Excesso de tensão pode abalar a confiança e minar escolhas profissionais e sociais

Em 2013, no Brasil, foram registradas pela Previdência Social 8.771 aposentadorias por motivo de reações ao estresse grave e transtornos de adaptação, 606 casos a mais que no ano anterior e 919 a mais em relação a 2011

por Correio Braziliense 09/04/2015 09:30

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SXC.hu
Se o agente estressor persiste, o organismo chega à fase de exaustã (foto: SXC.hu)
Olavo*, 28 anos, educou crianças durante seis anos na rede pública de ensino. A carreira no magistério começou a degringolar quando ele passou a conciliá-la com outra atividade. “Em 2012, fui aprovado em um teste para trabalhar em uma tevê. Isso elevou o meu grau de exaustão que já era razoável quando atuava apenas com educação”, conta. Olavo sentiu a pressão literalmente na pele. Foi diagnosticado com psoríase, doença caracterizada por lesões avermelhadas e descamativas causadas pela tensão psicológica.

“Na época, fiquei com a autoestima baixa e me dediquei um pouco menos ao trabalho porque tinha que aparecer no vídeo e sentia um pouco de vergonha por causa da minha pele. Vestia roupas que tampavam todo o corpo e deixavam só o rosto visível”, relata. No auge do aperto, Olavo saiu da sala de aula e ficou apenas com o jornalismo. O impacto do estresse, porém, continuou. Hoje, está desempregado.

“Se o agente estressor persiste, o organismo chega à fase de exaustão”, explica Selma Bordin, psicóloga do Hospital Albert Einstein (SP). Segundo a especialista, nesse estágio, as reservas de energia e a resposta adaptativa começam a falhar. O organismo não é mais capaz de se equilibrar sozinho e fica vulnerável às doenças.

No caso de Olavo, o estresse e a ansiedade funcionaram como geradores da falta de autoconfiança, reconhece ele: “Prevendo que, depois que escolhi uma carreira, as fases seguintes não seriam fáceis financeiramente, passei a sentir os efeitos da ansiedade e do alto estresse por pensar nisso 24 horas por dia.”

A ciência começa a tentar desvendar como essas variáveis interferem no momento das escolhas e quais são as consequências disso. Pesquisadores da Ecóle Polytechnique Fédérale de Lausanne (PFL) realizaram o primeiro estudo comportamental a fim de mostrar como os dois principais fatores que regem a confiança, o estresse e a ansiedade, afetam decisões que podem render ou não vantagens financeiras e/ou sociais. Para isso, desenvolveram um experimento com 200 pessoas. Na primeira etapa, foram enviados aos participantes dois testes on-line: um para medir o quociente de inteligência (QI) e outro para medir a ansiedade.
 Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
O acúmulo de funções e tensão fez com que Brenda saísse de uma rede de farmácias. Depois de seis meses em casa, ela voltou ao mercado (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Após uma semana, cerca de metade dos participantes do estudo foi submetida a um procedimento psicológico concebido para causar estresse social agudo, como participar de uma entrevista de emprego e executar tarefas de matemática diante de uma plateia. A outra metade dos voluntários formou um grupo que não foi submetido ao procedimento de indução ao estresse. Todos os participantes — estressados e não estressados — receberam, então, duas opções de um jogo em que havia chance de eles ganharem dinheiro: poderiam se arriscar em uma loteria ou usar a pontuação de QI para competir com outro participante. Aquele com o QI mais elevado seria o vencedor.

Motor social
No grupo dos não estressados, quase 60% dos participantes escolheram a competição do QI, mostrando total confiança em relação aos outros voluntários, independentemente de sua ansiedade. Mas, no grupo que experimentou o estresse antes do jogo do dinheiro, as coisas foram diferentes. A confiança desses voluntários variou dependendo do grau de ansiedade que haviam demonstrado na primeira etapa do teste.

Em pessoas com baixa ansiedade, o estresse, na verdade, aumentou a confiança do competidor. Já nas com alta ansiedade, ela caiu. Os cientistas concluíram que o estresse, ao que parece, pode aumentar ou suprimir a confiança de um indivíduo, dependendo da predisposição dele à ansiedade. Ele aumenta a confiança em pessoas com baixa ansiedade e a reduz nas muito ansiosas.

“O estresse é um importante motor da evolução social. Ele afeta o indivíduo e a sociedade como um todo” afirmou Carmen Sandi, uma das pesquisadoras envolvidas do projeto, em entrevista à revista científica Psychoneuroendocrinology. Ela, agora, está interessada em relacionar o efeito do estresse sobre a confiança com imagens do cérebro. Embora ainda haja muito a ser aprendido nessa área, a cientista acredita que ele pode mudar a forma como olhamos para a dinâmica social.

Perigoso exagero
O estresse pode ajudar a alcançar um melhor desempenho no trabalho, mas a psicóloga Selma Bordin alerta: é preciso evitar os excessos. “Precisamos reconhecer que temos limites — e isso não significa fracasso. Dentro deles, somos muito produtivos, competentes, criativos e felizes. Trabalhar de modo saudável requer certa dose de autoconhecimento e habilidades de discernir o que é prioridade, além de saber dizer ‘não’”.

Brenda Costa, 22 anos, aprendeu, na prática, a reconhecer suas limitações. A estudante de secretariado executivo trabalhava, em 2013, numa rede de farmácias. Uma diminuição repentina no número de funcionárias complicou a rotina da jovem. “Chegou a um ponto em que eu não conseguia mais trabalhar. Havia acumulado muitas funções. O estresse e a exaustão me fizeram adoecer. Não conseguia me concentrar e minhas mãos tremiam. Então, pedi para que fosse mandada embora”, conta.

Após seis meses em casa, traumatizada pela experiência, ela voltou a trabalhar. Um ano e meio depois do ocorrido, Brenda teve mais dois empregos. Agora, segue para a quarta experiência profissional em uma lanchonete de sanduíches naturais.

A jovem encaixa-se em um levantamento feito pela filial do Brasil da International Stress Management Association (ISMA) em 2013. O estudo estimou em 70% a porcentagem de brasileiros economicamente ativos que tiveram sintomas (físicos e emocionais) de estresse, tendo no trabalho o seu fator.

Ruan Goulart/Arquivo Pessoal
"Se o indivíduo acumula excelente qualidade técnica e não tem perfil para trabalhar sob pressão e resiliência para suportar o estresse e as frustrações, consequentemente vai estagnar em algum momento" - Ruan Goulart, o executivo de vendas sofreu com o excesso de estresse no início da carreira (foto: Ruan Goulart/Arquivo Pessoal )
Brasileiros em perigo
Os dados mostram que o Brasil progressivamente adoece com o excesso de tensão. Em 2013, foram registradas pela Previdência Social 8.771 aposentadorias por motivo de reações ao estresse grave e transtornos de adaptação, 606 casos a mais que no ano anterior e 919 a mais em relação a 2011. Entre os grupos de maior risco, estão os jovens adultos. Como executivo de vendas Ruan Goulart, 26 anos. Com uma rotina agitada, o fluminense de Saquarema tem que se dividir em três para atender clientes na ponte aérea Rio de Janeiro – Belo Horizonte – Goiânia.

“Uma das coisas que mais me estressava no início da carreira era a pressão pela solução de problemas com os quais eu não tinha experiência suficiente para lidar. Essa cobrança, aliada à minha falta de experiência, geralmente resultava em atrasos, erros e frustração, visto que eu perdia muito tempo estagnado lidando com a instabilidade emocional gerada pelo estresse do momento”, conta Goulart.

Um levantamento feito pelo Hospital do Coração, em São Paulo, com 441 executivos submetidos a um checape, indicou que 43% apresentavam alto nível de estresse. No grupo com idade entre 20 e 30 anos, 59% tinham sintomas graves da doença. O número caiu para 45% entre os analisados na faixa etária de 40 a 50 anos.

Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, Ruan Goulart acredita que a inteligência emocional, que ajuda no controle do estresse, virou curinga, uma habilidade muito valorizada pelos empregadores. “Às vezes, até mais que a formação técnica, pois se o indivíduo acumula excelente qualidade técnica e não tem perfil para trabalhar sob pressão e resiliência para suportar o estresse e as frustrações, consequentemente vai estagnar em algum momento”, acredita.

O psicólogo e couching André Lubec explica que, ao se deparar com estresse no dia a dia, a pessoa precisa avaliar as condições antes de agir. “Às vezes, o melhor é ligar o ‘dane-se’ e observar atentamente o que realmente está ao seu alcance mudar. Se não estiver, não pode ser reparado”, ensina. “Em outras ocasiões, é preciso reagir e lutar. Não se posicionar em certas situações pode nos levar a uma traumatização.”

Livre-se das tensões

1. Aprenda a relaxar o corpo e a mente. Faça exercícios físicos regularmente. Essas atividades, além de relaxar, aumentam a resistência aos estressores do dia a dia

2. Tenha uma alimentação balanceada e diminua a ingestão de álcool, café, cigarro e outras drogas. Atenção também com as horas de sono

3. Reserve algum momento do dia para se dedicar ao seu programa favorito, para estar com alguém importante, ficar sozinho ou fazer o que tiver vontade

4. Mude sua rotina. Divirta-se mais, explore ambientes diferentes, faça intervalos durante as atividades e tenha um hobby

5. Construa e mantenha uma rede de amigos e familiares. Falar sobre as preocupações traz suporte emocional e
ajuda a ter uma visão mais objetiva do assunto

6. Seja assertivo. Aprenda a comunicar seus sentimentos e suas opiniões, em vez de se tornar agressivo ou passivo.
Também é importante não ter medo de dizer não

7. Priorize-se. Seu tempo e sua energia são muito importantes. Por isso, convém utilizá-los naquilo que é essencial. Planeje-se para garantir que o que mais vale a pena esteja presente no seu dia a dia

8. Tenha metas realistas. Projetos impraticáveis são sementes de frustrações. Em momentos de pressão, foque na solução em vez de se preocupar com o problema

9. Evite situações geradoras de estresse. Por exemplo, saia mais cedo de casa para fugir do engarrafamento, verifique se o tanque de combustível está cheio ou leve uma revista para ler enquanto estiver esperando por alguém ou algo

10. Se não for possível evitar, sofra apenas o necessário. O trânsito, por si só, já é bastante estressante. Irritar-se e xingar é sofrer desnecessariamente. Preste atenção ao noticiário ou ouça sua música preferida. Transforme o limão em limonada

11. Apesar de todas essas estratégias, a ajuda de um psicólogo ainda pode ser necessária. A decisão de utilizá-la é sua

Fonte: Selma Bordin, psicóloga



Na dose certa
“Em determinas circunstâncias, a medida em que o estresse cresce, nosso desempenho melhora devido ao aumento da vitalidade, do entusiasmo, do otimismo, da disposição física e do interesse. A isso chamamos eustresse, e podemos experimentá-lo diante de um novo projeto, um novo desafio ou mesmo no dia a dia. Por outro lado, demandas excessivas, que ultrapassam nossa capacidade adaptativa, ameaçam nossa produtividade e geram o chamado distresse. Como consequência, o indivíduo experimenta cansaço, irritabilidade, perda de concentração, sintomas depressivos, pessimismo, queda da resistência imunológica e mau humor. Não podemos falar em ausência total de estresse pois isso equivale à morte. A questão está no demais ou no de menos. Assim, deve-se procurar uma postura na qual o estresse seja um acontecimento positivo e não um impedimento ao desempenho pessoal, à saúde e ao bem-estar. O ideal é o desenvolvimento de habilidades físicas e mentais de resistência ao estresse por meio da modificação de hábitos e atitudes.”

Mamede Said é professor de direito constitucional da UnB

* Nome fictício a pedido do entrevistado

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