Onda de selfies aumenta a procura por cirurgias plásticas

Autorretrato nas redes sociais aumenta procura por procedimento, mas médicos alertam que, na maioria das vezes, insatisfação com imagem pode ser resolvida com medidas menos drásticas. Nos EUA, um em cada três cirurgiões constatou alta nos consultórios

por Márcia Maria Cruz 20/04/2015 10:00

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Joe Raedle/Getty Images/AFP
(foto: Joe Raedle/Getty Images/AFP)

A mania de tirar fotos para postar no Facebook virou letra de música, mas por trás desse hábito, aparentemente inofensivo, pode haver um problema de autoestima. As selfies se tornaram parte da rotina de muita gente. Se antes era uma prática de adolescentes, o autorretrato conquista mais e mais adeptos de todas as idades. A mania também virou febre entre os famosos. Não há como negar que é algo que seduz. “De tempos em tempos, surgem novidades que causam angústia nas pessoas. Às vezes, são modas lançadas por celebridades, alguns estereótipos na TV. Agora é a selfie, a internet que contribui para o aumento da cirurgia plástica”, afirma Ruben Penteado, cirurgião plástico e diretor do Centro de Medicina Integrada. O descontentamento com a própria imagem tem levado muita gente a buscar “solução” nos consultórios médicos.

Não há pesquisas recentes no Brasil sobre a relação enter as selfies e o aumento das cirurgias plásticas. No entanto, Penteado lembra que, nos Estados Unidos – líder de procedimentos cirúrgicos – foi verificado alta de 10% nos trabalhos relacionados à face motivada pela insatisfação com o autorretrato. Segundo ele, no Brasil, que ocupa o segundo lugar mundial nesse ranking, a situação não é muito diferente. Muitos médicos têm percebido o desconforto das pessoas com a imagem que projetam nas redes sociais. “São homens, mulheres, adolescentes e até crianças que nos procuram”, diz.

As queixas dos homens estão relacionadas ao nariz e às pálpebras. Já as mulheres buscam intervenções para aparentar ser mais jovens. Costumam retocar rugas, rosto cansado, pálpebras e também nariz. “Eles querem intervenções menores. Elas anseiam por mudanças mais gerais”, detalha Penteado. A ida aos consultórios ocorre em diferentes faixas etárias, mas tem crescido o interesse de pessoas com 35 anos. “Estão muito preocupados com a autoimagem com o advento da selfie. É compreensível, porque as pessoas passam a se ver mais e ficam também mais expostas”, avalia o cirurgião.

ARTIMANHAS Os especialistas alertam, porém, que as selfies não são a melhor maneira para as pessoas se avaliarem. “São fotos feitas a um braço de distância, no máximo dois com ajuda do pau de selfie, com o celular torto, luz inadequada. Às vezes, a mão treme. A pessoa não pode esperar que seja uma foto de grande qualidade”, afirma Penteado. O cirurgião vê com exagero a exigência que as pessoas passaram a se fazer. “A pessoa tira uma foto, pensa que está maravilhosa. Ela põe na rede e se ninguém curtir vai pensar que tem algo errado. Mas nem sempre é isso. Esse é o grande problema”, completa.

No consultório da dermatologista Eveliny Bartels, muitas pacientes levam as fotos quando procuram a orientação da médica. “Filmam e fotografam. Guardam no rolo da câmera para me mostrar o que não gostam.” Entre as pacientes, a especialista atende também muitas blogueiras que já lhe confessaram o uso de artimanhas dos editores de imagem para aparecerem melhor na rede mundial dos computadores. As principais queixas são com olheiras, flacidez no rosto, rugas, linhas de expressão e imperfeições no nariz. Para Eveliny, a luz pode, por exemplo, acentuar ou até criar um olheira que não existe. “As câmeras têm resolução muito boa. Muitas vezes, evidenciam os poros dilatados. É uma questão de autoimagem. Como você se percebe. Muitas pacientes têm uma falsa percepção”, diz.

Na maioria das vezes que a pessoa busca o cirurgião plástico, o problema pode ser resolvido com medidas menos drásticas, como o corte de cabelo, perda de peso ou um tratamento cosmético. No entanto, Penteado lembra que o que pode não ser problema para alguém pode incomodar a pessoa a ponto de ser necessário fazer a intervenção cirúrgica. Cada caso é um caso. O melhor é buscar a orientação de especialistas, que possam orientá-lo sobre a real necessidade da mudança. “O profissional tem que saber quais são os limites. Tem que ter discernimento para dizer não em algumas situações”, reforça Penteado.

A imagem produzida pelas selfies não pode ser encarada como um espelho, na avaliação do cirurgião plástico Ronan Horta, do Hospital Mater Dei. O especialista lembra que as lentes de celulares deformam a imagem. “Não é a imagem real. Mesmo com o pau de selfie, a distância é muito curta e deforma muito as pessoas.” Antes de se entristecer com a selfie, o médico sugere que a pessoa peça para alguém tirar a foto com uma distância um pouco maior e com uma luz melhor.

PESQUISA A Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva demonstrou que a ascensão das selfies teve enorme impacto sobre a indústria da cirurgia plástica facial. Realizada com 2,7 mil médicos, a pesquisa mostrou as últimas tendências em plástica facial. Um em cada três cirurgiões plásticos faciais constatou aumento dos pedidos de procedimentos em função de os pacientes desejarem uma melhor aparência para postar fotos nas mídias sociais. O aumento do compartilhamento e a insatisfação dos pacientes com a própria aparência nas mídias sociais foi verificado por 13% dos médicos.

Os cirurgiões plásticos afiliados à entidade observaram aumento de 10% no número de rinoplastias em 2013, em comparação com 2012, assim como avanço de 7% dos transplantes capilares e alta de 6% nas cirurgias de pálpebras. As mulheres continuam liderando o número para a cirurgia plástica facial e foram responsáveis por 81% de todos os procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos em 2013, nos Estados Unidos.

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