Você sabe o que é frequência afetiva?

Exigir demais dos amigos não é bom, nem para você nem para eles. O tempo que leva até o próximo encontro com pessoas queridas não precisa ser encarado como martírio

por Gláucia Chaves 19/03/2015 15:00

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Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Mayara cultiva a amizade com algumas colegas desde a infância: internet reforçou o contato (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Você sabe o que é frequência afetiva? Embora o conceito não exista na literatura médica, o termo é usado coloquialmente para definir o intervalo em que você se encontra com as pessoas que gosta. Sabe aquele amigo que costumava ser próximo, mas que agora você só consegue encontrar com algum intervalo de tempo? Então: o período que se passa até um novo contato é a frequência afetiva do relacionamento. Conversamos com alguns psicólogos para saber se o fenômeno é comum e até que ponto se confunde com carência, esse um termo bem conhecido tanto por especialistas quanto por quem convive com alguém que cobra atenção em excesso.

Para tentar explicar um pouco melhor o conceito, usaremos o exemplo de Mayara Leporace Haddad, 21 anos. Na época da escola, a estudante tinha um grupo de melhores amigas inseparáveis. As meninas cresceram juntas e dividiram todas as descobertas ao longo dos anos. “Ainda temos contato, mas não todos os dias, como no tempo da escola”, detalha. A internet veio como uma importante ferramenta para ajudar a manter a amizade. Depois de oito anos, todas conseguiram encontrar um espaço na agenda para relembrar as memórias da infância.

O palco do reencontro foi o Parque da Cidade, em fevereiro. “Foi como se estivéssemos sem nos ver pelo período das férias”, conta. “Lembramos todas as histórias e foi ótimo saber o rumo que a vida de cada uma tomou, quem se casou, quem teve filhos.” Embora os encontros tenham se tornado bastante esparsos, elas conseguem manter a amizade. A promessa, agora, é sacramentar os encontros a cada seis meses.

Quando foi para o ensino médio, Mayara mudou de escola e, consequentemente, de turma. As novas colegas somaram-se às antigas e, hoje, a jovem mantém dois grupos que se encontram constantemente. O convívo mais recente também facilitou o contato: cinema, barzinho ou apenas uma visita à casa das amigas estão na agenda de compromissos fixos que acontecem, no mínimo, uma vez por mês. A faculdade veio para, novamente, ampliar esse leque, mas nem a correria da “vida adulta” separou-as por completo. “Quando a ligação é mesmo verdadeira, nada importa.”

A psicóloga Karyne Lira Correia diz que é preciso levar em conta toda a experiência pessoal em relacionamentos (ou até mesmo as que observamos), além do conjunto de crenças desenvolvido ao longo da vida antes de avaliar a melhor forma de levar uma amizade. De acordo com essas duas variáveis, segundo a especialista, “é que teremos facilidade ou dificuldade nas mais diversas formas de nos relacionarmos, inclusive a distância”.

Amigos que não conseguem (ou não admitem) se desgrudar dos colegas podem estar com baixa autoestima. “Distorções cognitivas são muito comuns em pessoas com carência afetiva”, completa Karyne Correia. A professora Évellyn Santana, 23 anos, não sofre desse mal. Desde que começou a faculdade, em 2010, ela e as amigas que fez estão sempre juntas. Elas não se encontram mais diariamente, é verdade, mas o WhatsApp não as deixa perder o contato. “Todas estão sempre na minha casa, participaram da minha gravidez.” Ao todo, o grupo é formado por 10 inseparáveis.

Além da comemoração de datas importantes, as amigas organizam, religiosamente, o Natal antecipado: uma comemoração só delas que antecede a festa. Ironicamente (ou não), a amizade melhorou depois que elas pararam de se ver diariamente. “Quando nos encontrávamos todos os dias, éramos mais brigonas”, admite Évellyn. “Agora, quando nos vemos, é mais para aliviar a pressão do dia a dia.”

A psicóloga e coach Bianca Benass explica que as pessoas são seres individuais: cada um com suas carências, experiências e visões de vida. “Uma mãe, um pai ou um amigo podem exercer o mesmo estilo de relacionamento, mas a maneira como vão se conectar é única.”

Assim, a carência afetiva, ainda de acordo com Bianca Benass, tem muito a ver com o perfil da personalidade de cada um. Porém, é preciso tomar cuidado para que as cobranças não atrapalhem os relacionamentos existentes ou impeçam que novos se formem. “Cada pessoa é direcionada por um medo, por um desejo, algo que ela busca na vida a ser compensado”, explica.
Arquivo Pessoal
Desde a faculdade, Évellyn (D) se mantém unida às amigas: comemorações sempre na agenda (foto: Arquivo Pessoal )

Receita para ajudar um amigo carente:

  • Ajude seu amigo a perceber a carência que sente. Seja assertivo e deixe claro que o comportamento está incomodando
  • Deixe claro também aos amigos/parceiros que você não está no mundo para suprir as carências deles/delas, estabelecendo, assim, limites
  • Não dê o reforço positivo: não satisfaça demandas oriundas desta carência, quando estas não forem razoáveis.
  • Busco o autoconhecimento: a partir do momento que você percebe o que quer e o que espera para si mesmo, terá autonomia para lidar com amigos mais carentes
  • Não deixe que a carência alheia contamine você: não deixe que cobranças em excesso mudem sua maneira de pensar ou de se comportar. Estabeleça seu próprio ritmo e sua rotina, sem deixar que sentimentos sufocantes interfiram em sua vida
Fonte: Karyne Lira Correia, psicóloga da Clínica Livon, localizada em Joinville (SC); Bianca Benass, psicóloga e coach

Grude prejudicial
Leila Salomão Tardivo, psicológa e professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP), explica que a carência afetiva em excesso não chega a ser um quadro clínico, mas a insegurança pode ter fundo emocional mais profundo. “Quando somos crianças, é comum a segurança ser dada pelo outro, como a mãe e os professores”, enumera. Conforme a pessoa vai crescendo, contudo, precisa aprender a ficar bem sozinha. Amigos que cobram atenção e presença constantemente, segundo a especialista, devem entender que o outro é importante. O que não funciona é querer que o outro dê algo que somente o próprio indivíduo pode se dar: autoconfiança.

Depositar inseguranças nos amigos é um caminho tóxico para o relacionamento. Muitos podem não segurar a barra e debandar — uma vez que colegas muito exigentes podem acabar se tornando inconvenientes ou mesmo invasivos. “Às vezes, esse amigo pode até esnobar o outro. É uma parte da natureza humana, pode acontecer.”

Nesses casos, a relação pode permear quadros de depressão, fobias, traumas e até alguns transtornos de personalidade, ainda que isso não signifique que o excesso de carência vá desencadear esses transtornos e vice-versa. “Ela pode simplesmente ocorrer paralelamente a diferentes problemas de cunho psicológico”, frisa Karyne Lira Correia.

Se você se identificou com o perfil de amigo grudento, tenha calma, pois o primeiro passo para a mudança já foi dado. De acordo Karyne Lira Correia, uma forma de começar a trabalhar esse aspecto da própria personalidade é reconhecer o problema. “A pessoa precisa aprender diferenciar também quando o que está sentindo.” Em muitos casos, vale a máxima de procurar ajuda, seja profissional ou um ombro amigo — mas sem exageros!

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