Estudo aponta que pais têm estimulado individualismo e narcisismo em filhos

A tendência atual dos pais de tratarem os filhos como seres especiais estimula o individualismo e produz pessoas cada vez mais narcisistas

por Paloma Oliveto 30/03/2015 09:30

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Thiago/CB/D.A Press
Comportamentos mais autocentrados e egoístas crescem a cada geração (foto: Thiago/CB/D.A Press)
Aos olhos dos pais, eles sempre serão os mais bonitos, inteligentes e bem-sucedidos. Mas sabe-se que a realidade não é bem assim. Para um observador neutro, a maioria das crianças é bem parecida, seja em graça e beleza, seja em esperteza. Enquanto não há nada de anormal em considerar a própria prole mais especial que a alheia, existe um risco quando se diz isso aos filhos de maneira exagerada e constante. Pesquisas sugerem que o excesso de autoconfiança resulta em gerações mais egoístas, irrealistas e frustradas.

Na semana passada, repercutiu um estudo que demonstrou como os pais podem estimular o narcisismo ao falar para as crianças que elas são muito especiais. Embora defendam uma relação de carinho e incentivo intrafamiliar, os cientistas da Universidade de Amsterdã que realizaram a pesquisa ressaltaram que os pequenos cujo ego é inflado constantemente têm maior probabilidade de desenvolver uma personalidade vaidosa ao extremo. O estudo acompanhou 565 crianças ao longo de um ano e meio.

De fato, a cada nova geração, observam-se comportamentos mais autocentrados e egoístas, alega a psicóloga americana Jean Twenge. Autora dos livros Gerenation me (Geração eu, não editado no Brasil) e The narcisism epidemic (A epidemia do narcisismo, também não publicado por aqui), Twenge analisa como a autopercepção de crianças e jovens está aumentando desde a década de 1960. A especialista chegou à conclusão de que, mais do que nunca, eles tendem a acreditar que o mundo gira em torno de seus umbigos. Isso, diz ela, é péssimo para a sociedade e pior ainda para quem não apenas pensa ter o rei na barriga, mas se considera a própria majestade.

Em casa, eles são incentivados a se tornarem pequenos ditadores, tendo o que querem na hora que desejam — afinal, são os próprios pais que garantem não haver ninguém mais especial na face da Terra. Como, então, não acreditar? John Reynolds, psicólogo da Universidade Estadual da Flórida, estudou os efeitos disso a longo prazo. Constatou que a tendência desses jovens é se transformarem em adultos frustrados e deprimidos. De acordo com ele, as crianças criam grandes expectativas em torno delas mesmas ao ouvirem desde cedo o quanto são maravilhosas. Dessa forma, pensam que podem tudo e que sempre se sairão melhores que os outros. Ao falhar nesse objetivo, seja na escola, na faculdade, seja no mercado de trabalho, o choque de realidade pode ser custoso demais.

Sofrimento
“Os adolescentes, em especial, estão cada vez mais irrealistas sobre o que conseguirão alcançar”, observa Reynolds. Ainda que as intenções dos pais sejam as melhores, o psicólogo afirma que, a longo prazo, estão contribuindo para o sofrimento dos filhos. “Esse não é um fenômeno novo nem uma exclusividade da geração atual. Desde os anos 1960, as expectativas além do normal estão aumentando, assim como as taxas de ansiedade e de depressão”, afirma. A tendência, lembra, é que mais e mais pessoas não consigam atingir seus ambiciosos objetivos, construídos em cima de idealizações.

Segundo Jean Twenge, até mesmo as finanças podem ser afetadas pelo excesso de confiança construído ao longo da vida. “Os jovens mal chegam ao mercado de trabalho e já pensam: ‘É claro que consigo pagar esse financiamento imobiliário de US$ 1 milhão’, mas a fantasia colide com a realidade e a consequência é que, no fim dos anos 2000, enfrentamos a mais grave crise econômica desde a Grande Depressão. É claro que houve muitas causas, mas acho que uma sobre a qual pouco se fala é o excesso de confiança narcisista”, analisa.

Ela cita estudos nos quais levam-se pessoas aos laboratórios e são feitas perguntas diversas. Os pesquisadores pedem que os participantes digam o quão confiantes estão em suas respostas e, para prová-lo, dizem que eles devem apostar em dinheiro que estão certos. “Os narcisistas são sempre tão, mas tão confiantes, que nessas situações perdem muito dinheiro porque acham que são mais espertos que de fato são”, relata.

Arquivo Pessoal
"A cultura tem se tornado progressivamente mais individualista ao longo do último século. Consequentemente, cada geração tende a ser mais autocentrada que a anterior%u201D - Jean Twenge, psicóloga (foto: Arquivo Pessoal )
A psicóloga concorda que o fenômeno da autovalorização extrema não é novo, mas observa que, a cada geração, ele se torna mais forte. Twenge ressalta que as pesquisas que constatam esse fato são baseadas no que dizem os próprios jovens. “É fato que as gerações mais antigas sempre vão criticar as mais novas. Mas os estudos geracionais não medem o criticismo dos mais velhos, eles medem como os jovens se descrevem. A cultura tem se tornado progressivamente mais individualista ao longo do último século. Consequentemente, cada geração tende a ser mais autocentrada que a anterior”, diz. Como exemplo, ela cita reality shows, que incentivam o exibicionismo, e as mídias sociais, nas quais só se postam as vitórias pessoais.

Eu X nós
Para ela, o narcisismo pode ser comparado à obesidade: “Trata-se de uma epidemia”, decreta. Uma meta-análise organizada por Twenge e pelo psicólogo social Joshua D. Foster, da Universidade do Alabama do Sul, avaliou o comportamento narcisista de 35 mil americanos e descobriu que 6% deles — um em cada 16 — apresentaram sintomas clássicos do distúrbio da personalidade narcisista em algum ponto de suas vidas. “Você poderia esperar que pessoas mais velhas teriam um percentual maior porque já viveram mais, certo? Mas apenas 3% daquelas com mais de 65 anos haviam experimentado algum sintoma narcisista, comparado com quase 10% dos participantes na faixa dos 20. Essa é uma grande indicação de que essa epidemia fora de controle tem um forte componente geracional”, diz Foster.

A culpa, aponta Jean Twenge, não é das crianças ou dos jovens. Ela diz que, se antes, a cultura ocidental incentivava a humildade e a modéstia, hoje muitas pessoas enxergam nessas virtudes verdadeiros defeitos. Até a linguagem escrita tem sido influenciada pelo estilo de vida narcisista — uma pesquisa que a psicóloga fez na base de dados do Google Books mostrou que o uso do pronome pessoal “nós” caiu 10% nas publicações entre 1960 e 2008, enquanto que o “eu” aumentou 42%.

Os autores da pesquisa que evidenciou a influência da família no narcisismo dos filhos ressaltaram, em entrevista à France-Presse, que apoio e carinho são uma estratégia melhor que inflar o ego. No estudo, os jovens cujos pais diziam o quanto os amavam tinham a autoestima elevada, sem, contudo, serem narcisistas. “As pessoas com boa autoestima não acreditam ser melhores que as demais, mas os narcisistas pensam que são”, disse Brad Bushman, coautor do estudo. “Os pais podem ser orientados sobre como expressar afeiçãoa seus filhos, sem dizer que eles são superiores aos outros.”

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