Vivendo com a culpa: sentimento pode ser danoso, mas é contornável

É importante parar, respirar fundo e analisar com calma determinada situação, para se dar uma chance de mudar de postura e continuar evoluindo cada vez mais como pessoa

por Lilian Monteiro 29/03/2015 12:31

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Errar faz parte da vida. Você pode e tem o direito de se arrepender, mas não deve carregar a culpa. Essa relação precisa ser mais leve porque, se não dispensar “bagagens” no meio do caminho, o fardo da existência vai se tornar pesado demais. Feliz daqueles que nunca se arrependem e vivem dizendo que fariam tudo de novo e da mesma forma.

Mas, e quem se sente culpado? Qual a saída? Certamente, não é o sofrimento, o automartírio ou mesmo o autoflagelo. Seguir em frente é sinônimo de aprendizado. A psicóloga Daniela Queiroz, hipnoterapeuta com formação em hipnoterapia ericksoniana com Sofia Bauer, explica que, diante do arrependimento e da culpa há duas escolhas: “Paralisar e ter uma espécie de estresse pós-traumático ou fazer do momento um aprendizado, um crescimento pós-traumático, um trampolim para uma vida melhor”. A escolha é sua!
Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
Pollyana Aguiar se arrependeu de atitude impulsiva, mas diz que hoje consegue viver sem culpa (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Autopunir-se por ter feito a opção profissional errada, por ter apostado num projeto de vida equivocado, pela palavra mais dura numa discussão com a mãe, por pegar pesado na educação do filho, por ter criticado o amigo (ainda que ele merecesse), pelo fim de um casamento, por não ter aprendido inglês, não saber nadar ou dirigir, não ter conhecido Veneza... A lista de cada um é interminável e, por isso mesmo, diante das decisões que se tomam, é inteligente e saudável “não ficar preso ao passado para não destruir a autoestima”.

Daniela Queiroz defende que, se bem administrada, a decisão de não carregar a culpa, apesar do arrependimento, é garantia de crescimento pessoal e profissional, já que a pessoa terá mais cautela nas futuras resoluções e será mais vigilante em relação ao outro, ao humano.

Não é fácil. Não é simples. Exige esforço e doses de superação e aceitação. Para inspirá-lo e encorajá-lo, o Bem Viver apresenta hoje três histórias de pessoas que tomaram decisões, voltaram atrás e seguiram em frente.

 

Coragem para seguir em frente

"Perdão para meu coração!” A declaração é da publicitária Pollyana Aguiar, de 35 anos, que pôs fim a uma relação de 16 anos, entre idas e vindas, com três filhos. Uma história vivida plenamente, com altos e baixos, e grande aprendizado. Aos 18 anos, sem planejar, ela ficou grávida. “O relacionamento começou com falta de estrutura, por ter pulado etapas. Era bem jovem, me esforcei muito, mas não tinha maturidade para encarar a responsabilidade. No entanto, me tornei mãezona, dedicada, e quis ter outros filhos.”

 


Mas depois do primeiro filho, Pollyana se separou por quatro anos, porque não conseguia dar continuidade ao relacionamento. Por outro lado, ela sentia que lhe faltava algo e o casamento foi retomado. “Voltei e vivi uma fase fundamental e extremamente importante para a minha evolução. Fui muito feliz. Construímos uma família e uma linda história de parceria.” Quis o destino ou o acaso que esse encontro passasse novamente por turbulências. “Quanto tive o terceiro filho, a sobrecarga de funções como mulher era enorme: mãe, dona de casa, tempo para cuidar de mim e estudar. Vivia uma rotina de Mulher Maravilha, tinha de dar conta do mundo. Adoeci emocionalmente, nada estava bom e senti que a mudança e a atitude tinham de ser minhas.”

Foi quando Pollyana decidiu pôr um ponto final na relação. “A forma com que conduzi me levou a tomar atitudes impulsivas. Calada com minhas angústias, não tive condições de avaliar o sofrimento do outro. E isso me traz arrependimento, não culpa, pela separação. Arrependo-me por ter causado algo ruim em quem tanto amei.” Mas ela diz que a vida é feita de ciclos e que tudo pode acabar um dia. “E, com maturidade e experiência, percebemos que há diversas maneiras de resolver, finalizar uma etapa da vida.”

A psicóloga Daniela Queiroz ensina que o certo é tomar uma atitude e seguir em frente, nada de ficar presa. “O arrependimento é importante para rever determinada situação, já que, hoje, as pessoas têm pressa em virar a página, como se fôssemos máquinas. E colocar para fora é ter a chance de avaliar e mudar postura semelhante.”

FELIZ

Daniela enfatiza que é fundamental lidar bem com o arrependimento para não cair na autopunição, destruir a autoestima, um projeto de vida e paralisar-se. É preciso aceitar que todos podemos errar e aprender com as falhas. “É possível se arrepender, viver sem culpa e seguir em frente. É o ideal.” Agora, ela lembra que há pessoas intrapunitivas, que sempre se acham autoras de tudo (se culpam sempre), e as extrapunitivas, que definem a culpa como sendo sempre do outro. Estas nunca se arrependem. Para Daniela, ambas precisam rever seus conceitos, atitudes, comportamentos e, se não conseguirem mudar sozinhas, devem buscar ajuda.


Apesar de tudo, hoje, Pollyana enfatiza que é feliz e que decidiu não levar a culpa. “Penso em Deus e peço novas oportunidades. O caráter das pessoas não é definido por erros e acertos. A vida é uma escola. Somos personagens imperfeitos, tentando acertar”, diz a publicitária, que tem um blog e trabalha para ajudar outras mulheres que não conseguem se livrar de cargas mais pesadas do que deviam carregar ou que vivem conflitos parecidos com os quais passou. “A mulher adoecida destrói tudo que está em torno. Hoje, sei que fui ótima esposa, sou excelente mãe, cuido dos meus filhos, trabalho, estou na minha segunda graduação e tomei a decisão de não carregar nenhuma culpa. Pedi perdão ao meu coração.”

Liliana de Souza Santos San Juan/Divulgação
''É fundamental lidar bem com o arrependimento para não cair na autopunição, destruir a autoestima'', Daniela Queiroz, psicóloga (foto: Liliana de Souza Santos San Juan/Divulgação)
A psicóloga Daniela enfatiza que é preciso entender que o tempo de arrependimento e pedido de desculpa é para você e não para o outro. “Ele pode não aceitar; aceitar, mas não de imediato; aceitar e mudar de comportamento. A decisão de seguir com a sua vida não pode ser veiculada a uma expectativa de que o outro aceite e compreenda seu arrependimento. Mesmo porque, há pessoas que não perdoarão e há coisas que são imperdoáveis para alguns. O importante é que os envolvidos não paralisem. Ficar preso a uma emoção negativa é péssimo para a vida. Leve do arrependimento só as coisas boas: cautela, vigilância, atenção, cuidado e um novo modo de fazer e lidar com aquela situação no futuro.”

  
A psicóloga Renata Feldman lembra que uma palavra ou um gesto de maneira errada podem causar estragos
Não temos como controlar muitos sentimentos. Mas, com esforço, dedicação e gostando de si mesmo, é possível livrar-se da culpa, aceitar o arrependimento e melhorar-se como ser humano, seja nas relações pessoais ou profissionais. A psicóloga e psicoterapeuta Renata Feldman diz que há dois tipos de arrependimento. Um ligado à vida pessoal, o autoarrependimento, aquilo que deixou de fazer por você, o famoso se eu tivesse... “É o que traz amargura e tristeza ao olhar para trás e perceber que poderia ter sido de outro jeito”. E aquele que envolve uma segunda, terceira ou mais pessoas, que diz respeito à relação com o outro, à austeridade. “É quando se falam coisas impensadas (ou pensadas), age-se por impulsividade e causa efeito negativo ou positivo, no caso das verdades que precisam ser ditas, mas o outro não está pronto, preparado ou não dá conta de receber. Aí vem a culpa (ou não). Você tem o livre-arbítrio.”

Renata explica que a culpa é pesada porque, quando se percebe, ela já está instalada. “Vai além de uma decisão racional.” A psicóloga enfatiza que, ao se arrepender de algo que falou ou fez com o outro e o machucou por ter pegado pesado demais, é importante se lembrar de que já foi, aconteceu, não tem como voltar a fita ou voltar no tempo. Um lapso de segundo e já foi. “Uma palavra, um gesto ou uma vírgula de maneira errada podem causar estragos. Antes de mais nada, é preciso ter essa consciência.”

A consequência, aponta a psicóloga, será de acordo como a pessoa passa a olhar o tempo daquele episódio pra frente em relação a ela e ao outro. E aí, pode-se interpretar até como uma questão filosófica: “Não vou ficar culpado, porque era exatamente o que tinha de acontecer; nada é por acaso; tudo tem um sentido especial”. Ou pode ser encarado como um grito do seu inconsciente, porque era algo guardado há muito tempo 'pedindo' para desaguar e, se não falasse, adoeceria. “É essencial tentar entender por que falou aquilo ou tomou aquela atitude. Refletir e não negligenciar, sair da passividade e não se omitir.”
Jair Amaral/EM/D.A Press. Brasil
A psicóloga Renata Feldman lembra que uma palavra ou um gesto de maneira errada podem causar estragos (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press. Brasil)
NOBRE Renata avisa que, em vez de “se autoflagelar e se autochicotear, a pessoa tem de saber que é de carne e osso, que não é perfeita e, sim, pode e vai errar”. Ela explica que, atrelada à culpa reside, “sem saber, a dimensão de prepotência. A ideia de ser infalível, que é Deus, o medo de magoar, da reprovação e de perder o afeto, como se a culpa a eximisse de ter uma relação quebrada. A pessoa a transfere para o outro que foi alvo da sua ação. Mas é bom ter consciência de que você erra, tem tropeços, vai cair e se levantar”. A psicóloga explica que, na culpa, a parcela de responsabilidade tem de ser dividida. “É via de mão dupla, o que dilui a ideia pesada. Quem falou e quem ouviu precisam compartilhar a sobrecarga da culpa.”

Por outro lado, Renata revela que há outra dimensão da culpa: o pré-requisito é o amor!. “Assim, compreende-se mais fácil, porque o amor é muito maior que a culpa, é nobre, o sentimento que remete a todas as virtudes. Ao pôr na balança, o amor terá peso maior. Brigou com a mãe e se sente culpada, muito mal, é porque a ama demais. O amor precede a culpa e é porque você se importa. Senão, seria indiferente, negligente e não teria culpa nenhuma.”
  

. Ingrid Novaes, de 29 anos, publicitária e estudante de veterinária
“Em 2012, me formei em publicidade e trabalhava numa grande agência, tudo que um profissional da área quer. Mas não estava feliz. Decidi abandonar a carreira e me entregar ao sonho de infância, de ser veterinária. O dia a dia como publicitária, estresse, pressão, mexer com dinheiro de cliente, sem horário certo, a correria, tudo isso me desanimou. Em 2011, resgatei uma cachorra abandonada (a vira-lata Pantera) na rua, passei a ter contato com ONGs de proteção animal e feiras de adoção, e percebi que queria viver nesse mundo. Depois da Pantera, adotei a Jabuticaba e tenho ainda a poodle Bebel. Amadureci a decisão, conversei em casa, a família se assustou e meu namorado me apoiou muito. Cheguei a pensar em seguir carreira acadêmica e investi numa pós-graduação da UFMG, mas vi que não era para seguir em frente. Tinha que mudar. Hoje, estou no sexto período de veterinária e, desde o primeiro dia de faculdade, foi amor à primeira vista. Tudo que quero para minha vida. Meu arrependimento é olhar para o tempo e vê o quanto perdi. Vou me formar em 2017. Por outro lado, estou leve e descobri meu dom. Não sou de guardar as coisas. Ao tomar uma decisão, sigo em frente. Às vezes, nas relações humanas, falo tudo na hora e, depois de pensar, acho que poderia ter segurado um pouco. Mas, ao refletir com calma, concluo que é melhor falar do que guardar.
 
D.B.N, de 39, analista de infraestrutura
“Em 2008, tomei uma decisão da qual me arrependi, mais da forma como agi. Tinha três meses de casado e decidi ir para a Austrália tentar crescer na carreira. Minha irmã e o marido moram em Sidney, com sucesso na área de TI. Não tinha nada concreto, mas acreditei que teria mais oportunidades e, no impulso, fui. Tirei um visto de estudante e não deu certo, porque não consegui emprego. Com aula pela manhã, só podia trabalhar um horário e lá não tem essa de 'dar um jeitinho'. Fiquei quatro meses e enfrentei uma crise no meu relacionamento. Não foi legal. Arrependi porque gastei dinheiro, perdi tempo e abalou meu casamento. Deveria ter pensado mais. Voltei e tive de recomeçar do zero. Cheguei até a fazer análise. Foi importante, porque trabalhei ansiedade e autoconhecimento, meus valores mudaram, melhorei a autoestima e, hoje, sou mais feliz e equilibrado. Continuo casado, me aproximei da minha mulher, passei a me dedicar mais ao relacionamento e estou trabalhando. Arrependi mas não fico remoendo minha decisão. Sei que não devia ter feito daquela forma. Não sinto culpa, segui em frente e procuro não cometer os mesmos erros. Hoje, com a maturidade, não descartaria a mudança, mas faria de outra maneira. Só crescemos errando. Faz parte da vida cair, crescer e se levantar. Lamentei, superei e, bola pra frente.”

 

 

 

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