Enfermeiras obstétricas do Sofia Feldman auxiliam mulheres no parto domiciliar

Mesmo exigindo algumas condições, escolha pelo parto domiciliar é cada vez mais frequente

por Junia Oliveira 02/01/2015 10:23

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EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS
"Hoje, no Brasil, para fazer um parto com respeito às suas vontades e ao seu tempo, tem que correr atrás", Milena Gomes, ao lado do marido, Ricardo, e do filho Raul (foto: EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS)
Não é raro ouvir histórias de mães e avós que, orgulhosas, tiveram filhos (e quantos filhos!) em casa. Sozinhas ou com parteira, porque médico era figura quase lendária, principalmente em cidades do interior. Décadas depois, a vida se modernizou e esse profissional passou de coadjuvante para ator fundamental. A cama e o travesseiro de todo dia não fazem mais parte do leito de nascimento dos bebês. O hospital e todo seu aparato passaram a significar segurança e parada obrigatória de mulheres mundo afora. Mas, em Belo Horizonte, uma equipe de enfermeiras obstetras está resgatando o passado e fazendo do que sempre foi normal algo natural.

Quem vê aquela cena poderia pensar em várias situações, menos na mais inusitada. Jovens profissionais dispensam o jaleco branco e, por isso, não denunciam ser da área de saúde. Chegam em carro próprio e rumam para casas ou sobem escadas e elevadores até os apartamentos carregadas de material e objetos diversos. Frasqueiras cheias, bola, banqueta e até uma piscina inflável. Olhando de fora, jamais se imaginaria que tanto aparato tem uma das finalidades mais nobres do mundo: trazer a vida. É assim, no peito, na raça e com muito profissionalismo, que enfermeiras obstetras do Hospital Sofia Feldman, na Região Norte de Belo Horizonte, arregaçaram as mangas há um ano para ajudar dezenas de mulheres a dar à luz em um ambiente bem aconchegante: o próprio lar.

Desde 27 de dezembro de 2013, quando o hospital lançou o parto domiciliar, 30 mulheres foram atendidas em casa. É o primeiro serviço público da capital, prestado 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O atendimento é feito por duas das cinco enfermeiras obstetras que compõem a equipe. Quando a paciente liga informando que chegou a hora, uma delas vai ao local para avaliar, fazer o exame de toque, ouvir os batimentos cardíacos do bebê, verificar se as contrações estão rítmicas e a cor do líquido amniótico, em caso de rompimento da bolsa.

HOSPITAL SOFIA FELDMAN/DIVULGAÇÃO
(foto: HOSPITAL SOFIA FELDMAN/DIVULGAÇÃO)
Se realmente a mulher tiver entrado em trabalho de parto, a outra profissional é chamada. Em casa, se a mulher quiser e tiver condições clínicas, pode optar pelo parto na água, feito numa piscina inflável. Essa é uma das alternativas para diminuir a dor, já que o procedimento é natural, sem intervenções, como anestesia ou analgésicos e substâncias para acelerar as contrações.

A enfermeira Raquel Rabelo de Sá Lopes explica que, num parto de baixo risco, não há necessidade da presença do médico. Toda a equipe é capacitada para emergências obstétricas e de pré-natal. O modelo faz parte da política de parto humanizado instituída e defendida pelo hospital. O objetivo é fazer o mínimo possível de intervenções, como ipisotomia (corte na região do períneo para facilitar a saída do bebê e evitar um rasgamento irregular durante o parto normal), aplicação de soro ou, ainda, uso de técnicas como montar na barriga da mulher para estimular o nascimento. “Muitas delas, para não passar por isso, recorreram à cesária. Aqui, buscamos a satisfação da paciente e da família”, ressalta Raquel.
EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS
Enfermeira Raquel Rabelo dá assistência a gestantes (foto: EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS)

Nascido entre nós
A fotógrafa Milena Gomes, de 32 anos, tinha pânico só de pensar no nascimento de um filho. A vida inteira ouviu que, por ser pequena, fraca e ter saúde frágil, não poderia parir. A tudo isso, acrescentava-se o horror natural a anestesia e hospitais. O medo de uma cirurgia contrastava com a vontade de ser mãe e, por isso, quando começou a planejar a gravidez, pensou logo em se preparar para encarar uma cesária. Duas semanas depois de interromper o anticoncepcional, ela engravidou. E o tempo para reflexão, de repente, se tornou curto demais.

Na internet, encontrou vários grupos de apoio a gestantes. “Hoje, no Brasil, para fazer um parto com respeito às suas vontades e ao seu tempo, tem que correr atrás. Precisei trocar de médico, porque, quando falei que queria ir para o Sofia Feldman, ele me perguntou se eu não tinha medo de meu filho nascer retardado”, conta. “Comecei a desejar o parto e o que tinha menos medo era da dor, apesar de continuar com pânico de hospital.”

O temor de o filho nascer quando ela estivesse sozinha em casa fez com que, em uma das consultas com o ginecologista, que atende pelo plano de saúde e no Sofia, fosse informada sobre o parto domiciliar, na época, em implantação. Convencer a família foi trabalho árduo para ela e o marido, o chef de cozinha Ricardo Ribeiro. No primeiro dia de trabalho de parto, uma sexta-feira, a sogra e os pais de Milena estavam presentes. A mãe, acupunturista, ajudou com técnicas para aliviar a dor. A fotógrafa também contou com o apoio de uma doula contratada para auxiliar naquele momento.

Raul veio ao mundo em um sábado, na piscina inflável instalada num quarto da casa do Barro Preto, na Região Centro-Sul de BH. Hoje, com sete meses de vida, ele é o orgulho dos pais, que recomendam a decisão para outras mulheres: “O sistema não está preparado para isso. É conveniente levar para um hospital. Quando decidimos fazer, vimos que era seguro. Tinha equipe de reanimação e o plano B, que é a Maternidade Odete Valadares, ao lado da minha casa. Não me arrependo em nada de nossa escolha”.
Arquivo Pessoal
"Estou realizadíssima como mulher, como mãe, e orgulhosa de mim", Tathiana Correa, com a família, que estava reunida em casa na hora do parto domiciliar da filha, Lara (foto: Arquivo Pessoal )

CONDIÇÕES
Mas não basta querer. Ter um filho em casa requer uma condição primordial: uma gestação de baixo risco, ou seja, não ter pressão alta ou diabetes, ter o líquido amniótico normal, gravidez única, posição normal do bebê e feto em crescimento regular. A mulher também não pode ter sido submetida a uma cesariana anteriormente, por causa de uma pequena chance, que gira em menos de 2%, de ruptura do útero. Nem ter positivo o teste que constata a existência da bactéria estreptococos, que pode causar infecções graves em mulheres grávidas e em recém-nascidos.

Assistência personalizada e a garantia de que quem começou o acompanhamento do pré-natal vai terminá-lo são algumas vantagens. Além, claro, de a mulher estar no seu cantinho. “Em casa, não há pressão do tempo. E como ela se sente mais à vontade, o parto evolui melhor. A insegurança, o medo e o fato de não estar perto de quem confia aumentam a dor”, afirma Raquel.

A enfermeira pondera que intercorrências podem se dar em casa ou no hospital. “Se o parto é domiciliar e algo ocorre, vão dizer que é porque é em casa. Mas e se for no hospital, com toda a estrutura, a culpa é de quem?”, questiona. “Mas parto humanizado é quando a mulher se sente bem, seja em casa ou no hospital.”

Experiência ‘mais linda do mundo’
Não importa o tamanho da casa nem há necessidade, previamente, de qualquer estrutura especial. Uma condição para dar à luz no próprio lar é a necessidade de a casa estar localizada a, no máximo, 30 quilômetros do Hospital Sofia Feldman. E quem faz essa opção pode ter certeza da garantia da mesma assistência oferecida na instituição, inclusive, no atendimento ao bebê. No dia seguinte ao nascimento, as enfermeiras voltam à casa para fazer os testes do olho, do coraçãozinho e da bilirrubina (que detecta icterícia).

A partir de 35 semanas de gestação, o pré-natal também é domiciliar, intercalando uma visita à casa da gestante e uma ida dela ao hospital. Essa primeira consulta serve ainda para as profissionais de saúde conhecerem a distância entre a casa e o hospital, caso seja necessário fazer a transferência da paciente na última hora, além de criar, segundo a enfermeira Raquel Rabelo de Sá Lopes, intimidade e vínculo com a família. Ela explica que, diante de qualquer intercorrência, uma ambulância do Sofia é chamada. Se o caso for tão urgente a ponto de não haver tempo para fazer a transferência, a indicação é levar a gestante ao hospital mais próximo – situação que ainda não ocorreu neste um ano do serviço.

Das 30 mulheres atendidas em casa, seis precisaram ser transferidas, por motivos diversos. No caso de duas delas, os bebês fizeram o mecônio (primeiras fezes do neném) dentro do útero, o que requer acompanhamento mais rigoroso e presença de pediatra; uma gestante quis tomar anestesia; outra estava havia mais de 18 horas com a bolsa rompida, período a partir do qual aumentam as chances de infecção; e a última foi removida logo depois do parto, porque o bebê teve dificuldade respiratória. Também são motivos de transferência: hemorragia pós-parto, alteração no batimento cardíaco do bebê e pressão alta da mulher.

Banheira Todo esse cuidado e preocupação deram à turismóloga Tathiana Corrêa de Castro, de 34 anos, segurança para ter a filha Lara, hoje com 3 meses, em casa. Ela se interessou pelo assunto depois de ver uma reportagem sobre parto na água. Ao engravidar, também procurou alternativas na internet. Ao saber do parto na banheira feito no Sofia Feldman, ela visitou o hospital e conheceu, algum tempo depois, uma mãe que havia dado à luz em casa no estande do hospital montado na feira de gestantes. “Queria algo mais íntimo. À medida que pesquisei, me interessei cada vez mais pelo parto domiciliar. Quando descobri que tinha no Sofia, me realizei.”

Com apoio do marido, Tathiana teve também dificuldade para convencer a mãe, que deu à luz os dois filhos de cesária, pois os bebês estavam virados quando a bolsa se rompeu. O medo dela era de acontecer com os netos algo parecido. Mas o exemplo da avó, que teve quatro filhos em casa e dois no hospital, falou mais alto. Tathiana entrou em trabalho de parto em pleno domingo de jogo do time do coração, o Atlético, e, por isso, conseguiu apoio de toda a família, que estava reunida no andar de cima, na casa da avó. Teve trabalho para todo mundo: um encheu a banheira, outro esquentou água e, no fim, todos ficaram do lado de fora do quarto, no mais absoluto silêncio, quebrado apenas pelo chorinho da pequena Lara.

O próximo filho ela não tem dúvidas: será do mesmo jeito. “No início do trabalho de parto, enquanto as enfermeiras não chegavam, fiquei receosa, mais por não saber o que iria ocorrer. Depois, relaxei e curti o momento. Foi a experiência mais linda do mundo. Estou realizadíssima como mulher, como mãe, e orgulhosa de mim.”

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