Para onde vão as cartas de amor

por Zulmira Furbino 13/04/2015 13:55

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Quinho / EM / D.A Press
(foto: Quinho / EM / D.A Press)
Se minha mãe estivesse viva, talvez desse o braço a torcer, reconhecendo que foi um erro rasgar todas as cartas que ficavam guardadas numa caixa dentro do meu armário, e que constituíam uma frutífera correspondência entre amigas adolescentes.

Essa ideia me veio à cabeça quando li a notícia de que 25 cartas inéditas de Frida Kahlo, escritas e enviadas para seu amante, o pintor espanhol Josep Bartolí, seriam leiloadas pela casa de leilões Doyle, de Nova York.

Quem sabe, passados tantos anos, o pragmatismo e a mania de organização da minha genitora dessem lugar a uma visão um pouco mais complacente da correspondência de sua filha caçula?

Talvez ela se horrorizasse ao tomar conhecimento do valor que as cartas da infiel Frida para Bartolí ganharam no mercado, coisa entre US$ 80 mil e US$ 120 mil.

Ela soltaria uma gargalhada daquelas bem gostosas e, quem sabe, deixasse o meu pequeno e inofensivo baú intacto no alto do guarda-roupa. Aí, compreenderia que as cartas que colecionei não tinham o menor valor monetário, mas, ainda assim, eram muito importantes para mim.

Como gostaria de tê-las hoje, guardadas junto com o caderninho no qual eu e uma amiga trocávamos bilhetes durante as aulas do terceiro ano integrado no Pitágoras (decidimos sentar em carteiras separadas, longe uma da outra, do contrário morreríamos de tanto rir e o vestibular iria para o espaço).

Conservo até hoje esse pequeno caderno de capa dura, estampada de verde. Como é meu costume, ele está no alto do guarda-roupa, dentro de uma caixa de tampa preta e retangular, com um raio amarelo no centro, marca da antiga Zoomp.

Como no caso daquelas cartas jogadas no lixo, esse caderninho guardava segredos.

Quando o abro, vejo a cena da menina magrela e do menino loiro no ponto do lotação. De mochila nas costas e com um pacote de pão nas mãos, a magricela ouve as declarações de amor do branquelo. As horas passam e ela perde um ônibus, depois outro e mais outro e outro, até que a despedida se torna inevitável.

Calculo quantas cenas seria possível reviver se, como esse caderninho, as tais cartas houvessem escapado da mania de limpeza de mamãe. Se hoje estivessem à minha espera, no alto do guarda-roupa novo da minha casa nova.

Então, num dia em que, superatrasada, eu procurasse um documento qualquer no alto desse armário, toparia com elas e, vencida pela tentação de voltar a ser o que fui outrora, me deixaria ficar nesse parênteses de tempo com o sentimento de que tudo na vida está muito longe e muito perto.

Trocar cartas foi para mim uma espécie de rito de passagem da infância para a adolescência, mas minha história com as missivas começou antes, graças a dois “namoradinhos” que regulavam idade comigo.

Combinei com o primeiro de trocar presentes no Dia dos Namorados. Não me lembro o que dei a ele, mas nunca esquecerei o que recebi: o livro Como escrever cartas de amor, da Edições de Ouro. Aceitei, mas as dicas eram muito maçantes e dei o fora no guri.

Já o outro terminou comigo por meio de um bilhetinho, que dizia mais ou menos assim: “Não posso te namorar porque você é muito criança e seu pai não te deixa sair pra lugar nenhum”. Eu tinha 12 anos, pôxa! O que ele esperava? Fiquei indignada.

Tempos depois, arrependido, ele aproveitou a hora do recreio e mandou seu amigo me entregar uma carta. Recebi a missiva, lembrei-me do bilhete, olhei para o menino e piquei a folha em pedacinhos, que meu coração via cair em câmera lenta, como se o mundo tivesse desacelerado de susto.

Esperei o mensageiro ir embora para catar os pedacinhos de papel com palavras rasgadas, frases mancas, ideias quebradas e tentei montar o quebra-cabeças. Não deu certo, de modos que nunca descobri o que o meu ex-namoradinho tinha a dizer.

Foi um erro não ter lido aquela carta de amor – que devia ser tão bonitinha quando ridícula, como são as cartas de amor e todos os livros que ensinam a escrever cartas de amor. Tenho de dar o braço a torcer.

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