Um pouco na hora H

"O espírito de mãe que baixou em mim aos 24 anos já estava ali, guardado, quietinho, adormecido, quando um exame de gravidez tocou feito um despertador às cinco da matina e o obrigou a pular da cama"

por Zulmira Furbino 24/03/2015 15:16

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LÉLIS
(foto: LÉLIS)
Meu filho estava completando 3 anos. A comemoração do aniversário seria na casa dos avós e a expectativa era enorme. Ele estava adorando aquele agito. Acompanhou a montagem da mesa, brincou com os balões azuis e brancos que iam sendo dependurados aos cachos nos cantos das salas de jantar e de visitas e custou a relaxar para a soneca da tarde, antes da festa.

Estava a postos quando os convidados começaram a chegar, feliz de dar gosto. Ia tudo muito bem até que apareceu a babá, fantasiada de palhaço, e ele se assustou. Daí pra frente, foi choro a festa inteira.

Nenhum presente, nenhuma gracinha, nem o avô que ele adorava, nem a cantoria dos parabéns foram capazes de fazê-lo relaxar.

Penso no episódio, tão trivial na vida de uma criança – ter medo e sentir desamparo, mesmo na presença da mãe –, e constato que foi, provavelmente, a primeira vez que vi meu esforço e minha expectativa de garantir a felicidade do meu filho se quebrarem em pedaços incoláveis.

Naquela noite de sábado, fiquei com a alegria dele escorrendo entre os dedos, sem ter para onde correr, e me dei conta do óbvio: eu não tinha superpoderes.

Mais tarde, tanto com ele quanto com sua irmã, essa sensação se repetiu tantas vezes que perdi a conta. Ainda hoje, essa é uma lição que aprendo e desaprendo diariamente.

Até engravidar pela primeira vez, a possibilidade de ser mãe nunca havia passado pela minha cabeça. Eu era bastante jovem e me sobravam sobrinhos amados de todos os jeitos.

Até engravidar pela primeira vez, não desconfiava que era possível ser um e ser dois ao mesmo tempo. Ser um e ser três, como ocorreu com a posterior chegada da minha filha.

E esse sentimento não tem fim, não acaba nem quando os filhos crescem. Aliás, talvez até piore um pouco porque são muitas emoções.

Só posso crer que o espírito de mãe que baixou em mim aos 24 anos já estava ali, guardado, quietinho, adormecido, quando um exame de gravidez tocou feito um despertador às cinco da matina e o obrigou a pular da cama.

Meu primeiro filho veio assim, me acordando. Um pouco antes da hora, um pouco na hora H. Chegou chegando. E desatou dentro de mim essa coisa tão louca, tão exagerada e tão terna chamada sentimento maternal.

No meu caso, o resultado foi ao mesmo tempo uma descoberta e uma redescoberta. De um lado, meu universo se abriu para o outro de forma antes impensável. De outro, vi surgir um outro eu dentro do meu eu e ele era muito mais forte, mais feliz, mais corajoso (e ligeiramente mais histérico, vá lá).

A chegada dos meus filhos operou em mim, aquariana com ascendente em aquário, uma mudança que parecia impossível. Meus pés foram finalmente plantados no chão. A maternidade estrutura, empodera.

Cheguei a essa conclusão outro dia, escutando um programa de rádio sobre cinema. Foi ali que ouvi pela primeira vez a frase dita pela atriz Meryl Streep há um tempão: “A maternidade teve em mim um efeito humanizador. Todo o resto se reduziu ao essencial”.

Depois fiz uma enquete com algumas de minhas amigas e colegas. Cada uma fala sobre a experiência de ter filhos de um jeito. Como mães, dizem que aprenderam a ser pacientes, a se colocar no lugar do outro. Transformam-se em leoas sempre que necessário – e é necessário sempre –, ganharam coragem.

Uma dessas amigas deu uma resposta curiosa: disse que depois de ser mãe passou a sentir medo de morrer, mesmo que ainda esteja longe de ter idade para se preocupar com a própria morte.

O sentimento materno é avesso a ausências.

Tão intenso e profundo, que as mães são constantemente iludidas com a ideia de que é possível prover todos os socorros, todas as faltas, tapar todos os buracos, em todos os momentos da vida dos filhos.

Somos super-heroínas tragicômicas. Esbanjamos todos os poderes – e não temos poder nenhum.

Só nós nos entendemos. Sem contar a Super Mãe do Ziraldo, é claro. Essa é a nossa graça. Esse é o nosso inferno.

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