Colorir livros vira alternativa entre leigos para tratarem emoções

Livros de Johanna Basford são sucesso, mas profissionais alertam que exercício sozinho não resolve o problema

por Tetê Monteiro 11/04/2015 15:43

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Marcos Vieira/EM/D.A Press
"É como terapia, desliga minha mente e as cores despertam prazer", Fernanda Perez Marinho, supervisora de loja (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press )
“Colorir revela meu lado criativo, desliga a minha mente e as cores despertam prazer. É como uma terapia.” A afirmação de Fernanda Perez Marinho, de 28 anos, supervisora de loja, faz coro a milhares de outras vozes, de pessoas que descobriram no vaivém dos lápis de cor cura para os males do corpo, da alma e da mente. Febre nas prateleiras das livrarias, os livros Jardim secreto e Floresta encantada, ambos de Johanna Basford, com a sugestiva frase nas capas “Caça ao tesouro antiestresse”, viraram referência para aliviar problemas e transtornos emocionais. E, de certa forma, vão ao encontro da linha defendida pelo terapeuta ocupacional Rui Chamone Jorge (1941- 2013). O tratamento chamoniano – ainda usado por seus seguidores nas sessões de psicoterapia – propõe prevenir, tratar, curar e reabilitar pacientes por meio de atividades livres e criativas.

Nos consultórios, porém, o colorir ganha um realismo mais técnico e científico. “Colorir é um passatempo, uma atividade relaxante, antiestresse e benéfica. Pode ser terapêutico desde que esteja associado a um contexto de tratamento”, explica a terapeuta ocupacional Ana Luiza Cesar Viana. Ela alerta ainda que, quando o paciente apresenta um adoecimento, como depressão, é preciso aliar o conteúdo artístico com outras intervenções clínicas. “Por isso o colorir não pode ser usado como panaceia, ou seja, um remédio para todos os males. Ele, sozinho, não resolve o problema”, defende.

Fernanda, que já fez terapia, inclusive em grupo, concorda que os livros de colorir são passatempo, mas considera que esse momento relaxante pode ajudar pessoas como ela – “ansiosas” – a evitarem impulsos, como a compulsão alimentar. “Fico praticamente o dia todo em frente a um computador. Quando chego em casa à noite, quero descontar na comida. Então, depois que comprei o livro, faço um lanche e passo mais de uma hora colorindo. Esvazio a mente. É um processo criativo, que me faz desligar do cansaço do dia a dia e ainda me afasta desta overdose digital que estamos vivendo.”

Para Ana Luiza, em casos como o relatado por Fernanda, colorir pode sim ajudar, pois é considerado atividade relaxante. Além disso, segundo a terapeuta ocupacional, contribui para a construção da identidade. “O ser humano necessita criar, se expressar. A atividade artística traz a pessoa para dentro de si. Com a cor e ferramentas que usa, ela constrói o que quer fazer e coloca para fora um olhar novo sobre si mesma. Esta consciência é que ajuda a pessoa a transformar a si mesma”.

AFASTAMENTO DIGITAL A terapeuta corrobora com o afastamento digital que Fernanda cita. “É uma ótima ideia para tirar as pessoas do computador, dessa frieza e da alienação que a virtualidade excessiva está construindo.” Para ela, o trabalho manual com lápis de cor ainda aproxima as pessoas da estética. “Não existe o bem sem o belo”, diz Ana Luiza.

Fernanda não segue uma rotina para colorir seus livros. Depende do dia. Mas é nas cores que ela também se encontra, inclusive estreitando mais os laços com a mãe, Leda, de 69, que é companheira da filha na atividade artística. “Voltei ao tempo quando fui comprar os lápis de cor, me senti criança. Foi muito bom. Gosto de usar todas as cores. Minha vida está colorida”, brinca.

Ana Luiza explica que entrar em contato com as cores é automaticamente entrar em contato com as emoções. “Identificamos sentimentos com cores. Por isso dizemos: ‘Fiquei vermelho de raiva’, ‘Meu coração está cinza’”. Deixando a filosofia do simbolismo de lado, a terapeuta ocupacional volta a lembrar a ‘função’ do colorir: distrair, relaxar, construir o belo, voltar-se para si, meditar, criar. “Pode ser um bom remédio para o cansaço e a vida moderna.”

reprodução: Livro jardim Secreto - GMT Editores Ltda
(foto: reprodução: Livro jardim Secreto - GMT Editores Ltda)


Palavra de especialista: Gilda Paoliello, psiquiatra e psicanalista

Poder apaziguador

“Perguntada, assim de chofre, se colorir faz bem à saúde mental, me veio logo à mente a imagem de Aninha, minha netinha de 4 anos, que passa horas a fio colorindo princesas e seus castelos, feliz da vida. E o que faz bem às crianças, é claro, faz bem a todos. Atividades lúdicas neste mundo robotizado são muito bem-vindas, e a psiquiatria sabe disso. O recurso da criatividade do desenho e do colorir é, há muito, utilizado pela terapia ocupacional e arte-terapia. São atividades que têm poder organizador e apaziguador para nosso mundo interior. O uso das cores como recurso terapêutico é também instrumento diagnóstico, muito usado em testes psicológicos, sendo um espelho de nossa vida interna, por meio de processos identificatórios. Colorir ativa diferentes áreas cerebrais, ligadas à criatividade, além de relaxar áreas que controlam as emoções. Como qualquer outro recurso terapêutico, o uso do colorir não é aplicável a qualquer quadro. Nos quadros de agitação, ansiedade muito forte ou depressão paralisante, a pessoa não terá capacidade de introspecção ou de abstrair-se de suas angústias para usufruir do prazer de desligar-se do mundo por meio das cores. Mas nada é remédio para tudo...”

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