Família "zapzap": aplicativo aproxima muita gente, mas é preciso bom senso para não espantar um ao outro

A união de parentes em torno de um grupo de WhatsApp é um fenômeno na sociedade brasileira

por Carolina Cotta 22/03/2015 13:00

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RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS
A professora Andréa Dutra, de 49 anos, com a mãe, Ana Lúcia, de 76, e a filha, Luisa, de 17: três gerações juntas no grupo PIC, sigla de Programa de Índio Completo, uma extensão da reunião familiar realizada todo domingo (foto: RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS)
A América Latina tem a maior média global de uso de redes sociais em PCs e laptops: 8,13 horas mensais por pessoa. Atrás de nós, estão Europa (7,41 horas), América do Norte (6,38 horas), África (4,96 horas) e Ásia-Pacífico (2,49 horas). O Brasil sozinho tem 12 horas mensais. E isso sem contar os smartphones. Logo que foi comprado pelo Facebook, em fevereiro de 2014, o brasileiro já representava 8% dos usuários do WhatsApp, que, este ano, já tem 700 milhões de usuários ativos em todo o mundo. Entre eles estão seu irmão, sua mãe, seu tio e, por que não, sua avó?

O sistema de troca de mensagens é responsável por uma revolução na comunicação entre pares, amigos, colegas de trabalho, clientes e prestadores de serviço e também na família. É praticamente impossível encontrar alguém que não tenha entre os grupos mais movimentados algo do tipo “Irmãos do Júnior”, “Família Monteiro”, “Marrecada”. Esses são apenas alguns exemplos de grupos de família que levaram o uso do WhatsApp a outro nível e o consolidaram como uma verdadeira rede social.

A professora de ioga Andréa Dutra, de 49 anos, participa de um grupo juntamente com a filha, Luísa, de 17, e a mãe, Ana Lúcia, de 76. As três gerações estão juntas no PIC, sigla de Programa de Índio Completo, uma extensão da reunião familiar realizada todo domingo. Inclusive, foi para trocar as fotos do tradicional lanche de família que “a mulherada da casa” teve a ideia do grupo. “Minha mãe e algumas tias, que têm entre 70 e 80 anos, sequer tinham celular, mas vendo a diversão da troca de mensagens compraram os aparelhos só para participar”, conta Andréa.

INTERAÇÃO
Mas não só de delícias sobrevive essa reunião de família virtual. São vários os exemplos de parentes mais próximos por causa do WhatsApp, mas também de desentendimentos por causa de algumas mensagens. A interação mediada por computador – seja por e-mail, chats ou redes sociais – tira de cena a entonação da fala e muita coisa é má interpretada. Segundo a consultora em etiqueta e marketing pessoal Lígia Jaques, autora do livro Etiqueta 3.0: Você “on-line” & “off-line”(Editora Évora), depender só da palavra escrita é um dos problemas.

“A eficiência disso, segundo pesquisas, é de apenas 7%. Portanto, é interessante priorizar o contato por voz, pelo menos”, explica a especialista. Nesse sentido, recursos do WhatsApp podem ser de bastante ajuda. “Quando o uso da voz não for possível, devemos procurar escrever da melhor maneira possível. O uso correto da ortografia, a pontuação e o vocabulário são imprescindíveis. Sempre devemos ler e reler os textos antes de enviá-lo, avaliando as possibilidades de uma interpretação diferente daquela que esperamos”, alerta.

Outras dicas para o sucesso dessa “nova” relação familiar virão dos próprios usuários. O Bem Viver ouviu adeptos do WhatsApp de diversas idades, para entender como eles lidam com com essa profusão de mensagens. Não faltam exageros, tais como postar cada almoço ou recorrer a todas as figurinhas disponíveis no aplicativo. Algo é certo, nas próximas páginas você vai encontrar várias situações comuns no seu grupo. Afinal, família só muda de endereço. O WhatsApp é o mesmo para todos.

ALÔ, É DO WHATSAPP?
Já é possível fazer ligações pelo WhatsApp no Brasil. O serviço de voz por IP é o mesmo usado pelo Skype, o VoIP, e depende da instalação da versão mais recente do aplicativo. Mas, por enquanto, o recurso funciona apenas em celulares Android. Depois de instalar a versão atualizada, é preciso reiniciar o aparelho e receber uma ligação de um usuário que já esteja usando o recurso. Concluída a ligação, a interface principal do aplicativo vai mudar, passando a listar três colunas: Ligações, Conversas e Contatos. Como outros serviços, as chamadas também dependem do uso de dados e o mais recomendável é fazer as chamadas quando conectado a uma rede Wi-Fi.

Distância reduzida
Parentes estão mais próximos desde a criação de grupos no aplicativo de mensagens, inclusive, presencialmente

O réveillon de 2013 reuniu os primos. Bateu saudade da convivência e eles viram no WhatsApp um meio de conectar BH, Montes Claros, Diamantina, Sete Lagoas e São Paulo. Surgiu, assim, a Marrecada, uma referência ao bisavô, Geraldo Marreco. O publicitário Thiago Moura, de 27 anos, criou o grupo com o primo Koiti Moriya, e vê nesse encontro uma onipresença. “A vida é tão corrida. Não é todo dia que dá para pegar o telefone e ligar para alguém da família. Agora, apesar da distância geográfica, estamos sempre juntos. Mantemos contato constante, comentando, falando, compartilhando. Grupo no WhatsApp é sempre como uma grande família”, acredita.
Euler Junior/EM/D.A Press
O publicitário Thiago Moura mantém contato constante com os primos por meio do WhatsApp (foto: Euler Junior/EM/D.A Press)

Atualmente, são 15 pessoas, entre primos de primeiro, segundo e terceiro graus. “Não é todo mundo que curte estar tão próximo assim. Mas mães e tias dos primos mais velhos não entram”, conta. Não há um tema único, mas existe sim uma “ética editorial”. “Não é o tipo de grupo que compartilha piadas aleatórias. Todo conteúdo tem algum significado para nós. E, apesar de a maioria torcer para o Cruzeiro, tem brincadeira com os atleticanos, mas tudo levado na esportiva”, conta. E já que estão mais próximos, o passo seguinte é a realização de uma festa dos primos, no semestre que vem.

FARRA
A desculpa de intensificar contato também vale no www.irmãosdojunior.com.br, o grupo que, claro, reúne os irmão do Júnior. No caso, o irmão da Kessianne Marques, de 30. São seis participantes, os filhos dos dois casamentos do pai. “Isso nunca foi problema para nenhum de nós. Por uma boa influência do meu pai, sempre nos relacionamos muito bem, como se fôssemos filhos da mesma mãe. Porém, casamento, filhos e rotina nos impediam de nos vermos com tanta frequência. O grupo no WhatsApp resolveu um pouco a situação, pois podemos conversar e compartilhar assuntos diversos. Claro que não resolve 100%, porque o contato pessoal é muito melhor e, quando estamos juntos, é uma farra boa”, conta a analista de RH.

Edésio Ferreira/EM/D.A Press
Kessianne Marques entrou no grupo para conviver mais com os irmãos por parte de pai (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Além dos quatro irmãos de Kessianne, participa a sobrinha mais velha, que já tem 10 anos. “A oportunidade de contato a qualquer hora facilita muito as conversas, recados do nosso pai para todos e isso também foi ótimo para estreitar o relacionamento entre nós, nos manter, de alguma forma, sempre próximos”, conta. Entre as mensagens, estão piadas, futebol, assuntos de família e até política. Proibido só mesmo os assuntos a que crianças não podem ter acesso e palavrões. Apesar de política ser um dos temas tratados, nunca houve um desentendimento. Porque isso já dissolveu muito grupo por aí.

DEPOIMENTO
  • Koiti Moriya, 34 anos, suporte de sistemas
“Quando éramos crianças, sempre estávamos juntos nas férias. Mas, à medida que o tempo foi passando, alguns foram morar em outra cidade. Foi para não perder contato que criamos o Marrecada, onde estamos sempre falando um com o outro, mandando notícias e fotos dos acontecimentos do dia a dia.”

Bom senso na tela
Regras básicas de convivência devem ser levadas também para as conversas 'virtuais'. Mensagens na madrugada são tão incômodas quanto um telefonema no meio da noite

Jair Amaral/EM/D.A Press
José Monteiro brigou, mas voltou ao grupo que mantém com irmãs e sobrinhos (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Bastou postar uma foto de cueca para começar a confusão. José Monteiro, de 59 anos, diz que todas as irmãs já o viram assim dentro de casa, mas quando a imagem foi parar no grupo da família deu problema. “Todo mundo brigou. Falaram que era uma feiura, uma visão do inferno. Respondi que eles eram muito moralistas, que estava em família, mas não adiantou. Achei melhor sair”, conta o bancário aposentado, que, depois de dois meses, acabou voltando ao grupo que mantém com as quatro irmãs e seis sobrinhos, o Família Monteiro BH/BSB. “E olha que era uma cueca nova, estilo box”, provoca.

José Monteiro não sabe, até hoje, se a reação da família foi uma brincadeira: “Como não estavam na minha frente não deu pra saber. Estranhei, porque é assim que fico dentro de casa e todos eles sabiam disso”, comenta. O episódio é um dos tantos que afastam pessoas desse tipo de relação. Mas vale criar regras? De horários? De assuntos? Isso não tiraria a naturalidade das relações? Formada em antropologia, a consultora de etiqueta e marketing pessoal Lígia Jaques ressalta que, mesmo “ao vivo”, há pessoas com assuntos e abordagens inadequados. E, por isso, defende que algumas regrinhas não causam dano e colaboram para que a pessoa não seja rotulada de chata.

Para a especialista, entre os principais problemas percebidos nesses grupos está a pessoa aguardar resposta imediata e se aborrecer quando ela não vem, gerando brigas e mágoas infundadas. “Devemos ter em mente que nem sempre a pessoa que leu, ou ouviu, a mensagem pode responder ou tem a resposta naquela hora”, alerta. A especialista também defende que a inclusão em grupos só ocorra depois de uma consulta prévia. “Se for adicionado e não quiser fazer parte, saia, avisando aos demais. O envio de mensagens com muita frequência é uma boa forma de espantar os membros. Então, procure ter limite e bom senso nisso também”, sugere.

CONFUSÃO QUE APROXIMA

José Monteiro resistiu ao WhatsApp quando ele virou moda. Mas há cinco meses, de tanto falarem se rendeu ao aplicativo. “Viciei. Distrai quem está em casa”, conta. Além do grupo com as irmãs e sobrinhos – onde postam fotos do almoço, contam quem viram na rua e, sim, falam mal de algumas pessoas – ele também estreitou relações no Primos Siqueira, com cerca de 50 parentes. “Não tive muito contato com a família do meu pai. Acho que 60% deles conheci foi por meio do grupo. Já fizeram três encontros presenciais. Conheci parentes que nunca tinha visto. Inclusive, um primo de primeiro grau, de 69 anos. Foi emocionante”, comemora.

Essa reunião é um dos motivos do sucesso dos grupos familiares. À mão, a um clique, estão companheiros de infância separados pelo passar dos anos e diferentes rotinas. A consolidação dos smartphones e das redes wi-fi ampliaram a comunicação. E não só de lembranças eles vivem. Quem usa muito diz que há sempre algo para falar por ali. “Não falta assunto, mesmo com a família se encontrando toda semana. E é inclusivo, porque compartilhamos coisas legais com todos, e não com alguns. Damos parabéns nos aniversários, combinamos encontros e até caronas. Enfim, conversamos ainda mais depois do WhatsApp”, conta a professora Andréa Dutra.

Para todas as idades
O Brasil tem 26,3 milhões de idosos, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse número representa hoje 13% da população, mas a expectativa é que o percentual chegue a 34% em 2060. Essa população não está nem de longe alheia à tecnologia. Pesquisa da AVG Technologies, com 6 mil pessoas de mais de 50 anos, residentes em diversos países, revela um pouco dos seus hábitos tecnológicos. O Brasil é um dos destaques. O uso de dispositivos, aplicativos e mídias sociais por aqui supera todos os outros países pesquisados.

Questionados sobre como a tecnologia os faz se sentirem, 81% dos entrevistados disseram sentir-se em contato com outras pessoas e 70%, com as novidades. Cinquenta e um por cento dos respondentes já são avós e 43% conversam com os netos por meio de aplicativos de comunicação, como o WhatsApp. Sessenta e cinco por cento deles concordam com a afirmação “Graças à tecnologia, converso mais com meus netos do que o fazia com meus avós”. Além disso, 27% gastam mais tempo se comunicando com seus netos de modo “on-line” (por Skype, mensagens e WhatsApp) do que “off-line.”

Parte do fenômeno dos grupos de família no WhatsApp pode ser explicado por esses números. Afinal, se o recurso alcançou todas as idades, mais gerações estão reunidas. O administrador Marco Aurélio Pimentel e Souza, de 74, está mais próximo dos sobrinhos do seu primeiro casamento desde que passou a fazer parte do grupo Araújo e Souza, criado pela ex-mulher. “Só tive benefícios. É realmente muito bom estar a par do que o grupo planeja, comunica, de suas ideias. Tenho muito mais contato e acho interessante porque me trouxe muitos momentos positivos”, conta.

Para a advogada aposentada Marisa de Araújo e Souza, de 70, que criou o grupo, é também interessantíssimo ver o comportamento das pessoas no aplicativo. “Minha irmã fez um exame importante e pipocaram mensagens pedindo notícias. Fiz uma biópsia na mesma semana, contei no grupo e ninguém ligou”, lamenta, brincando, já que está mesmo é feliz com a aproximação de todos. “São quatro gerações juntas e muita gente que não se relacionava está mais próxima. Para a nossa família, esse grupo só fez bem. Estamos ainda mais próximos”, conta.

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