Chegada do segundo filho demanda cuidados com o primogênito ainda na gravidez

Mulheres contam o que fizeram para driblar crises de manha e ciúme

por Correio Braziliense 05/03/2015 09:30

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Antonio Cunha/CB/D.A Press
Juliana percebeu o ciúme de Beatriz quando ela soube da gravidez de Bárbara e tratou de aproximar as filhas já durante a gestação (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
A chegada de mais um bebê era uma vontade de toda a família de Monique Menezes, 37 anos. O filho Caíque era um grande incentivador de uma nova gravidez da mãe. “Eu não estava gostando muito de ser filho único. Queria alguém para brincar”, conta o menino de 9 anos. A aproximação dos dois irmãos começou assim que Monique soube que estava grávida de Nina, hoje com 8 meses. “Eu e Caíque estávamos juntos quando o teste deu positivo. Ficamos sabendo juntos”, lembra a professora, que procurou manter essa proximidade durante toda a gestação. “Ele ia nas ecografias, fazia as compras, ajudou com o berço. Sempre participou.”

Envolver o filho único nos cuidados para a chegada do irmão é um dos principais conselhos dados por especialistas. Gabriella Ciardullo, psicóloga do Hospital Universitário de Brasília (HUB), explica que a preparação para que a relação entre as crianças seja boa pode ser feita em todos os estágios da gravidez, inclusive no momento do nascimento. “Alguns pais levam um presente para a maternidade, entregam para o filho mais velho e dizem que foi o bebê quem trouxe para ele”, conta.

A harmonia facilita a convivência ao longo dos anos. Nos primeiros meses, quando o recém-nascido demanda mais atenção, pode ser crucial. Monique conta que se encanta com o carinho que já existe entre os dois filhos, mesmo Nina sendo muito pequena. “O amor entre eles é uma coisa incrível. O relacionamento dos dois é apaixonante. Ela fica hipnotizada pelo irmão, e Caíque me ajuda com ela”, relata.

Segunda a professora, o filho mais velho nunca demonstrou que não gosta da presença da irmã ou que tem ciúmes dela. “Acho que esses sentimentos podem aparecer depois que o bebê nasce, quando a criança percebe que existe uma divisão, que a mãe não é toda dela. Mas eu acho que, pelo Caíque ter 9 anos, foi mais fácil para ele entender”, acredita. Ainda assim, houve alguns impasses no começo. “Às vezes, ele falava que eu não brincava mais com ele, que estava sempre cansada. Mas nada mudou (no comportamento dele)”, complementa a professora.
Carlos Moura/CB/D.A Press
Caíque foi com Monique às ecografias e ajudou nas compras para a chegada de Nina (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)

Compreensão difícil
A reação dos pequenos nem sempre é tão boa assim. A psicóloga Gabriella Ciardullo alerta que, diferentemente do que aconteceu com Caíque, algumas crianças mais velhas podem, sim, reagir mal à chegada de um irmão. “Se a criança for mais nova, pode ser difícil porque ela tem uma capacidade de compreensão menor. Porém, se os pais não conversarem, uma criança mais velha pode reagir ainda pior”, alerta.

A especialista ressalta que algumas crianças retomam comportamentos antigos, como chupar dedo, fazer xixi na cama e mudar a forma de falar. Para evitar reações negativas do primogênito, ela aconselha os pais a começarem a preparar o terreno assim que a gravidez for descoberta. “Falando, por exemplo, que a criança que está chegando não vai mudar a relação entre a família. Assim, o mais velho tem a tendência de se comportar melhor”, ilustra.

Durante a gravidez de Bárbara, hoje com 1 ano, Juliana Sabiá, 25, percebeu o ciúme de Beatriz. Com 2 anos na época, a menina sentiu muito a diferença na rotina da mãe. “Quando a barriga começou a crescer, ela passou a ter ciúme. Sempre queria ficar no colo, e eu não podia. Fazia muito manha”, conta Juliana.

Ao contar para a primogênita que estava grávida, Juliana procurou incluí-la nas primeiras decisões relacionadas à irmã. “Comecei perguntando se ela queria ter um irmãozinho. Depois, contamos que ela teria um. Perguntamos qual nome queria e se gostava das opções que nós tínhamos se fosse menino ou se fosse menina”, relata.

Quando Bárbara nasceu, Juliana e o marido deram um presente para a filha mais velha e disseram que a irmã havia comprado para ela. “Levamos um batom da Cinderela, por ela ser muito vaidosa”, conta a mãe das meninas. Assim que a irmã chegou no quarto, Beatriz foi a primeira a segurá-la.

Ciardullo acredita na importância das atitudes tomadas pelo casal e destaca que é essencial que o primogênito se sinta importante nas etapas da gestação do irmão. “É bom fazer a criança acompanhar o crescimento da barriga, falar que com ela também foi daquele jeito, levá-la para fazer compras para o novo bebê e pedir que ela escolha e dê opiniões. Desse jeito, ela vai se sentir tão importante na vida daquele bebê quanto os pais.”

Como, para Beatriz, dividir a atenção da família era uma experiência nova, a menina continuou sentindo o ciúme depois que Bárbara nasceu. Mas nada que prejudicasse o relacionamento das duas, garante a mãe. “Antes, a atenção era voltada só para ela. A Bia foi a primeira filha, neta e bisneta. Tanto da minha família quanto da família do meu marido”, diz.

Os cuidados para manter a boa convivência entre as duas são constantes. O casal, por exemplo, faz questão de que as irmãs dividam o quarto. “Falamos que as duas precisam dividir o espaço, os brinquedos, e procuramos deixá-las fazendo as atividades juntas. Acredito que a relação delas vai continuar sendo boa, as idades são muito próximas”, destaca Juliana, que complementa dizendo que a mais velha “continua roubando a cena”.

Do desinteresse ao grude
Para Beatriz Silva, 16 anos, a chegada da primeira irmã, Carolina, foi tranquila. A mãe das duas, Cristiana Silva, 38, conta que a jovem, na época com 5 anos, estava mais preocupada com a avó do que com a gestação. “Era uma fase difícil. Minha mãe estava doente. Então, a Beatriz estava focada na avó. Não teve ciúme”, conta.

Apesar de não ter dado muita atenção para a gestação da mãe, Beatriz adorou ter a irmã em casa. “Quando a Carolina nasceu, foi uma maravilha. Ela ficou muito feliz e aceitou muito bem”, conta Cristiana. A primogênita era a primeira a se prontificar para ajudar a cuidar da caçula, hoje com 11 anos. “A Beatriz sempre foi muito cuidadosa, querendo dar banho, trocar fraldas. Estava disposta a ajudar em tudo.”

"Como sabia que ela (a mais velha) ama crianças, coloquei a Milena no colo dela. Ela ficou olhando e disse que a irmã era linda. Depois, não largou mais” - Cristiana Silva, mãe de três meninas

Quando Cristiana engravidou pela terceira vez, porém, a história foi diferente. Beatriz tinha 12 anos e não reagiu bem à chegada de Milena. “Ela ficou com muito ciúmes, nem queria saber do assunto. Eu conversava muito com ela e dizia que a irmã já a amava mesmo dentro da minha barriga, mas nada”, lembra a servidora pública. Cristiana procurou não forçar a relação entre as duas. “Deixei que ficasse à vontade, tranquila, até chegar a hora do nascimento. Acho que tudo tem a hora certa. Com paciência, tudo dá certo no final.”

Só após o nascimento de Milena, 4 anos, Beatriz mudou de ideia em relação à irmã. “Chamei para conhecê-la. Como sabia que ela ama crianças, coloquei a Milena no colo dela. Ela ficou olhando e disse que a irmã era linda. Depois, não largou mais”, conta Cristiana.

Já Carolina, até então caçula, estava animada com a chegada da irmã desde que a mãe contou sobre a gravidez. “Não via a hora de a Milena nascer. Sempre perguntava para mim quando a irmã iria chegar, queria brincar e cuidar dela. Quando cheguei do hospital, Carol veio correndo para ver e beijar”, lembra a funcionária pública. Hoje, as três são inseparáveis. “Quem manda é a pequena, fazem tudo por ela. São unidas, uma cuida da outra”, orgulha-se a mãe.

Geração de únicos
A incumbência de preparar o primogênito para a chegada de um irmão é cada vez mais rara entre os brasileiros. Segundo dados da última Síntese de Indicadores Sociais(SIS), de 2014, de 2000 a 2013, a média do número de filhos por mulher no país caiu 26%, de 2,39 para 1,77. A quantidade de mulheres sem filhos também tem aumentado. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), em 2013, 40,4% das mulheres com 25 a 29 anos não tinham filhos — o índice era de 32,5% em 2004. Também de acordo com o SIS de 2014, as menores taxas de fecundidade foram detectadas, há dois anos, em Santa Catarina (1,58 filho por mulher), no Distrito Federal (1,59), no Rio Grande do Sul (1,60), no Rio de Janeiro (1,62) e em São Paulo (1,63). No sentido oposto, estão Acre (2,59), Amapá (2,42), Amazonas (2,38), Roraima (2,34) e Maranhão (2,28). O levantamento mostra ainda que a cor e o nível de escolaridade da mulher interferem nesse fenômeno. Em 2013, 41,5% das brancas com 15 a 49 anos não tinham filhos. Entre as negras ou pardas, o percentual era de 35,8%.

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