Pesquisa descobre que velocidade de mutação do vírus do ebola é lenta

Descoberta favorece criação de vacinas e de exames de diagnóstico

por Vilhena Soares 31/03/2015 10:42

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Joe Penney/Reuters
Agente de saúde mede temperatura de bebê na fronteira entre Guiné e Mali para identificar pessoas possivelmente infectadas com o ebola (foto: Joe Penney/Reuters)

Após vários surtos desde o ano passado, que provocaram milhares de mortes em países africanos, o vírus do ebola tem sido alvo de muitos estudos nos quais especialistas se dedicam a encontrar estratégias de prevenção e tratamento da enfermidade. Uma das dificuldades apontadas pelos pesquisadores para combater o vírus é sua mutação. Para determinar o quão frequentes são essas mudanças do micro-organismo, cientistas americanos realizaram estudo no qual analisaram casos de infecção ocorridos em diversas datas. O resultado trouxe boas notícias: as taxas de mutação são mais baixas do que se esperava. O dado deve ajudar no trabalho de prevenção e tratamento.

A maior dificuldade para estudos desse tipo é encontrar material para análise. “Vários grupos de pesquisa, em todo o mundo, vêm tentando avaliar se o vírus sofre mudanças, mas a obtenção de amostras para análise tem sido um desafio para os pesquisadores durante o surto”, explica Thomas Hoenen, pesquisador do Rocky Mountain Laboratories e coautor do novo estudo, publicado na revista Science.

De acordo com Hoenen, a análise só pôde ser realizada graças a uma parceria com o governo do Mali, na África. “Nosso estudo se baseia em dados já publicados a partir de casos na Guiné e em Serra Leoa, bem como em amostras de dois aglomerados de casos no Mali, aos quais nosso grupo teve acesso a partir do Centro Internacional de Excelência em Pesquisa, localizado em Bamako. Nos sentimos muito felizes por ter essa relação com o governo do Mali, que, ao receber nosso pedido, imediatamente tomou medidas para partilhar os dados de sequenciamento de vírus”, conta o pesquisador.

A equipe analisou a taxa de mutação em dois grupos infectados pela doença em um intervalo de nove meses. O Mali foi escolhido porque grande parte de seus casos de ebola são de pessoas infectadas na Guiné, país onde outras análises haviam sido feitas, facilitando a comparação entre os vírus. O sequenciamento genético dos dois grupos de pacientes revelou que as taxas de mutação foram consistentes e eram mais lentas do que indicavam estudos anteriores – segundo os quais elas seriam duas vezes maiores.

“Nossos resultados mostram que o vírus ebola circulando em humanos na África Ocidental está passando por poucas mutações, e nada sugere que ele está se tornando mais grave ou mais transmissível”, destaca o autor. “O vírus está mudando, mas não a uma taxa maior do seria esperado. Análises prévias observaram o vírus durante um período muito curto, mas nós utilizamos dados de um intervalo muito maior, o que nos dá uma base confiável”, completa.

Auxílio
Ao comprovar que o ebola sofre muito menos mutações do que se acreditava, os pesquisadores acreditam que as chances de aumentar a eficácia de tratamentos e estratégias de prevenção aumentam consideravelmente. “Com base nos nossos dados, é improvável que as alterações genéticas prejudiquem o diagnóstico ou afetem a eficácia de vacinas candidatas ou de tratamentos específicos”, justifica Hoenen.

Alberto Chebabo, infectologista do Laboratório Exame, de Brasília, concorda que as taxas menores de mutações são uma boa notícia. “A análise desse trabalho mostra que, em momentos diferentes da epidemia, não houve mudanças. Agora, sabemos que o vírus é menos potente do que se imaginava, e isso facilita a elaboração de vacinas”, avalia o especialista, que não participou do estudo.

Segundo o também infectologista Paulo Olzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), micro-organismos que sofrem muitas mutações são mais difíceis de serem combatidos. “Se você tem um vírus que sofre mudanças constantes, como o da gripe, isso faz com que seja mais difícil criar anticorpos, que são as bases de vacinas e medicamentos. Ao mostrar uma baixa mutabilidade, a pesquisa abre uma porta importante para conseguirmos encontrar recursos de prevenção.”

Olzon acredita que o futuro da pesquisa apresentada na Science é promissor, e que o melhor caminho a ser seguido é a criação de vacinas. “No momento, com o risco de epidemias, a melhor estratégia seria diminuir o contágio, e a grande solução para isso seriam vacinas”, opina o professor da Unifesp.

O próximo passo dos pesquisadores americanos é encontrar mais dados que reforcem a conclusão sobre a baixa mutabilidade do ebola. “Nosso grupo e outros colegas vão continuar monitorando o vírus para as indicações de virulência ou de transmissão, bem como para identificar quaisquer alterações que possam ter impacto sobre diagnósticos moleculares ou potenciais terapias e vacinas”, adianta Thomas Hoenen.

EM/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: EM/D.A Press)


Imunização promissora
Novas esperanças de prevenção do ebola foram divulgadas esta semana, quando possíveis vacinas contra o vírus foram testadas com sucesso em animais e em humanos. Também na revista Science, um grupo da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA) apresentou uma imunização que se revelou eficaz em animais. A fórmula usada pelos pesquisadores difere de outras já apresentadas por ser elaborada com o vírus completo, que é inativado. “Em termos de eficácia, ela proporciona excelente proteção. É também uma vacina muito segura”, disse, em um comunicado, Yoshihiro Kawaoka, líder do estudo.

A vacina foi construída em uma plataforma experimental que permite trabalhar com o vírus inteiro de forma segura graças à supressão do gene VP30, utilizado pelo vírus para reproduzir suas células hospedeiras. A nova vacina conseguiu proteger macacos-cinomolgos, especialmente suscetíveis ao ebola. A próxima etapa dos cientistas é realizar testes em humanos, mas eles não possuem previsão de quando isso deve ocorrer, devido ao custo elevado da pesquisa.

A segunda dose foi criada por um grupo de cientistas chineses que apresentou os resultados de testes com humanos na revista The Lancet. A fórmula experimental, testada na própria China, deu à maior parte dos participantes uma resposta imunológica positiva, com a apresentação de um número maior de anticorpos.

Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores deixam claro que só será possível avaliar a capacidade de proteção com mais ensaios, a serem realizados na África. Eles também precisam verificar se a vacina aumenta o risco de infecção por HIV, algo notado em pesquisas anteriores que usaram o mesmo tipo de fórmula. “Com base nos nossos resultados, acreditamos que a vacina tem algum potencial e traz a vantagem de ser estável e muito fácil de armazenar em áreas tropicais. No entanto, se ela pode se tornar uma vacina final para uso generalizado contra surtos de ebola ainda é incerto, por causa das questões de HIV, especialmente no Oeste da África”, destacou Fengcai Zhu, professor do Centro Provincial de Controle de Doenças e Prevenção de Jiangsu (China) e um dos autores do trabalho.

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