.

Quem duvida da constatação precisa conhecer Adonira de Abreu, 84 anos. Determinada, a aposentada da Secretaria de Educação do Distrito Federal está em plena atividade. Dirige para todos os cantos da cidade e não se acanha diante da rede mundial de computadores. “Faço todas as minhas operações bancárias via internet. No início, eu era meio insegura, pois ouvia falar de muitos casos de golpes on-line, mas agora não vivo sem.” Com uma saúde de ferro, a ex-professora conta que sua rede de confiança é dentro de casa: “Não confio no governo, na saúde pública nem mesmo na segurança, mas na minha família sim. Posso contar com eles para tudo”.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia no Distrito Federal, Marco Polo Dias de Freitas observa que posturas como a de Adonira são importantes tanto para as relações sociais quanto para o bom funcionamento do corpo. “A confiança é determinante na recuperação e no tratamento de doenças. Assim, idosos podem enfrentar com mais facilidade as adversidades. E, por gerar bem-estar, ajuda na prevenção de doenças. O estudo só vem para corroborar com outros que vão na mesma direção”, avalia.

Na pesquisa mais recente — desenvolvida por cientistas das universidades Northwestern e de Buffalo, ambas nos Estados Unidos —, foram cruzados dados de dois estudos sobre idade e confiança em várias etapas da vida. No primeiro, os dados vieram de quase 198 mil pessoas de 83 países, com 14 a 99 anos e avaliadas entre 1981 e 2007. Os resultados mostraram que os mais velhos apresentaram níveis mais altos de confiança interpessoal do que os jovens. Também indicaram que as pessoas que demonstraram mais confiança interpessoal eram mais propensas a ter níveis mais elevados de bem-estar, especialmente as idosas.

Carlos Moura/CB/D.A Press
Mesmo aposentado, Roberto não parou de trabalhar. Segundo a mulher dele, Dolores, a atualização constante o mantém confiante (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)

No segundo estudo, 1.230 participantes com idade entre 18 e 89 anos foram observados ao longo de quatro anos. Os cientistas concluíram que a confiança interpessoal e a pessoal aumentam com o passar do tempo e que aqueles com níveis mais elevados de confiança também apresentaram melhor sensação de bem-estar. Agora, a intenção dos cientistas das instituições norte-americanas é tentar entender as razões que levam os idosos a estar cada vez mais motivados a confiar nos outros.

“À medida que envelhecemos, podemos ser mais propensos a ver o melhor nas outras pessoas e a perdoar as pequenas decepções que nos pegaram desprevenidos quando éramos mais jovens. Nossos resultados sugerem que a confiança pode ser um recurso importante para o desenvolvimento bem-sucedido ao longo da vida.” explica Claudia Haase, coautora e professora assistente de Desenvolvimento Humano e da Política Social da Escola de Educação e Política Social da Northwestern.

Sucesso
Roberto Rosemberg, 73 anos, atesta a tese. Segundo o morador da Asa Sul, a confiança aumenta com idade e traz junto o sucesso. O atual supervisor da TV Justiça já foi locutor, radialista, editor, produtor, entre tantas outras funções exercidas em emissoras extintas, como a TV Tupi e a Excelsior, e em funcionamento, além da Rádio Nacional. “A minha confiança veio com a maturidade. Não nasci sabendo. Errei, muitas vezes, mas, assim, pude aprender”.

Rosemberg trabalha desde os 14 anos e, mesmo aposentado, nunca pensou em parar. “Só quando eu morrer. Tenho muito o que ensinar para essa gurizada. Trabalho com muita gente mais nova. Então, é a oportunidade que tenho de passar para eles um pouco dos meus 53 anos de experiência”. A mulher dele, Dolores Rosemberg, 72, conta que, além da confiança, há uma preocupação em se manter competitivo. “Ele nunca parou de se atualizar e isso faz a diferença hora de ele ensinar.”

Para saber mais
Firmeza vem dos exercícios

A prática de exercícios ajuda no desenvolvimento da autoconfiança entre idosos, segundo um estudo da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com Tiemi Okimura, autor do trabalho, ao participar de programas de atividade física, os mais velhos passam a valorizar a capacidade que têm para aprender e os conhecimentos já adquiridos. As conclusões vieram da observação de 42 pessoas com mais 60 anos e integrantes do Programa Autonomia para a Atividade Física, desenvolvido pela Faculdade de Educação Física da USP. A importância da atividade física foi associada pelos voluntários a benefícios fisiológicos, como a prevenção e a redução de sintomas de doenças crônicas e as vantagens afetivas — por exemplo, a melhora na autoconfiança, no autoconhecimento e na satisfação pessoal.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Francisca teve pertences roubados por um golpista há quatro anos: 'Vivo espantada e traumatizada' (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Risco de golpes
Especialistas reforçam, porém, que o excesso de confiança na terceira idade tem um lado negativo. Os próprios estudiosos das universidades de Northwestern e Buffalo fazem o alerta: a segurança exacerbada pode leva as pessoas a caírem em golpes. Foi assim com Francisca Galeno Miranda, 70 anos.

“Havia sacado dinheiro e, ao sair do banco, fui abordada por um homem que me pediu para pegar uma sacola que ele tinha deixado cair. Eu não peguei, mas apareceu outra mulher atrás de mim com um saco e ele disse que eu havia ganhado um prêmio por ter sido honesta. Eu não entendi o que estava acontecendo, mas ele me fez segui-lo, puxou minha sacola e a levou”, relata Francisca, que caiu no golpe em 2011.

Segundo Joás de Souza, delegado da Divisão de Falsificação e Defraudação (Difraudes) da Polícia Civil, os golpes, na maioria das vezes, são realizados na saída de bancos. Os mais comuns são o do pacote, no qual Francisca caiu, e o do bilhete premiado, quando o bandido diz ao idoso que ele ganhou um prêmio, o leva a um local onde seria entregue a recompensa e acaba levando pertences da vítima. “Nunca o idoso deve andar sozinho ou fazer saques em bancos ou casas lotéricas sem estar acompanhado de um parente ou alguém de confiança”, recomenda.

A experiência mexe com a rotina de Francisca até hoje. “Eu vivo espantada e traumatizada. Não vou mais a nenhum lugar sozinha”, lamenta a idosa, que dá um conselho logo em seguida: “É melhor deixar que levem o que quiserem. A nossa vida é mais importante. Nós devemos confiar em Deus, o dinheiro a gente consegue depois”.

Não há estatísticas no Brasil, mas, nos Estados Unidos, estima-se que pessoas com mais de 60 anos tenham perdido US$ 2,9 bilhões somente em 2010 devido a fraudes que vão de pequenas trapaças a complexos desvios financeiros. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles descobriram que uma área do cérebro deixa os idosos mais suscetíveis à ação do golpistas. Segundo eles, a capacidade de reconhecer um rosto de alguém que não é confiável está ligada ao funcionamento de uma região do cérebro chamada ínsula anterior. Essa área, no entanto, é menos ativa nas pessoas mais velhas.

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