Pesquisa brasileira mostra excesso de antibiótico em pacientes com câncer

A pneumonia, uma das infecções que mais atinge esse tipo de paciente, se dá mais pela gravidade do cancro do que pela exposição a superbactérias, alvo da terapia mais adotada

por Correio Braziliense 17/04/2015 13:30

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A fragilidade do sistema imunológico faz com que pacientes com câncer estejam em risco maior para infecções. De todas, a mais comum é a pneumonia, principal causa de internação e morte entre esse grupo. O problema pode estar na forma como se administram os antibióticos. Um artigo brasileiro publicado na edição de ontem da revista Plos One demonstrou que o tratamento personalizado poderá diminuir o número de óbitos associados à doença.

Conduzido pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), o estudo analisou dados de 335 internados no Instituto Nacional de Câncer, no Hospital Sírio-Libanês e na Santa Casa da Misericórdia de Porto Alegre. A taxa de mortalidade variou de 45,8% a 64,9%. Os pesquisadores, liderados por Jorge Salluh, do Idor, investigaram os fatores associados à pneumonia entre esses pacientes e encontraram uma explicação diferente da habitual. Costuma-se acreditar que, somada à imunidade baixa, a frequente circulação por hospitais propicie o contato com superbactérias, as extremamente resistentes a remédios. Contudo, nos prontuários investigados, menos de 14% dos pacientes haviam sido infectados por agentes patógenos do tipo.
Parth Sanya / Reuters
Tratamento em debate: a disfunção dos órgãos e o avanço do câncer facilitam o surgimento da pneumonia (foto: Parth Sanya / Reuters)

Os pesquisadores ressaltam que, embora, de fato, sejam um fator importante, as superbactérias não explicam a suscetibilidade dos pacientes oncológicos à pneumonia. “A gravidade da doença e a disfunção dos órgãos parecem ser os melhores fatores de predição de mortalidade do que a presença de patógenos multirresistentes”, disse, em nota, Jorge Salluh.

A descoberta pode levar ao desenvolvimento de métodos de tratamento mais eficazes, com o objetivo de diminuir a mortalidade dos pacientes oncológicos que pegam pneumonia. “Como existe essa ideia de que as bactérias multirresistentes têm um grande peso, o tratamento atual é padronizado. Aplicamos para todos os pacientes dois ou três antibióticos que cobrem esses organismos resistentes”, explica Salluh. “Mas a incidência dos diferentes tipos de bactérias é variável de acordo com a região do mundo e nem sempre isso é levado em consideração.”

Ganho de tempo
O médico explica que esse tratamento amplo é a primeira opção dos médicos porque o resultado dos exames de detecção dos patógenos que provocaram a infecção pode demorar até 72 horas, um tempo crítico para os pacientes debilitados. Sem poder esperar, só resta escolher o protocolo que cobre um amplo espectro de bactérias. Contudo, esse tratamento pode trazer efeitos colaterais e induzir a resistência das bactérias aos antibióticos.

Quando expostos frequentemente aos medicamentos, os agentes infecciosos se adaptam e as substâncias deixam de ter efeito sobre eles — a resistência das bactérias aos antibióticos foi, inclusive, considerada “uma crise global” pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Cria-se um ciclo vicioso, que não tem fim”, observa Salluh.

O pesquisador conta que, a partir da constatação, está em busca de tratamentos que combatam a pneumonia de forma mais adequada nos pacientes com câncer. Uma das opções é testar métodos de detecção de patógenos mais rápidos, que ofereçam resultado em até seis horas, possibilitando que o médico aplique apenas os antibióticos específicos contra os micro-organismos identificados.

Outra linha de ação, já em andamento, é fazer um estudo com um número maior de centros médicos e pacientes para desenvolver modelos de previsão que identifiquem os principais fatores ligados ao maior risco de os pacientes estarem realmente infectados com bactérias multirresistentes. Com esse modelo, seria possível selecionar apenas aqueles com maior risco para receber o tratamento com antibióticos voltados para superbactérias. “Nosso objetivo é chegar a um tratamento que atenda melhor às especificidades de cada paciente”, conclui Salluh.

“Como existe essa ideia de que as bactérias multirresistentes têm um grande peso, o tratamento atual é padronizado (…) Nosso objetivo é chegar a um tratamento que atenda melhor às especificidades de cada paciente" - Jorge Salluh, líder do estudo

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