Desenvolvimento cognitivo dos filhos depende de estímulos dos pais

Especialistas recomendam que os adultos apostem em atividades motoras e visuais e não economizem no afeto

por Correio Braziliense 27/03/2015 09:30

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Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Priscilla parou de advogar e Samuel mudou o horário do trabalho para se dedicarem mais ao pimeiro filho, Miguel, de 5 meses:às quintas-feiras, é dia de natação em família (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
De onde vêm os bebês todos sabem, mas até onde eles podem ir é um mistério para qualquer pai ou mãe. Por isso, os progressos cognitivos nesses primeiros anos de vida intrigam tanto os cientistas, que buscam os melhores ingredientes para potencializar os avanços e inibir os possíveis atrasos. Estudos têm demonstrado que o primeiro elemento dessa dieta parece ser bem simples de ser alcançado: o afeto. Estímulos visuais e motores também fazem parte desse quebra-cabeça.

Priscilla, 28 anos, e Samuel Roure, 34, pais de primeira viagem, planejaram cada milímetro da nova vida para oferecer um ambiente propício ao desenvolvimento do filho. A advogada parou de trabalhar para se dedicar à maternidade, e o marido, policial civil, trabalha de 12h às 19h para cuidar do pequeno Miguel, de 5 meses, nas manhãs. Enquanto ela acorda de noite se houver choro, ele cuida do bebê para que a mulher possa ter seu momento de descanso. “Eu sempre sonhei parar de trabalhar e me dedicar ao meu filho, mas, antes, ficava pensando: será que vamos ter condições? Optei por ter uma vida mais humilde porque, querendo ou não, meu salário faz falta, mas não me arrependo”, diz a mãe.

O jovem casal preocupa-se muito em compartilhar cada instante possível com Miguel. Por isso, optou por praticar, às quintas, natação em família. A atividade tornou-se mais um momento de estimular a aproximação com o bebê. “Quando eu era criança, meu pai me levava e eu fiquei com essa lembrança na cabeça. Quando nos casamos, eu falei para a Priscila que, assim que tivéssemos um neném, nós o levaríamos”, conta o policial civil e morador da Asa Norte.

Com os filhos na água, pais e mães cantam músicas infantis e ensaiam um balé de mergulhos, saltos e cambalhotas. Do lado de fora da piscina, parentes assistem e tiram fotos dos pequenos. A professora de natação Regina Castro, grávida do segundo filho, explica: “O pai é a maior referência para o bebê, ele é o espelho do movimento. Quanto mais próximo, mais ele dá segurança aos filhos. A gente vê que são crianças mais felizes, mais soltas, crescem mais seguras. A partir do momento em que você dá segurança, elas se sentem mais fortes para enfrentar desafios”, detalha.

Linguagem e memória
A segurança não é o único benefício pelo contato direto e amoroso com os pais. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, demostraram que crianças em ambientes com laços afetivos fortes desenvolvem mais rapidamente habilidades nos campos da linguagem e da memória.

Na primeira etapa do estudo, meninos e meninas de 4 a 8 anos foram observadas dentro de casa, e os pais, interrogados sobre questões como a quantidade de livros infantis e brinquedos pedagógicos à disposição dos filhos. Os cientistas concluíram, por exemplo, que crianças sujeitas a estímulos cognitivos, como jogos e atividades educativas, se saíam melhor em exercícios de linguagem, enquanto as que recebiam mais atenção se destacavam em testes relacionados à memória.

Anos após essa primeira etapa, essas mesmas crianças, já adolescentes, foram submetidas a uma ressonância magnética no cérebro, e os resultados desse exame, comparados com o modo como que elas haviam sido estimuladas na primeira infância. A pesquisa revelou que o hipocampo, região do cérebro responsável por guardar lembranças e experiências, tinha dimensões diferentes conforme a idade e os incentivos recebidos pelos participantes. Os que foram estimulados aos 4 anos tinham essa região cerebral maior que os que passaram pela experiência aos 8.

Um dos principais fatores para essa diferença no desenvolvimento cerebral dos analisados pode ser explicado pela chamada janela de oportunidade. Até por volta dos 5 anos, as crianças passam pela formação de habilidades cognitivas, como memória, linguagem, raciocínio lógico, percepção e aprendizado. É nessa etapa do crescimento em que centenas de trilhões de conexões neurais, responsáveis pela circulação de impulsos elétricos, são formadas e as crianças têm a chance de dar um salto em seu desenvolvimento. “Há momentos em que serão ativados determinados circuitos neuronais, e o circuito que não for ativado não vai funcionar plenamente depois”, explica o neurologista da infância e da adolescência Rubens Wajnsztejn.

Aprender a andar e escutar uma história são exemplos de estímulos que geram conexões neurais distintas no cérebro. A repetição deles leva ao engrossamento da membrana que envolve as fibras nervosas, permitindo que os impulsos elétricos circulem mais rápido. Porém, a psicóloga infantil Cinthia Venâncio adverte: “ É importante tomar cuidado com o excesso de estímulos ofertados ao mesmo tempo. Provavelmente, a criança vai querer explorar todos e não focar em nenhum. Ao mesmo tempo em que repetir é necessário para promover a aprendizagem, a novidade promove sinapses (ligações entre neurônios) importantes.”


Mil dias determinantes
“Do ponto de vista da formação do córtex, os primeiros mil dias são um dos principais momentos para que os bebês adquiram um ganho maior de aprendizado. Por isso, a atenção e o afeto são importantes nesse período. Mas eles devem ser dados na hora certa. Precisam ser dosados, uma vez que existem pesquisas mostrando que o excesso de estímulos pode ser prejudicial. O brincar é a chave para um melhor crescimento. No primeiro ano de vida, se desenvolvem a visão e a audição, além dos outros sentidos. Então, oferecer atividades e brinquedos que incentivem a interação com sons, cores, formas e texturas é importante para o desenvolvimento dos bebês.”

Rubens Wajnsztejn, neurologista da infância e da adolescência


Faça a coisa certa
Confira as dicas da psicóloga infantil Cinthia Venâncio para promover o desenvolvimento saudável dos seus filhos

1. Relaxe! Seu filho deve se desenvolver no tempo dele. Estimular é necessário, mas nada de querer forçar a barra e acelerar a fase. A criança pode não estar pronta, e a pressão, frustrá-la.

2. Disponibilize tempo para os filhos. Brinque. Interaja. As crianças só vão se desenvolver a partir do momento em que perceberem a necessidade de interagir. É a vontade de se relacionar com outros seres humanos que vai despertar o desejo de se comunicar, se movimentar e expressar os sentimentos.

3. Deixe seu bebê ao menos dois períodos por dia apoiado de barriga para baixo em uma superfície plana e firme. Desse modo, ele pode se apoiar com segurança e levantar a cabeça. A partir daí, campo visual dele se expande e as possibilidades de exploração também.

4. Coloque seu filho no colo. Isso conforta, passa segurança e carinho. Mas os bebês também precisam de liberdade. Deixe-os mais tempo no chão. Permitir que os pequenos se movam livremente é fundamental a partir dos 6 meses, pois ajuda no desenvolvimento motor.

5. Ofereça brinquedos de encaixes. Além de ser um bom exercício para a coordenação, esses objetos ajudam a trabalhar também a parte visomotora — ou seja, por meio da visão, a criança tem a noção de qual peça caberá dentro da outra. Deixe o quebra-cabeças para quando ela tiver mais de 2 anos.

6. Preocupe-se também com o sono do seu filho. É dormindo que alguns aprendizados se fixam. Ao longo dos dias, apresente os estímulos um a um. Assim as chances de o bebê fixar em uma atividade aumentam.

7. Mantenha uma rotina. As crianças precisam dessa previsibilidade. Primeiro, porque aprendem por repetição. Segundo, porque precisam se organizar. Mas nada de rigidez. Alterações e quebras de rotina ocorrem, e a criança também precisa aprender a lidar com elas.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Josélia cuida dos filhos em casa: "Prefiro que sejam criados do meu jeito" (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Em casa e na creche
Escolher entre o trabalho e dar atenção aos filhos, porém, geralmente vira uma crise cuja solução nem sempre segue as vontades, mas as urgências. Josélia Freire Silva, 35 anos, cuida dos cinco filhos: Carlos Eduardo, 2; Jesus Luciano, 4; José Francisco,7; Jesiane, 10; e José Silva, 12. “Às vezes, eles querem coisas que não posso dar porque não trabalho e o dinheiro que eu recebo do governo só dá para o básico. A lista de material escolar é enorme. Então, tenho que comprar uma coisa de cada vez”, lamenta a maranhense de Santa Luzia do Tide e moradora de Valparaíso há três anos.

O marido de Josélia, o servente de pedreiro José Gomes Silvestre, 45, trabalha das 6h às 17h, e o único momento em que pode estar junto à família é no jantar. A dona de casa ocupa o tempo dos filhos com afazeres domésticos, a escola e brincadeiras. “Nunca gostei de deixar meus meninos para que os outros cuidassem. Confiança a gente pode até ter, mas prefiro que sejam criados do meu jeito. Dar atenção para todos é muito difícil, mas a gente se desdobra em mil e faz o que pode”, diz ela.

Neurologista da infância e da adolescência, Rubens Wajnsztejn ressalta que, quando há a possibilidade, creches e escolas infantis são o melhor caminho para o desenvolvimento e o aprendizado de crianças e bebês. “Do ponto de vista neurológico, eles precisam de contato com outras crianças da mesma idade sempre. Mas, após o primeiro ano de vida, isso se torna fundamental. Não deve ficar só com adultos, pois restringe a interação social”, afirma o neurologista, que complementa acalmando os pais. “Se a mãe precisar trabalhar logo após o término da licença-maternidade, não há problemas (para o bebê), mas precisamos ter esses locais adequados em todos os municípios brasileiros.”

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