Livro questiona psiquiatras que tentam encaixar sintomas em listas de manuais de diagnóstico

A capacidade de o psiquiatra identificar alterações de funções psíquicas é essencial para tratamentos assertivos e prevenir transtornos

por Carolina Cotta 31/03/2015 15:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Ramon Lisboa/EM/D.A Press
"Costumo dizer que a psicopatologia é o verdadeiro 'alfabeto' da psiquiatria, e que, sem um conhecimento adequado dessa disciplina, é impossível estabelecer o diagnóstico", Gustavo Julião, psiquiatra e autor do livro Psicopatologia da clínica cotidiana (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
A psiquiatria não é diferente de outras especialidades médicas na necessidade de ter, já na primeira consulta, pelo menos uma hipótese de diagnóstico. É o que espera o paciente, para logo receber o tratamento que vai aliviar seu sofrimento. Mas, segundo o psiquiatra Gustavo Fernando Julião de Souza, hoje, muitos profissionais limitam-se a tentar encaixar sintomas em uma lista predeterminada, fornecida por manuais estatísticos de classificação, sem a preocupação de observar as singularidades, a trajetória, os relatos e as queixas de cada um. Esse é o questionamento do seu novo livro, Psicopatologia da clínica cotidiana (Coopmed), lançado esta semana.

“Creio que somente com uma relação médico-paciente calcada na aliança terapêutica – cujos princípios são empatia, honestidade, confiança e cooperação – o médico, com pleno domínio em psicopatologia, poderá conduzir com êxito um tratamento”, defende. Sendo a psicopatologia a área de conhecimento que se dedica ao estudo das alterações das funções psíquicas, o livro, além de constatar sua carência na assistência psiquiátrica atual, propõe algumas mudanças na abordagem dos pacientes, além de ampliar a discussão teórica da psicopatologia, estabelecendo novos conceitos úteis para auxiliar o aprimoramento do diagnóstico psiquiátrico.

Gustavo Julião propõe modelos teóricos e roteiros padronizados para a construção de diagnósticos psiquiátricos mais precisos e completos. Esses modelos e roteiros de investigação de alterações psicopatológicas foram desenvolvidos por ele nos quase 20 anos de supervisão e discussão de casos clínicos com os residentes de psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Ao longo do tempo, fui criando e desenvolvendo um método, por mim denominado fenomenológico-dinâmico, para estabelecer hipóteses diagnósticas com maior possibilidade de acerto e que se mostrassem confiáveis, completas e precisas. Tal método foi adotado, com sucesso, por várias gerações de residentes, fato que me incentivou a publicá-lo.

É de responsabilidade do psiquiatra identificar alterações no exame (entrevista psiquiátrica) do paciente, para que, de posse dessas informações, possa construir uma hipótese diagnóstica plausível. E são as alterações psicopatológicas das funções psíquicas que delineiam condições clínicas bem estabelecidas, cada qual com seus protocolos de tratamento.“Costumo dizer que a psicopatologia é o verdadeiro 'alfabeto' da psiquiatria, e que, sem um conhecimento adequado dessa disciplina, é impossível estabelecer o diagnóstico”, defende. E ela permite não só o diagnóstico de algum transtorno, mas chama a atenção para alguma predisposição.

A anamnese benfeita, a análise da trajetória do paciente e de seus antecedentes pessoais e familiares podem sugerir vulnerabilidades e mesmo um potencial de risco para a ocorrência, durante a vida, de alguns transtornos psiquiátricos. “Em casos de depressão grave, por exemplo, geralmente há outros casos em parentes de primeiro grau. O mesmo ocorre no transtorno bipolar. Na esquizofrenia, quanto mais próximo o grau de parentesco, maior o risco de eclosão da doença”, alerta o psiquiatra. Já o temperamento e os traços de personalidade permitem ao médico tentar caracterizar a personalidade pré-mórbida, aquela que o paciente tinha antes de adoecer.

Uma pessoa com traços obsessivos importantes (temor difuso, apreensão constante, tendência à culpa, escrupulosidade exagerada e prevenção contra danos aumentada), ao sofrer um episódio depressivo grave pode manifestar rituais obsessivo-compulsivos ou mesmo delírios depressivos de culpa. E pessoas com alta procura por novidades (tendência à aventura, desapego, impulsividade, destemor), em um episódio depressivo podem tornar-se exaltadas e instáveis. “Ainda não é possível prever a ocorrência de determinado transtorno em uma pessoa familiarmente predisposta, mas já é possível aprimorar o diagnóstico para entender a dinâmica do surgimento de determinados sintomas e, consequentemente, tratar o quadro clínico da maneira mais eficaz possível”, explica.

PREVENÇÃO
Filhos de pais tímidos – que várias vezes manifestam sintomas de transtorno de ansiedade social – têm um risco bem maior que a média de desenvolver, ao longo da vida, sintomas similares, ocasionando graves prejuízos sociais, afetivos e profissionais. O monitoramento constante dessas crianças desde cedo, com estratégias de exposição social prolongada e encorajamento contínuo de interações sociais, além de supervisão e aconselhamento assíduo dos pais, pode ajudar a prevenir o problema.

Também é possível um diagnóstico antecipado da esquizofrenia e do transtorno bipolar. “Há vários estudos de detecção precoce de sintomas chamados incipientes ou 'pré-psicóticos' em crianças e adolescentes predispostos. O uso preventivo de antipsicóticos de segunda geração, em baixas doses, aliado ao monitoramento constante, parece ser útil em alguns contextos. E quanto mais precoce o início do tratamento na esquizofrenia, menor será a deterioração cognitiva e afetiva que normalmente ocorre na evolução clínica da doença”, explica.

No futuro, a expectativa é contar com medidas mais objetivas, específicas e eficazes para a prevenção de transtornos psiquiátricos na atualidade. Para Gustavo, o caminho de investigação e pesquisa científica que foi aberto e está sendo trilhado pelas neurociências logo dará à clínica psiquiátrica instrumentos seguros e capazes de assegurar essa prevenção. Enquanto isso não é uma realidade, não há como escapar: cabe ao psiquiatra dominar a psicopatologia.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA