Nova técnica evita gestações múltiplas

Fertilização in vitro feita em clínica de São Paulo transfere apenas um óvulo fecundado para o útero, para não gerar mais de um bebê, mas especialista alerta para risco de ineficácia de gravidez deste método

por Junia Oliveira 05/04/2015 08:12

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Arquivo DN/D.A Press
As taxas de gestações múltiplas giram em torno de 30% por ciclo de tratamento (foto: Arquivo DN/D.A Press)
O ultrassom não nega: ao fim de nove meses, os novos pais sairão da maternidade com mais de um filho nos braços de uma vez, uma surpresa comum para casais que se submetem à fertilização in vitro para engravidar. Um procedimento adotado recentemente no Brasil e já difundido na Europa e nos EUA está sendo usado para combater as gestações múltiplas nesse tipo de tratamento. Em vez de ter transferidos para o útero vários embriões, a mulher recebe apenas um óvulo fecundado. Embora as taxas de sucesso de uma gravidez diminuam, especialista garante que o método evita complicações para mães e bebês.

O obstetra Pedro Monteleone, diretor da Clínica de Reprodução Humana Monteleone, de São Paulo, começou a adotar há quatro anos a transferência eletiva de somente um embrião nos casos de bom prognóstico. A ideia foi copiada de experiência na Suécia, onde esse método é feito há oito anos. Ele, que também é coordenador técnico do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas de São Paulo, relata que, historicamente, as taxas de gestações múltiplas giram em torno de 30% por ciclo de tratamento. De cada 100 casais que se submetem à terapia de fertilização in vitro, 40 engravidam e, dessas gestações, 30 serão de gêmeos, ou seja, de cada três crianças nascidas, uma é fruto de gravidez múltipla.

Raramente ocorrem gestações triplas ou quádruplas, comuns na década de 1990 e no início dos anos 2000. “Nos últimos 10 anos, os centros de reprodução humana passaram a transferir apenas dois embriões e, por isso, houve queda importante no número de trigêmeos. Mas a quantidade de gêmeos se manteve”, diz. Monteleone explica que isso se reflete em um problema de saúde pública, por causa de intercorrências como aumento de incidência de prematuros e risco quatro vezes maior de bebês com baixo peso extremo do que numa gestação única.
EM/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: EM/D.A Press)

A opção pela transferência de um embrião mostrou redução na taxa de sucesso de gravidez de 40% para 30% por ciclo de tratamento. Por outro lado, segundo o obstetra, os dados de complicações maternas e neonatais se igualaram aos da população em geral. No Hospital das Clínicas, a implantação de óvulo fecundado único começou a ser adotada há três anos. Ele ressalta que o movimento ainda é incipiente no Brasil.

Sem legislação específica sobre o assunto, vale parecer do Conselho Federal de Medicina, que sugere a transferência de, no máximo, dois embriões para mulheres com até 35 anos, de três para as que têm até 40 anos e de quantidade livre para quem tem idade superior. Pedro Monteleone afirma que, em hipótese alguma, transfere três embriões. “Há quatro anos, tinha dificuldade maior de indicar e aconselhar pacientes, mas, com os resultados, fomos tendo mais confiança e conseguindo convencê-los. Optamos por mais embriões apenas nos casos em que a gravidez não está tendo sucesso.”

Dúvidas sobre o melhor embrião
Professora associada do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Márcia Mendonça Carneiro alerta, no entanto, que, apesar de a limitação do número de embriões ser a menina dos olhos de quem trabalha em reprodução humana, é preciso atenção. Isso porque não há qualquer comprovação da eficácia de uma transferência única, nem mesmo garantia de gestação de apenas um bebê. “Na Europa, fazem isso há muito tempo, porque a grande complicação em reprodução humana é a gestação múltipla. Mas lá há várias pesquisas sobre o assunto e, mesmo assim, não se conseguiram até hoje parâmetros para saber qual é o melhor embrião. Transferir só um óvulo é o sonho de todo mundo”, diz.

A médica relata que o princípio é sempre o da escolha pelo melhor embrião e, para isso, são testadas técnicas diversas, como análise genética e filmagem do embrião durante o tempo de cultivo com o objetivo de acompanhar o desenvolvimento (esse pode ser um fator de qualidade). Já houve também pesquisas envolvendo marcadores genéticos e de qualidade, mas nenhum desses métodos resultou em garantias. “Os critérios ainda são morfológicos. Olhamos as características da forma do embrião, se está simétrico, eventualmente fazemos avaliação genética, mas nada é sinônimo de sucesso. Além disso, cada vez que se manipula um embrião, pode-se produzir outros tipos de alterações”, afirma.

Segundo ela, é preciso também considerar os fatores relacionados à mãe e à criança. “Mesmo sendo um embrião, ele pode se dividir, principalmente quando são adotados procedimentos para facilitar a implantação, resultando em gêmeos idênticos. Tenho caso de paciente para a qual foram transferidos dois embriões, mas ela engravidou de trigêmeos, porque um se dividiu”, conta. Márcia destaca ainda que uma gravidez depende não apenas do óvulo fecundado: o útero deve estar também receptivo e, por isso, há muitos estudos tentando encontrar o momento adequado da chamada “janela de implantação”, ainda desconhecido. “Não temos certeza se aquele único embrião escolhido será o bom e terá condições saudáveis. E, mesmo que tenha, não determina tudo.”

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