Regulador do ciclo menstrual, estrogênio também protege as artérias femininas e reduz o risco de doenças cardíacas

Nos homens, o acúmulo de gordura abdominal representa ameaça ao coração

por Bruna Sensêve 01/01/2015 12:00

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Sobre a longevidade feminina, um fator não tem mistério: elas vivem mais simplesmente porque são mais saudáveis. Mas isso não acontece necessariamente porque se cuidam melhor do que os homens. A maioria das espécies que se reproduzem sexualmente tem padrões diferentes para o envelhecimento. Nos vertebrados, essas distinções são mediadas pelos hormônios sexuais. Essencialmente, o estrogênio garante o ciclo menstrual; e a testosterona, o desenvolvimento dos testículos e da próstata. No entanto, a ação de ambos os esteroides ultrapassa os limites dos órgãos sexuais e interfere em quase todos os processos metabólicos humanos, inclusive na duração da vida. O estrogênio protege as artérias femininas ao mesmo tempo em que a testosterona pode levar a uma pequena redução do sistema de defesa masculino.
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O processo de envelhecimento é acompanhado por alterações hormonais, como a redução do hormônio do crescimento e dos esteroides sexuais e o aumento do cortisol. Isso significa que crescem as chances de perda de músculos e de ganho de tecido adiposo. Um processo inflamatório subclínico que acompanha esse avançar dos anos é a chave para essa questão, mas também define alguns perigos para o sexo masculino. Geralmente, após os 40 anos, os homens sofrem com o aumento da gordura abdominal visceral — muito relacionada com a ampliação do risco cardiovascular. Já as mulheres sentem um acréscimo na subcutânea, principalmente nos quadris e nos membros inferiores.

“O tecido adiposo hoje é próximo a um órgão endócrino. Ele produz várias substâncias inflamatórias e tem receptores hormonais que podem fazer toda a diferença”, garante Clineu de Mello Almada Filho, professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, uma visão sistematizada interessante dos últimos estudos na área chega à conclusão de que os homens têm um aumento da massa magra de forma geral; e as mulheres, da adiposidade. “Só que neles a adiposidade é mais visceral e hepática. Nelas, subcutânea e periférica”, compara.

O tecido visceral e hepático aumenta a resistência à insulina e promove alterações inflamatórias e em receptores importantes, elevando o risco cardiovascular. “Ou seja, o risco dos homens morrerem por doenças cardiovasculares é maior”, sintetiza Clineu Filho. A testosterona também pode ter participação nesse cenário. Ela inibe a ação de uma substância responsável por diminuir a sensibilidade à insulina. “As chances dos homens terem complicações cardiovasculares por meio da síndrome metabólica, desenvolvendo o diabetes e outras doenças degenerativas, são maiores”, complementa.

Benefícios circulatórios
Não só a testosterona sabota uma vida saudável para os homens, mas o estrogênio também garante proteção a mais às mulheres. Enquanto estão em um período de vida hormonal mais ativa, o hormônio feminino produzido atua principalmente nos vasos sanguíneos, controlando melhor a contratividade deles, ou seja, ajudando-as a ter uma administração melhor de como essas estruturas reagem às mudanças de pressão. “Enquanto é produzido, até a menopausa, existe esse efeito protetor vascular. Com a queda de produção desse hormônio, o vaso fica mais sujeito a um quadro de rigidez das paredes”, explica o geriatra João Bastos Freire Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

Essa propensão à rigidez favorece o aumento de pressão arterial e a formação de trombos e embolos. A reposição hormonal, porém, não apresenta os mesmos efeitos. Isso porque existe diferença entre o hormônio produzido no organismo e aquele administrado. Há hipóteses em torno da existência de receptores específicos que podem não gerar o mesmo efeito, mas ainda não há um esclarecimento definitivo. “Ao repor o hormônio, existem outros prejuízos que se sobrepõem aos benefícios.”

Imunossupressão
Outro efeito ruim da testosterona no organismo humano é a redução da eficiência do sistema imunológico, especialmente em adolescentes e crianças. “É uma imunossupressão que, na verdade, não chega a grandes repercussões, a não ser em áreas endêmicas, onde a pessoa pode ter infecções sérias”, observa Clineu de Mello Almada Filho, professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A ocorrência de infecções é mais alta em homens, de um modo geral. O sistema imune das mulheres é mais ativo, apesar de desregulado. Por isso também a maior prevalência de doenças autoimunes entre elas.

Uma dupla de cientistas escoceses foi responsável por um artigo publicado há alguns anos na revista Science ainda mais incisivo nessa direção. De acordo com Kenneth L. Wilson e Sarah Moore, da Universidade de Stirling, mamíferos machos são alvos maiores e mais suculentos para parasitas do que as fêmeas, e essa pode ser a razão pela qual eles têm períodos mais curtos de vida.

“Simplesmente por serem grandes, eles se expõem a mais parasitas”, diz Wilson. “Além disso, as defesas masculinas contra doenças podem ser mais frágeis do que as das mulheres.” Segundo o cientista, o hormônio testosterona é conhecido por enfraquecer o sistema imunológico, permitindo que bactérias e outros parasitas prosperem mais facilmente pelo corpo.

De câncer a derrame

Um estudo norte-americano chamado WHI (Women Health Initiative) avaliou mais de 160 mil mulheres após a menopausa, com idade entre 50 e 79 anos, entre 1993 e 1998. Elas foram distribuídas aleatoriamente em dois grupos: o primeiro recebeu uma combinação de estrogênio e progesterona em doses mais altas do que as empregadas nos dias de hoje; o segundo recebeu placebo. O trabalho estava planejado para terminar em 2005, mas foi encerrado três anos antes, em virtude de um aumento significativo de casos de câncer de mama, infarto do miocárdio, derrame cerebral e embolia pulmonar nas participantes submetidas à reposição. Ele mostrou, ainda, que a terapia hormonal reduziu o número de fraturas ósseas provocadas por osteoporose e, curiosamente, a incidência de câncer do intestino.

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