Quem aparenta ter boa saúde pode levar vantagem em entrevistas de emprego

Na pesquisa realizada na Holanda, os cientistas pediram a 148 mulheres que escolhessem um novo gerente para a empresa na qual trabalhavam

por Vilhena Soares 09/01/2015 11:00

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Antes de ir a uma entrevista de emprego, o candidato geralmente toma alguns cuidados com a aparência. Escolhe a roupa, ajeita o cabelo, corta as unhas, tudo para passar uma boa impressão ao, se tudo der certo, futuro patrão. Contudo, poucas pessoas se preocupam em parecerem saudáveis nesse primeiro encontro profissional, mas pode estar aí o grande diferencial para se destacar na concorrência. Pelo menos é o que aponta um estudo da Universidade VU, em Amsterdã, Holanda. De acordo com um experimento realizado recentemente por especialistas da instituição, uma fisionomia que dá a sensação de a pessoa ser saudável costuma agradar mais aos responsáveis por processos seletivos do que sinais de inteligência.
Pesquisadores manipularam rosto para dar a impressão de graus diferentes de saúde e inteligência

“Nossa ideia foi analisar a ‘atratividade’ por meio de dois de seus subcomponentes principais: a saúde e a inteligência. Analisamos como esses dois fatores influenciam a vontade de seguir um líder, o que é conhecido como a emergência de liderança”, explica Brian Spisak, principal autor do estudo e professor assistente no Departamento de Gestão e Organização da instituição de ensino.

No experimento, os cientistas pediram a 148 mulheres que escolhessem um novo gerente para a empresa na qual trabalhavam. A escolha deveria ser baseada apenas em fotos de rostos masculinos que lhes eram mostradas. Além disso, as participantes deviam apontar o “candidato” mais adequado para diferentes desafios, como lidar como uma concorrência agressiva, renegociar com outra empresa, conduzir mudanças no mercado e supervisionar a exploração de energia sustentável.

As fotos mostradas eram sempre do mesmo homem, mas com alterações feitas no computador para que seu aspecto passasse uma impressão de ser mais ou menos saudável ou inteligente. Os cientistas notaram que, entre as opções mais saudável-menos inteligente e menos saudável-mais inteligente, a preferência das participantes costumava recair sobre a primeira. “A resposta que tivemos nos nossos resultados sugere que, pelo menos nesse experimento particular, as pessoas, em geral, preferem um líder com aspecto saudável. Isso faz sentido. Você não gostaria de seguir um líder que não é saudável. O que acontece se eles ficam doentes no meio da liderança de algo importante?”, destaca Spisak.

A única exceção notada no experimento foi quando a escolha de melhor candidato era referente a cargos de renegociação da parceria e exploração de um novo mercado — funções que pedem mais diplomacia e criatividade. “Para as tarefas que exigem a associação entre grupos, a preferência foi por um líder de olhar inteligente. Mais uma vez, isso faz sentido. Manter a parceria entre grupos requer uma quantidade significativa de poder cognitivo tanto para pensamento tático quanto para estratégia, bem como a utilização de empatia emocional para manter um senso de justiça e cooperação”, acrescenta o autor do trabalho.

Segredos do rosto
Os cientistas usaram traços faciais como base para a pesquisa por acreditarem que eles fornecem uma grande riqueza de informações ligadas à personalidade. Segundo Spisak, a atuação de hormônios influencia tanto na fisionomia quanto na atitude das pessoas. “A ideia básica é que certos hormônios, como o estrogênio e a testosterona, são, respectivamente, associados à ‘tendência à amizade’ e a um comportamento mais competitivo e de dominação. Da mesma forma, esses mesmos hormônios são associados a características físicas mais femininas ou masculinas”, afirma Spisak.

O autor está convencido de que seu trabalho pode ajudar as pessoas a perceberem o quanto é importante parecer mais saudável em momentos em que a apresentação externa conta pontos, como durante uma seleção de emprego. “Uma pessoa pode ser mais ou menos atraente ajustando as percepções de inteligência e saúde. Por exemplo, comer uma dieta saudável pode eventualmente ajustar a pigmentação do seu rosto e, consequentemente, ajustar a percepção de sua saúde. Outros podem, por exemplo, usar maquiagem e/ou cirurgia plástica”, diz.

Para Augusto Puliti, diretor-geral da empresa de seleção DM, em São Paulo, a pesquisa é interessante e mostra a saúde como ponto importante para uma seleção, mas acrescenta que outras etapas de uma entrevista também pesam, principalmente as que avaliam mais a fundo a inteligência. “Não sei dizer até que ponto esse trabalho é aplicável no mundo dos negócios. A apresentação, como a roupa, a limpeza e o porte físico, pode contar muito, mas, ao entrevistar alguém, além de a pessoa parecer saudável, ela também precisa mostrar afinidade com a tarefa do cargo”, destaca Puliti. “Porém, se a pessoa está com gripe e passa a entrevista toda espirrando, não aparentando força para o trabalho, é incontestável que isso pode contar”, acrescenta.

Subjetividade
Professora do curso de psicologia do Centro Universitário Iesb de Brasília, Bárbara Sena considera que a pesquisa traz uma percepção diferente sobre as entrevistas de emprego. “Quando psicólogos realizam processos seletivos, eles precisam elaborar um perfil do cargo que será objeto da seleção, envolvendo competências, habilidades e atitudes que o candidato deve ter. Esse processo anterior destina-se exatamente para diminuir a subjetividade presente em qualquer processo seletivo. Porém, os estudos sobre percepção indicam que as primeiras impressões sempre são duradouras, e a comunicação não verbal é um dos itens mais importantes para a formação dessas impressões”, destaca a especialista.

De acordo com Sena, detalhes do rosto são ferramentas que possuem potencial para análises de percepção. “As expressões faciais são consideradas as joias da comunicação não verbal, com uma extensa pesquisa que se inicia com a obra de Darwin The expression of the emotions in man and animals, de 1872. Várias pesquisas citadas no livro Psicologia social, de Elliot Aronson, também indicam que, a partir de um traço percebido, formulamos um veredito sobre a pessoa como um todo”, explica.

Para a psicóloga, o conceito de saudável, interpretado pelas participantes do estudo, também engloba outros fatores importantes para seleção. “No caso da pesquisa citada, se percebo um rosto como saudável, considero que essa pessoa também é inteligente, generosa, se relaciona bem etc. Como, na atualidade, a nossa sociedade considera a beleza e a saúde como valores importantes, esses traços sobrepõem-se aos demais”, observa. “Estudos sobre primeiras impressões são de extrema importância para ficarmos atentos aos erros de percepção que podem ocorrer em função do impacto de algumas expressões faciais. Muitas vezes, a primeira impressão pode determinar a exclusão de um candidato que tem todas as competências para o cargo”, alerta a especialista.

A pesquisa dos cientistas holandeses terá continuidade com foco em cargos de chefia de empresas. “Continuaremos investigando a forma como a liderança pode mudar as unidades em grupos, como diferentes tipos de liderança podem refletir em temas voltados para atividades de fontes não renováveis de recursos renováveis, e também como essa condução pode aumentar a produção de inovação das organizações”, adianta Spisak.

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