Whatsappinite: uso constante do aplicativo pode causar inflamações e dores

Inflamação nos tendões provocada pelo uso excessivo de smartphones ou tablets já preocupa médicos; nova doença atinge principalmente jovens e pode limitar atividades

por Márcia Maria Cruz 22/02/2015 07:49

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EM/D.A Press
Ombro, cotovelo, polegar e até a coluna são afetados por movimentos repetitivos da troca de mensagens; lesão já foi chamada de LER, mas termo caiu em desuso entre os médicos (foto: EM/D.A Press)
Se você passa longo tempo digitando nas mídias sociais ou falando ao telefone deve acender um sinal de alerta. O uso frequente de smartphones pode causar problemas ortopédicos que atingem diferentes grupos musculares, como as tendinites, ou também comprometer a coluna, devido a hérnias de disco. A revista médica The Lancet descreveu o primeiro caso de whatsappinite, inflamação nos tendões causada pelo uso excessivo dos aparelhos de comunicação. “Nas sociedades modernas, temos novas doenças. A whatsappinite é um problema crescente, que preocupa muito. Como atinge os jovens, pode limitá-los nos estudos e outras atividades”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia Regional Minas (Sbot-MG), Carlos César Vassalo. A enfermidade assombra também profissionais que necessitam fazer o uso contínuo dos aparelhos, que não foram projetados para que as pessoas passem longos períodos digitando.

A whatsappinite é uma tendinite, inflamação nos tendões ocasionada por movimentos repetitivos. A enfermidade costumava ser identificada de forma genérica como lesão por esforço repetitivo (LER), mas os especialistas alertam que o termo está em desuso. Os quadros crônicos são denominados tendinopatias, que se caracterizam por lesões mais graves e degenerativas causadas por forçar o tendão. As inflamações no nível do ombro atingem o grupo muscular chamado manguito rotador. No cotovelo, acometem a região lateral, causando uma tendinite epicondilite lateral (veja quadro).

 

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(foto: EM/D.A Press)
No caso do uso dos smartphones, a maior queixa é em relação ao polegar, mas podem atingir mais de um ponto no corpo. As dores podem aparecer em diferentes partes, o que os especialistas chamam de trigger points, termo em inglês que significa pontos de gatilho. Trata-se de pontos dentro do músculo ou tendão que são hiperirritados. Dolorido, irradia dores para outras áreas do corpo. No caso do polegar, um dos problemas é o dedo em gatilho, nome popular da tenossinovite estenosante, causado por uma inflamação no tendão responsável por dobrá-lo. O resultado é que a pessoa não consegue estendê-lo.

Ao usar smartphone ou tablet por horas seguidas, as pessoas podem também comprometer a postura, conforme alerta Vassalo. Isso ocorre porque, ao se inclinar para olhar as telas, o movimento pode gerar pressão na coluna cervical e na toracolombar, que são sustentadas por músculos e tendões. Ao se curvar, a pessoa potencializa o estiramento dessas estruturas. “Quando a pessoa joga a cabeça para frente, faz uma força muito grande na região posterior. A inversão da coluna provoca uma compressão nos discos intervertebrais, o que pode levar a uma hérnia de disco”, pontua o ortopedista. Ao sair do eixo para digitar ou ver uma mensagem, a pessoa pode fazer uma força correspondente a 28 quilos sobre a coluna.

Todos que usam celulares devem ficar atentos a sinais, como dor durante ou posterior à digitação. O diagnóstico é feito em uma consulta clínica a um ortopedista. Em alguns casos, pode ser indicada uma ressonância magnética para ver a extensão da inflamação. O tratamento depende de cada caso e da identificação dos grupos musculares afetados. Mas, de forma geral, a primeira medida é diminuir e até mesmo cessar a atividade de digitação no prazo de 30 dias. A maior parte pode ser tratada com uso de anti-inflamatórios e analgésicos.

O coordenador do serviço de ortopedia da Rede Mater Dei de Saúde, Luiz Cláudio França, afirma que há uma procura maior aos consultórios devido ao uso excessivo de celulares. No entanto, segundo ele, ainda não há estatísticas específicas sobre o número de casos. Isso porque muitas vezes as pessoas não se dão conta de que o problema pode ter sido causado pela digitação, de forma incorreta, nos aparelhos. “Muitas vezes, as pessoas se preocupam com os dedos, mas o uso excessivo do telefone celular traz sobrecarga na região cervical, ombros, cotovelos, punhos e mãos”, pontua.

PREVENÇÃO Os ortopedistas recomendam que, ao receber uma ligação, a pessoa evite apoiar o aparelho apenas no ombro. É importante manter a coluna ereta. Quando se está na rua, uma boa dica é manter o abdômen tenso e não flexionar a coluna. “É o celular que vai ao usuário e não ele que se movimenta para chegar o ouvido ao aparelho. A cabeça deve se manter alinhada ao tronco. Não deve ficar nem inclinada nem estendida”, explica França. Sempre que possível, o ideal é apoiar o braço. Uma dica é evitar deixar o braço no ar, sem apoio. “Apoiar o cotovelo diminui a carga sobre a musculatura de todo o membro superior”, acrescenta o médico.

Outras orientações são não ficar mais de 10 minutos seguidos digitando e evitar redigir textos muito longos nesses aparelhos. Os ortopedistas alertam que não são ergonomicamente projetados, como são os teclados do computador. Outra recomendação é aumentar a letra das mensagens, para que se possa ter uma melhor visualização, evitando a inclinação da cabeça. Controlar a força do toque, procurando empregar baixa pressão, também previne doenças.

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