Doenças dos trópicos são novos desafios para restante do mundo

Com a globalização, enfermidades como o mal de Chagas e a malária são cada vez mais diagnosticadas fora da América Latina, da África e do Sul da Ásia, e já despertam o interesse de grandes centros de pesquisa

por Vilhena Soares 05/01/2015 16:00

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Desembarcando em terras nunca desbravadas, os colonizadores encheram os olhos com as riquezas da América e também sentiram no corpo os efeitos do novo abrigo. Foram vítimas de doenças transmitidas por insetos que se proliferam com facilidade no clima quente e úmido. Ficaram abatidos, mas nada que desse notoriedade aos males dos trópicos. Durante séculos, essas enfermidades permaneceram no campo do desinteresse. Tanto que são chamadas de negligenciadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A globalização, porém, tem forçado quem está em outros continentes a buscar formas mais eficientes de combatê-las.

“A intensificação das migrações e a facilidade de deslocamento aumentaram o interesse e a necessidade de alguns países de se organizarem para trabalhar contra essas doenças. A ida de latinos à América do Norte, à Espanha e ao Japão fez com que aumentasse o número de casos de Chagas e ocorresse a detecção da infecção chagásica entre doadores de sangue e de órgãos. EUA, França e Itália já detectaram transmissão de dengue originada no próprio território”, relata Expedito José de Albuquerque Luna, pesquisador do Laboratório de Epidemiologia e vice-diretor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP).

Grandes laboratórios dos EUA dedicam-se a pesquisas de medicamentos e vacinas voltados às mazelas tropicais. Especula-se no meio científico que haja também um interesse militar nesses projetos. A história ajuda a embasar a hipótese. Durante a Guerra do Vietnã, por exemplo, grande parte das tropas americanas morreram mais de malária do que de armas e bombas. Nos novos tempos, a dengue e a doença de Chagas ameaçam. Desde 2009, casos autóctones (surgidos localmente) de dengue são registrados na Flórida e no Texas. A estimativa é de que 300 mil tenham Chagas nos EUA. A projeção para a Europa é de 180 mil a 200 mil infectados.

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O aumento do fluxo de estrangeiros está relacionado ao fenômeno, dizem especialistas, forçando os investimentos em busca da contenção do problema. “O que ocorre hoje em dia para um cenário mais rico em tratamentos das doenças tropicais em áreas que não tinham o número alto de casos é a migração”, diz José Rodrigues Coura, pesquisador e chefe do Laboratório de Departamento de Doenças Parasitárias do Instituto Oswaldo Cruz. Ainda assim, Expedito Luna reforça que há a necessidade de mais investimentos para que esses males sejam exterminados. “Precisamos de estímulo, patrocínios e programas de incentivo que ajudem a comunidade científica a dar retorno à sociedade e contribuam para que esses problemas tão antigos deixem de ser uma preocupação de mortalidade.”

Melhoras no Brasil
Um estudo divulgado na revista The Lancet indica que as doenças negligenciadas são responsáveis por 11,4% da carga global de enfermidade e que, no período de 1975 a 2004, apenas 21 (1,3%) dos 1.556 novos medicamentos registrados foram desenvolvidos especificamente para esses males. Logo após o período analisado na pesquisa, o cenário começou a melhorar, diz Expedito Luna. “Como resultado dos esforços em trazer essas doenças à agenda dos grandes atores, como governos, organizações internacionais, indústria e agências de fomento e financiamento, a situação de negligência começou a ser revertida nos últimos 10 anos com um perceptível volume maior de financiamento e o início de grandes projetos de pesquisa”, diz o pesquisador da USP.

José Coura acredita que as parcerias entre governo, laboratórios privados e universidades têm surtido efeito principalmente no Brasil. “Não considero mais as doenças tropicais como um tema negligenciado no nosso país. Reduzimos consideravelmente o número de casos de enfermidades agudas e praticamente não temos mais pessoas com menos de 20 anos infectadas. Acredito que a malária na Amazônia ainda é um grande problema a ser resolvido, a doença de Chagas também, mas temos programas em desenvolvimento de vacinas e estratégias de prevenção que estão se destacando”, avalia o pesquisador.

Há dois anos, a OMS divulgou um relatório, o Manter o impulso para superar o impacto global das doenças tropicais desatendidas, que indicava avanços sem precedentes” na erradicação desse tipo de enfermidade. O documento, porém, chamava a atenção para o fato de a incidência da dengue ter se multiplicado por 30 nos últimos 50 anos, representando um potencial de se transformar em epidemia mundial. “A doença está em 150 países, não há uma região no mundo sem ela. Se não for controlada corretamente, pode se transformar em uma verdadeira pandemia”, disse, à época, Raman Velayudhan, do Departamento de Controle de Doenças Tropicais Negligenciadas da OMS.

A dengue é considerada endêmica (mantida em determinada população, sem necessidade de contaminação no exterior) em 100 países, incluindo quase todos da América Latina e do Sudeste asiático. A última grande epidemia da doença na América Latina se deu em 2010. De acordo com a Organização Pan-americana da Saúde, 1,8 milhão de pessoas foram infectadas e 1.167 morreram. No mesmo ano no Brasil, o número de casos de dengue triplicou em relação ao anterior. Foram 999.688 relatos e 572 óbitos, segundo o Ministério da Saúde.

655 mil mortes/ano
Doença negligenciada com um dos maiores índices de mortalidade. Na África, uma criança morre a cada 30 segundos em decorrência das complicações da malária. Em todo o planeta, o número de óbitos de pessoas com todas as idades chega a 655 mil por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Se for tratada na fase aguda, tem cura, mas a crescente resistência dos parasitas às drogas disponíveis vem preocupando a comunidade médica. Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, acredita-se que a malária retarde o crescimento econômico anual em 1,3% em áreas com alta prevalência.

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