Pesquisa mostra que contato materno é um poderoso remédio para os filhos

Em experimento com ratos, cientistas dos EUA constatam que a presença da genitora bloqueia a sensação de dor nos filhotes

por Vilhena Soares 02/01/2015 09:00

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Tratamentos que priorizam o contato da mãe são adotados em clínicas e hospitais de diferentes países e apresentam ótimos resultados (foto: SXC.hu)
O contato materno é mesmo um santo remédio. Capaz até de evitar a dor física. É o que dizem cientistas de uma instituição norte-americana. Ao analisar as reações de filhotes de rato na presença e na ausência da genitora, eles perceberam que um grupo de genes responsáveis pela dor era menos ativo quando os bichinhos estavam acompanhados. Os estudiosos acreditam que o mesmo comportamento ocorra em seres humano e que a influência da presença da mãe na atividade dessas células possa agir também no desenvolvimento do cérebro.

“Gerenciar a dor durante procedimentos médicos é um assunto de extrema importância na medicina hoje. Nosso trabalho foi projetado para entender melhor um método de redução desse problema em jovens”, explica ao Correio Regina Marie Sullivan, psiquiatra do Centro de Estudos da Criança no NYU Langone Medical Center e uma das autoras do estudo, divulgado na reunião deste ano da Sociedade de Neurociência, em Washington.

Os cientistas concentraram-se em reações genéticas no tecido da amígdala, estrutura cerebral responsável pelo processamento de reações como o medo e o prazer. Descobriram que pelo menos 100 genes responsáveis pela sensação de dor eram menos ativos em filhotes quando estavam perto da mãe. “O que esse experimento nos mostrou é que a presença materna serve como um amortecedor do cérebro em uma resposta à dor. Pelo nosso estudo, entendemos que, quando a mãe reconforta seu bebê que tem esse desconforto, não provoca apenas uma resposta comportamental. Isso também reflete em mudanças no circuito neural geradas pela inativação de genes”, explica Sullivan.

Gustavo Guida, geneticista do Laboratório Exame, observa que o conjunto de genes analisados e que sofrem mudanças de ativação é provocado por fatores externos, como o simples olhar da mãe. “Isso é diferente de reações químicas, por exemplo, e pôde ser provado pela observação em ratos”, diz. O especialista destaca ainda que a sensação de conforto independe de fatores biológicos. “Vemos em humanos que a melhora das crianças acontece mesmo com a presença da mãe adotiva. Não é uma ligação biológica, mas sim emocional.”

Sullivan acredita que a pesquisa pode enriquecer linhas de estudo que busquem tratamento para a redução da dor com a atenuação também dos remédios prescritos. “Ninguém quer ver uma criança sofrer, mas as drogas opiáceas (substâncias analgésicas) são perigosas demais quando usadas em bebês, devido às propriedades viciantes. Então, o desafio continua: encontrar estímulos ambientais, alternativas, incluindo a presença materna, que possam aliviar o desconforto”, destaca.

Segundo a pesquisadora, tratamentos que priorizam o contato da mãe são adotados em clínicas e hospitais de diferentes países e apresentam ótimos resultados. “Nosso estudo foi desenhado para entender melhor como isso acontece. Essa é uma questão importante porque outras pesquisas sugerem que as reações à dor com a presença de um cuidador estão associadas a uma vida cognitiva com problemas emocionais mais tardiamente”, destaca Sullivan.

Resultados iniciais

Para o geneticista Luis Maurício da Silva, as conclusões da pesquisa são interessantes, mas precisam de mais aprofundamento. Segundo ele, a associação de mudança de comportamento dos ratinhos, mesmo ligados à observação de mudança fisiológica cerebral e da expressão de alguns genes, ainda não é uma relação de causa e efeito.

Há, portanto, a necessidade de que esse evento se repita quantidade de vezes suficiente para que a probabilidade dele de associação seja o suficiente para que, de fato, se chegue a uma conclusão final. “Afirmações como ‘a presença reconfortante da mãe faz com que a dor vá embora’ é uma conjectura e não uma relação causa/efeito”, observa o especialistas. “Isso não quer dizer que a pesquisa não tem valor. Longe disso, mas são resultados iniciais.”

Além da redução da dor, os cientistas acreditam que a reação genética à presença da mãe gera efeitos a longo prazo: reflete em um melhor desempenho do cérebro dos filhotes. Segundo Gustavo Guida, outros estudiosos da área comportamental têm analisado os benefícios emocionais desse contato, mas um novo componente somou-se a essa equação. “Não tínhamos marcadores genéticos que comprovassem essa mudança. Agora, temos”, completa o geneticista.

Sullivan ressalta que os cientistas ainda não sabem como o cérebro do bebê humano responde geneticamente ao contato materno. Mas que as hipóteses que se abriram permitem a projeção de interferências em diversas áreas de atuação médica. “Quanto mais aprendemos sobre nutrir o cérebro infantil durante a infância, mais estaremos preparados para lidar com o tratamento de problemas que surgem a partir da dor, e abuso físico e mental durante a infância.”

Desafio médico
Já nos primeiros dias de vida pode haver a necessidade de intervenções para amenizar a dor. A estimativa é de que um recém-nascido internado em unidade terapia intensiva (UTI) neonatal sofra de 50 a 150 procedimentos diários potencialmente dolorosos. Quantificar esse desconforto e usar algo que o alivie não é fácil, principalmente por causa da dificuldade de interação com o pequeno paciente. O problema segue na primeira infância. A Academia Brasileira de Neurologia, por exemplo, estima que cerca de 39% das crianças com até 6 anos já tiveram dor de cabeça. Aos 15 anos, o número chega a 70%.

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