Cientistas descobrem superantibiótico

Em experimento com ratos, a substância identificada no solo e cultivada em laboratório conseguiu eliminar as bactérias resistentes aos medicamentos atualmente disponíveis. Não há previsão para os testes com humanos, mas a expectativa é de que o efeito se repita

por Vilhena Soares 12/01/2015 13:30

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Durante muitos anos, os antibióticos têm sido utilizados como arma principal de combate a infecções. A ingestão recorrente, porém, tem um problema: a resistência das bactérias a esses medicamentos. A estimativa é de que esses micro-organismos que não sucumbem às medicações disponíveis matem 10 milhões de pessoas por ano a partir de 2050. Por isso, cientistas correm contra o tempo para encontrar drogas mais potentes. Um estudo norte-americano divulgado na edição de hoje da revista Nature traz resultados animadores nesse sentido. Pesquisadores do Laboratório de Descobertas Antimicrobianas da Universidade de Northeastern identificaram um composto que mata também as superbactérias.

“A resistência aos antibióticos está se espalhando mais rápido do que a introdução de novos compostos para a prática clínica, contribuindo para uma possível crise de saúde nessa área”, justifica, no trabalho divulgado na Nature, Kim Lewis, um dos autores do estudo. Os pesquisadores analisaram 10 mil compostos retirados do solo — uma antiga estratégia de busca de medicamentos —, cultivaram-nos em laboratório e os testaram em ratos. A substância nomeada pela equipe por teixobactin apresentou os melhores resultados. “Dado o modo de ação desse composto, investigamos o potencial dele como terapêutico. Ele manteve a potência na presença de soro, permaneceu estável e mostrou uma baixa toxicidade”, resume Lewis.

O teixobactin mostrou resultados positivos principalmente no combate às bactérias Clostridium difficile, Mycobacterium tuberculosa e Staphylococcus aureus, presentes, respectivamente, em infecções digestivas, tuberculose e infecções de pele. A ação do composto é semelhante à da vancomicina, um antibiótico de última geração para várias infecções bacterianas. Ambos agem quebrando as paredes celulares das bactérias. “É como se elas explodissem, parecendo um balão de água. Por isso, acabam morrendo”, explica Naíra Bicudo, infectologista do Hospital Santa Luzia, em Brasília.

Os cientistas da Universidade de Northeastern destacam que, assim como quando a vancomicina estava sendo criada, o teixobactin vai precisar de mais testes para que possa ser usado clinicamente em humanos. Mas a equipe está otimista com os resultados já mostrados pelo novo composto que, de acordo com eles, poderá ser usado por muito tempo com eficácia.

“Após a introdução da vancomicina nas prescrições clínicas, foram necessários 30 anos para que a resistência a ela aparecesse. Provavelmente, vai demorar ainda mais até que ocorra o mesmo com o teixobactin, pois ele é ainda menos comum que a vancomicina”, aposta Lewis. O teixobactin, segundo o pesquisador, é o primeiro membro de uma nova classe estruturalmente distinta de substâncias antibióticas. “Provavelmente, mais compostos naturais com baixa suscetibilidade à resistência estejam presentes na natureza esperando para serem encontrados”, acredita.

Releitura promissora
Imunologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Jorge Andrade Pinto ressalta que o trabalho da instituição norte-americana chama a atenção também pelo resgate de uma via de investigação antiga, mas complementada por novas técnicas laboratoriais. “O interessante dessa pesquisa é ter produzido algo a partir de cepas bacterianas de micro-organismo do solo. Esse tipo de estudo esgotou-se entre as décadas de 1960 e 1970 porque os pesquisadores acharam que não existiam mais chances de descobrir agentes usando esse modo de busca”, conta. “Essa equipe de agora desenvolveu uma forma moderna de cultivá-las em laboratório, o que antes não era possível, e isso rendeu resultados positivos.”

Andrade, assim como Lewis, acredita no desenvolvimento de um potente medicamento a partir do teixobactin. “Analisar compostos que antes não eram cultiváveis nas condições de um laboratório abre uma nova perspectiva de investigação de moléculas com potencial de antibióticos”, diz. A infectologista Naíra Bicudo complementa, ressaltando que a proposta é promissora por explorar um cenário que já se mostrou rico em termos de ganhos para a saúde.

“Normalmente, os antibióticos são descobertos no meio ambiente, já tivemos até um caso famoso na história, o da penicilina, que foi achada por acaso e que fez uma enorme diferença para a área médica”, destaca. A infectologista reforça que, além dos esforços científicos, é necessário um cuidado maior de médicos e pacientes com relação à ingestão de antibióticos. “O uso indiscriminado torna as bactérias mais resistentes”, justifica.

Professor na área de saúde pública do Imperial College London, Neil Woodford reforçou, em comunicado sobre o trabalho dos pesquisadores da Universidade de Northeastern, que chegar à comercialização de um novo antibiótico é um processo demorado. Daí, a importância de não se descuidar das opções existentes. “Identificado em qualquer composto um potencial antibacteriano, da descoberta à concessão de licenças de uso clínico, é um processo longo, caro e difícil. No entanto, é algo que precisa ser incentivado. Outro fator a se considerar é que, embora busquemos novos elementos para evitar a resistência aos antibióticos, precisamos procurar preservar os medicamentos que já temos.”

Pior que tumores
A estimativa foi apontada em um estudo encomendado pelo governo britânico ao economista Jim O'Neill e divulgado no mês passado. O'Neill levou em consideração projeções do instituto de pesquisa Rand Europe e da empresa de consultoria KPMG para calcular as taxas de mortalidade e o impacto econômico provocados pelas superbactérias. Ele estima que os custos com tratamentos em decorrência de infecções causadas por esse patógenos chegarão em US$ 100 trilhões nas próximas décadas. A quantidade de mortes previstas para 2050 é maior que o número atual das vítimas de câncer no mundo.

A resistência aos antibióticos está se espalhando mais rápido do que a introdução de novos compostos para a prática clínica, contribuindo para uma possível crise de saúde nessa área”
Kim Lewis, pesquisador da Universidade de Northeastern

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