Cientistas testam novos remédios promissores contra endometriose

Duas novas drogas, testadas em ratos, apresentam potencial para combater a doença. Se elas se mostrarem eficazes em humanos, poderão acabar com as dores no ventre sentidas pelas pacientes e reduzir a necessidade de cirurgias para corrigir o problema

por Vilhena Soares 28/01/2015 15:00

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A endometriose é um problema de saúde que atinge milhões de mulheres em todo o mundo, causando dores e as ameaçando com o risco da infertilidade, possível consequência do tratamento para o mal. Empenhado na busca por recursos mais eficazes para combater a enfermidade, um grupo internacional de pesquisadores chegou a duas substâncias que surgem como grandes promessas. Ao serem testados em ratos e em células endometriais humanas, os compostos se mostraram capazes de impedir o crescimento dos tecidos e até mesmo de fazê-los regredir, além de combater o processo inflamatório característico da doença.

Graças a esses resultados, os autores da pesquisa, publicada nesta semana na revista Science Translational Medicine, acreditam que as duas drogas experimentais possam se tornar remédios que combatam a dor sentida pelas pacientes devido à inflamação e reduzam a necessidade de intervenção cirúrgica, que visa retirar o excesso de tecido que cresce nas pacientes.

Para chegar à descoberta, os cientistas seguiram uma linha de estudo prévio, que apontou a ação dos receptores do hormônio feminino estrogênio como o principal alvo a ser combatido a fim de conter o crescimento do tecido endometrial. “A estimulação excessiva de estrogênio e sua inflamação são aspectos cruciais da endometriose. A hipótese com a qual trabalhamos é a de que os tratamentos devem suprimir esses dois componentes”, escrevem os autores no estudo, coordenado por Benita Katzenellenbogen, professora de biologia celular da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

Valdo Virgo/CB/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)


Receptores
As duas substâncias avaliadas, chloroindazole (CLI) e oxabicycloheptene sulfonato (OBHS), mostraram-se muito eficazes para bloquear a recepção de estrogênio e combater inflamações quando aplicadas de forma conjunta — sozinhas, não apresentaram bons resultados. Elas foram testadas tanto em ratas que tiveram tecido endometrial implantado quanto em células humanas no laboratório. “O OBHS ou o CLI administrados sozinhos não tiveram efeitos estimulantes sobre os receptores de estrogênio das ratas como esperávamos, mas, ao serem usados juntos, os compostos foram capazes de suprimir significativamente o crescimento do tecido uterino e a proliferação de células inflamatórias”, detalha o artigo.

A redução de tecido indica que, se os medicamentes se mostrarem eficazes em mulheres, eles podem tornar a cirurgia de remoção desnecessária em alguns casos. “A erradicação cirúrgica completa das lesões de endometriose é um desafio técnico e raramente alcançável clinicamente, dado que os sintomas da doença geralmente se repetem no pós-operatório ou após cessar o tratamento. Os nossos resultados sugerem que o OBHS e o CLI oferecem opções terapêuticas promissoras para a supressão de longo prazo das lesões e prevenção preexistentes de recorrência da endometriose”, escrevem os cientistas. Já a atuação sobre a inflamação representa um potencial para combater a dor que as pacientes sentem, algo que os remédios atuais ainda não conseguiram resolver. “Um dos principais objetivos no tratamento médico da endometriose é a redução de sintomas, especialmente a dor”, prosseguem.

Começo promissor
Na avaliação de Paulo Gallo, diretor médico do Centro Vida de Fertilidade da Rede D’Or, o trabalho mostra uma estratégia de tratamento promissora, principalmente se comparado às estratégias usadas atualmente. “Esses novos compostos, ao inibirem os receptores do estrogênio, atuam de forma diferente da dos medicamentos usados hoje em dia, que agem diretamente no estrogênio. Por conta disso, eles conseguem, além de bloquear o crescimento, reduzir o tecido endometrial que cresce fora do útero. É uma supressão dupla, que age também na inflamação, combatendo, assim, as dores, agindo de forma mais eficaz e completa”, destaca o especialista, que não participou do estudo.

Gallo diz ainda que o trabalho pode ajudar a reduzir os casos de infertilidade, que ocorrem geralmente como um efeito colateral do tratamento. “Quando você ataca o estrogênio, responsável pelo crescimento do tecido do endométrio, mas que também é um dos encarregados em preparar o local para que o feto se estabeleça, você acaba prejudicando as chances de a mulher ter filhos. Durante esse tratamento, ela não pode engravidar. Mas ao utilizar remédios mais eficazes como esse, as chances de tratar a doença de forma mais eficiente e reduzir a necessidade de realizar cirurgias que são feitas para retirar o tecido endometrial diminuem bastante”, analisa. “Essas cirurgias comprometem a fertilidade, já que, nelas, o risco de prejudicar o ovário também é muito grande”, completa o especialista.

Rosires Pereira, professor de reprodução humana da Universidade Federal do Paraná (UFPR), também aponta a ação sobre os receptores de estrogênio como o grande diferencial das drogas testadas. “Esses novos compostos agem nos receptores do hormônio e vão direto à raiz do problema. É como se você desligasse uma tomada. Desse modo, o resultado se torna bem mais eficaz do que remédios que agem apenas no estrogênio”, afirma.

Busca necessária
Para Pereira, a busca por medicamentos que tratem a endometriose de forma mais eficaz e sem prejudicar a fertilidade das mulheres é muito importante devido à grande incidência da doença — nos Estados Unidos, estima-se que 15% das mulheres tenham o problema. “O número de pacientes que sofre com a endometriose é imenso, e eu, que acompanho várias delas, sei como o sofrimento causado pela dor é grande. Elas têm a vida atrapalhada diariamente, pelas dores que surgem seja durante a menstruação, seja durante o ato sexual. Qualquer recurso que possa reduzir esse sofrimento é muito bem-vindo”, diz.

O especialista da UFPR acrescenta que a descoberta, apesar de ainda precisar ser testada em humanos, traz grandes esperanças. “Caso os resultados positivos se repitam em exames futuros, poderemos tratar as mulheres com medicamentos seguros desde novas, a partir dos 15 ou 20 anos. Quem sabe até usá-los para prevenir a doença, sem alterar o ciclo reprodutivo, assim como foi visto nos animais. Seria uma grande vantagem não afetar a capacidade de fertilização durante o tratamento”, declara Pereira. Gallo concorda com o colega. “É importante tratarmos um problema de alta recorrência em mulheres sem trazer efeitos colaterais para elas, como a infertilidade. Esse estudo é uma esperança inicial e deverá chegar a uma fase mais avançada daqui a cinco ou 10 anos”, opina.

"Esses novos compostos, ao inibirem os receptores do estrogênio, atuam de forma diferente da dos medicamentos usados hoje em dia. Eles conseguem, além de bloquear o crescimento, reduzir o tecido endometrial” - Paulo Gallo, diretor médico do Centro Vida de Fertilidade da Rede D’Or

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