Machismo e falta de equidade são alguns dos desafios que as mulheres enfrentam na vida acadêmica

Estereótipo de que as mulheres não têm as habilidades intelectuais necessárias para encabeçar uma pesquisa científica ajuda a explicar a pouca representação delas na ciência

por Gláucia Chaves 27/02/2015 09:30

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SABIN/Divulgação
Júlia Vasques diz que é comum o preconceito com as mulheres que engravidam ou pretendem ter filhos (foto: SABIN/Divulgação )
Graças a histórias em quadrinhos, filmes e seriados, o cientista está no imaginário das pessoas como um homem excêntrico, descabelado, imerso em cálculos incompreensíveis por nós, meros mortais. Tente, agora, buscar na memória a imagem de uma mulher cientista. Difícil? Para pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, isso se deve à sub-representação feminina em áreas científicas — não apenas nas telas, mas, principalmente, na vida real. O mote do estudo, publicado este mês na revista científica Science, foi responder à pergunta: afinal, onde estão essas mulheres?

De acordo com dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), hoje, no Brasil, há 63.349 doutores bolsistas de mestrado do sexo masculino — 7.075 a mais que do sexo feminino. A maioria delas concentra os estudos em áreas das ciências humanas (10.856) e da saúde (10.088), enquanto eles dedicam-se às ciências sociais aplicadas (7.236), exatas e da terra (6.258). A equipe de psicólogos norte-americanos testou três hipóteses para a falta de estrogênio nos laboratórios: a) mulheres tentariam evitar carreiras que as obrigam a trabalhar muitas horas seguidas; b) mulheres seriam menos capazes de entrar em campos altamente seletivos; e c) mulheres seriam superadas por homens em carreiras que exigem raciocínio analítico e sistemático.

No estudo, os pesquisadores entrevistaram 1, 8 mil estudantes de graduação, pós-doutorado e docentes de 30 disciplinas diferentes. O objetivo principal foi analisar a cultura de diferentes campos do conhecimento. Entre outras coisas, eles perguntaram quais qualidades eram necessárias para que os participantes tivessem sucesso em seus campos de atuação. As mulheres sentiam-se (e eram) subrepresentadas em ambas as áreas: humanas e exatas. Historicamente consideradas inferiores intelectualmente, mulheres que se interessam por campos como física, engenharia, matemática e outras que “idolatram gênios” costumam encontrar resistência. Ao fim do experimento, os pesquisadores chegaram à mesma conclusão das que se aventuram no mundo científico: há poucas mulheres na ciência porque a ciência não dá espaço.

O estereótipo de que elas não têm as habilidades intelectuais necessárias para encabeçar uma pesquisa científica, para os estudiosos, ajuda a explicar a pouca representação delas na ciência. “Não estamos afirmando que ser brilhante ou valorizar quem é brilhante é uma coisa ruim”, frisou Andrei Cimpian, um dos psicólogos envolvidos no trabalho. “Também não estamos dizendo que mulheres não são brilhantes ou que ser brilhante não é útil para a carreira acadêmica. O que nossos dados sugerem é que transmitir aos alunos uma crença de que o ‘brilho’ é necessário para o sucesso pode ter efeito diferenciado sobre homens e mulheres que estão tentando seguir essa carreira.”

UFRGS/Divulgação
Doutora em física e pesquisadora do CNPq, Márcia acredita que poucas mulheres conseguem chegar aos cargos de chefia (foto: UFRGS/Divulgação )
Para Márcia Cristina Barbosa, professora de física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e doutora em física, antes de se pensar nas diferenças entre homens e mulheres que explique a desproporção nas ciências exatas, é preciso analisar se há equidade. Márcia explica que na pesquisa em geral e, em particular, em exatas, a produção científica é quantificada com base em algumas variáveis: número de artigos, de citações, parâmetro h (número de artigos com até h citações) e de estudantes formados. Em um mundo com igualdade homens e mulheres, esses índices devem estar no mesmo nível. “Em física, descobrimos em 2005 que esse não era o caso. As mulheres no nível 2 e no nível 1B (primeiros níveis) tinham, em média, mais artigos do que os homens.”

A conclusão veio a partir de um levantamento feito pela professora para avaliar a entrada e saída no sistema e para as alterações de nível em bolsas de Produtividade em Pesquisa, oferecidas pelo CNPq. Entre os dados, a pesquisadora descobriu que, de 2005 a 2010, os homens produziram apenas um artigo a mais que as mulheres. “Pergunto, então, se isso é equidade. Não, isso é igualdade e não há coisa mais injusta que tratar profissionalmente com igualdade quem tem, no mundo privado, tratamento desigual”, argumenta. “As mulheres ainda são as responsáveis por administrar o lar, os filhos e os velhos. Como poderíamos esperar uma produção igual em condições desiguais?”.

O artigo “Mulheres na física do Brasil: por que tão poucas? E por que tão devagar?”, também de autoria de Márcia, mostra que o percentual de mulheres na física é pífio: menos de 15% estão entre os bolsistas do CNPq. Dessas, apenas 5% ocupam o topo. Outra questão, então, vem à tona: por qual motivo seria desejável ter mais mulheres nos postos de maior importância? Afinal, por que a física precisa delas? “Não vou trazer questões como democracia ou justiça. A física precisa de mulheres porque ciência precisa de diversidade”, resume a cientista. “Hoje, a ciência se faz em grandes grupos, em grupos que precisam juntar o diferente para gerar o novo.”

Valorização profissional, diferença de salários e/ou de tarefas não são questões que incomodam as cientistas. O que atrapalha (ao menos na opinião das pesquisadoras ouvidas nesta reportagem) é justamente a dificuldade em alcançar o topo. Júlia Vasques, biomédica e pesquisadora do Laboratório Sabin, foi vencedora da medalha de melhor trabalho científico da Annual Meeting and Clinical Lab Expo 2013, evento promovido pela American Association for Clinical Chemistry (AACC). Ela endossa a opinião de Márcia Barbosa: há, sim, mulheres na ciência. O problema é onde elas estão alocadas. “Percebo que a participação vem crescendo muito, mas, os grandes chefes da produção científica, principalmente na área da saúde, são homens.”

Maternidade sob o microscópio
Ascender em uma carreira que exige constante estudo, produção e aulas transforma-se em missão quase impossível quando também é preciso administrar tarefas domésticas e, sobretudo, a maternidade. A ideia de que ciência e família são duas retas paralelas é amplamente difundida nos corredores da academia. “Escutei muito que mulher que estuda demais não se casa”, conta Júlia Vasques. “Existe também algum preconceito quando a cientista está grávida ou quer engravidar. A ciência torna-se incompatível em certos momentos da vida.”

A visão machista, contudo, não a incomoda. Júlia ainda não se casou, mas não descarta a possibilidade nem sente medo de deixar a carreira de lado por conta disso. “Sempre senti que os meus parceiros tinham orgulho de mim. Ficava feliz com a forma que falavam sobre mim para a família e amigos. Acho que nenhum homem quer uma mulher medíocre.” Inês Staciarini Batista, física, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e doutora em ciências espaciais atmosféricas, já ouviu poucas e boas entre um tubo de ensaio e outro. “Hoje, não enfrento mais problemas dessa natureza, mas encaro como um desafio grande conciliar carreira, filhos e casa.” Ela tem três filhos e 40 anos dedicados à pesquisa e à ciência.

Atualmente, a pesquisadora confessa que não faz ideia de como conseguiu dar conta de tudo. Competitividade, participação em congressos e produção de artigos e pesquisas quando se tem filhos são alguns motivos que, para ela, fazem com que muitas colegas retardem a carreira ou mesmo abortem o desejo de serem cientistas. “Esse é um ponto mais complicado para nós, mas nada que não possa ser compensado quando as crianças estiverem maiores”, pondera. A fórmula mágica, como sempre, é persistir.

Na visão de Inês, o que afasta as mulheres da carreira científica, contudo, não são horários prolongados, a quantidade de artigos científicos ou a obrigatoriedade de produzir tanto quanto os homens e ser mãe ao mesmo tempo. O que falta é despertar o interesse delas para esse mundo. “Falta oportunidade de ter contato, na escola, com o que essas carreiras exigem da pessoa”, opina. “Tornar a matemática atrativa para meninas, por exemplo, seria um dos caminhos.

Norma Teresinha Oliveira Reis formou-se em pedagogia, mas resolveu enveredar por outros caminhos após a graduação. Hoje, é mestra em Administração Espacial pela International Space University. Passou três meses em estágio na Agência Espacial Americana (Nasa). Ao longo de todo esse tempo, notou que, em função do gênero, recebia “um tratamento mais condescendente”. “Os homens tendem a valorizar mulheres submissas em detrimento das mais competitivas”, analisa. “Aquelas que demonstram um perfil mais agressivo são, de certa forma, discriminadas.” Além da mentalidade machista que ainda permeia a ciência, Norma acredita que a própria autoestima das mulheres não trabalha a favor das que querem ser cientistas. “Em muitos casos, elas não acreditam no próprio potencial e acabam se excluindo. Um exemplo disso é que apenas cerca de 20% dos alunos de física são do sexo feminino.”

A falta de políticas públicas efetivas voltadas para o incentivo da mulher na ciência e mesmo ações compensatórias — como bolsas de estudo e prêmios — também reforça esses números, na opinião de Norma Reis. “O grau mais alto da pesquisa do CNPq tem apenas 3% de pesquisadoras de alto nível”, argumenta. “O Estado deveria oferecer creches, instituições para ajudá-las a fazerem ciência e ter filhos ao mesmo tempo.”

ENTREVISTA

Christina Helena Barboza

Arquivo Pessoal/Divulgação
"Isso implica participação em eventos, bancas, reuniões, muitas viagens, e, sob esse ponto de vista, elas têm mais dificuldade de acompanhar o ritmo dos homens" (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação )
Muito a conquistar
Christina Helena Barboza é doutora em história e pesquisadora titular da Coordenação de História da Ciência do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast/MCTI)

Qual foi o papel feminino na história da ciência?
Desde a emergência da ciência moderna, no século 17, até a década de 1970 pelo menos, a verdade é que as mulheres desempenharam papel secundário. Claro que há variações conforme as áreas do conhecimento e os países, e podemos citar várias exceções, mas essa afirmação pode ser comprovada por um dado significativo: a primeira vez que uma mulher foi admitida em uma das mais antigas e prestigiosas instituições científicas, a Academia de Ciências de Paris, foi em 1979!

Quais mulheres mais se destacaram em campos científicos até hoje? Quais estão em destaque atualmente?
A resposta a essa pergunta sempre terá um cunho muito subjetivo, mas, para muitos, a mulher que merece um destaque especial na história das ciências é Marie Curie (1867-1934). No início do século 20 — portanto em um contexto marcado ainda por muita discriminação —, ela conseguiu a proeza de receber dois prêmios Nobel (o primeiro deles, em 1903, de Física, com o marido Pierre e Henri Becquerel, pelas pesquisas em radioatividade; e o segundo, em 1911, de Química, sozinha, pela descoberta dos elementos rádio e polônio). Se tomarmos o Prêmio Nobel como um indício de destaque na carreira científica, a grande maioria das mulheres que se destacaram ao longo do século 20 não trabalharam em física, química ou matemática, áreas ainda hoje dominadas pelos homens. Aturam mas na área da medicina, como Gery Theresa Cori (1947), Barbara MacClintock (1983), e Gertrude Elion (1988). Outras cientistas frequentemente lembradas trabalharam em campos de menos prestígio no mundo acadêmico, também mais abertos à participação feminina, como Margaret Mead (antropologia), Jane Goodall (primatologia), Melanie Klein (psicologia), e Rachel Carson (biologia e ecologia).

Carreiras que exigem mais horas de trabalho, como a de um pesquisador, afastam as mulheres ou o próprio mercado as descrimina?
A carreira de pesquisador, na medida em que se progride, não exige apenas o trabalho de pesquisa (e o de ensino, que quase sempre vem junto) em si, mas um esforço de negociação com os pares e demais agentes sociais em busca de apoio em diversas formas (recursos financeiros e humanos, publicações). Isso implica participação em eventos, bancas, reuniões, muitas viagens, e, sob esse ponto de vista, elas têm mais dificuldade de acompanhar o ritmo dos homens.

Quais são os principais problemas enfrentados por elas? São os mesmos colocados aos homens?
Os obstáculos são os mesmos, pelo menos na área de história (das ciências). Acho que em outros campos do conhecimento, como a matemática, as engenharias e as ciências exatas de um modo geral, as questões são maiores, já que se deve acrescentar a discriminação de gênero, que ainda acontece. E o que é pior, acontece de maneira velada. Recentemente, conversei com uma astrônoma importante no cenário brasileiro, cujo nome prefiro não citar, que relatou ter ouvido de um colega que a bem-sucedida carreira dela no exterior tinha de ser atribuída aos contatos conseguidos pelo marido, também cientista.

O que falta para que elas tenham o mesmo reconhecimento no mundo científico?
Investimento maior na educação básica, que venha acompanhado de mudança na visão da ciência. Enquanto prevalecer a ideia de que a ciência é atividade para inteligências excepcionais e que o sucesso depende mais do talento individual do que do esforço coletivo, será difícil avançar.

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