Álcool, drogas ilícitas, jogos de azar, eletrônicos, comida ou internet: é possível vencer o vício

O primeiro passo é reconhecer o problema para se tratar

por Marcus Celestino 29/12/2014 09:35

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EM/D.A Press
Se a vida social conturbada do indivíduo advém da infância, a tendência de que ele desenvolva algum tipo de vício multiplica-se (foto: EM/D.A Press)
Nove entre 10 pessoas provavelmente inserirão em suas respectivas resoluções de ano-novo tópicos como “deixar de comer em demasia”, “parar de fumar”, “deixar as bebidas de lado” ou até mesmo dedicar menos tempo aos jogos eletrônicos e de azar. Se você é um desses indivíduos e não aplicou quaisquer dos itens mencionados com o mero objetivo de cumprir uma promessa ou em puro tom de brincadeira e, de fato, faz uso excessivo desses produtos ou meios de entretenimento chegou a hora de admitir: você está viciado. O grande problema do adicto é enxergar que está corrompido, dentro de um círculo vicioso – nada inexpugnável, pois há como triunfar ante o problema.

Álcool, drogas ilícitas, jogos de azar e eletrônicos, comida e até mesmo o amor. Todos esses vícios convergem para explicações científicas que se aplicam a todas elas. Segundo o notório neurocientista da Universidade de Columbia Carl Hart, os problemas estão calcados numa vida considerada “ruim”. Se a vida social conturbada do indivíduo advém da infância, a tendência de que ele desenvolva algum tipo de adicção multiplica-se. Contudo, se Hart vai por um caminho no qual questões sociais estão à frente das demais, muitos outros cientistas atribuem a um neurotransmissor monoaminérgico a causa-mor para o desenvolvimento da doença. A dopamina, da família das catecolaminas – que engloba também a adrenalina –, tem como principal função, em uma linguagem leiga, dar “sensações prazerosas” à pessoa.

Estudos, como alguns publicados pelo estimado Journal of Neuroscience, indicam que a cocaína, por exemplo, estimula a produção do neurotransmissor. A sensação de êxtase é similar à que temos em atos sexuais ou quando fazemos quaisquer outras atividades que nos deem excessivo prazer (graças ao dopaminérgico). Com isso, se o nível de dopamina eleva-se rapidamente, o cérebro recebe quase que um aviso de que não há mais a necessidade de produzi-la posteriormente. A falta do neurotransmissor dá ao indivíduo uma alta dose de apatia, o que faz com que ele só sinta prazer novamente caso faça uso do seu “agente viciador”. Só como medida de comparação, em um estudo do fim da década de 1990, realizado pela Nature, foi constatado que a quantidade de dopamina liberada enquanto uma pessoa jogava videogame era equivalente ao de drogas estimulantes, como a metanfetamina.

“O vício em jogos eletrônicos e também em internet, essa coisa de se estar conectado todo o tempo, são bastante similares à dependência do álcool e outras drogas”, comenta Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ademais, Nabuco destaca a atual dependência dos seres humanos com os aparelhos de telefonia celular. “Um agravante desse quadro de conectividade durante todo o dia são os novos aparelhos celulares, que nos dão acesso pleno à internet sempre que quisermos”, elucida o profissional, que ainda destaca a reclusão emocional e social dos indivíduos viciados na rede.

A REDE SOCIAL
Se os indivíduos presos nas entranhas da internet têm dificuldades para desenvolver um ciclo de amizades amplo e sólido fora dos meandros da World Wide Web, aqueles que usufrem do álcool e de outros entorpecentes o fazem justamente com o principal objetivo de conseguir socializar com mais facilidade. “Tenho um paciente de 26 anos com um tumor cerebral. Em decorrência disso, ele não pode mais ingerir álcool. Ele o fazia exatamente para interagir mais facilmente com outras pessoas, por se tratar de alguém muito tímido”, comenta a psicóloga Flavia Santos.

Existem ex-dependentes que podem falar muito bem sobre isso. F., de 56 anos, membro dos Alcoólicos Anônimos (AA) e sóbrio há oito anos, iniciou sua vida no alcoolismo tal qual a maioria das pessoas, bem jovem. “Comecei em comemorações de fim de ano, devia ter uns 14, 15 anos. No Exército, a fim de socializar, passei a beber ainda mais, muita pinga”, revela. L., de 46, também via na bebida uma válvula de escape para uma vida social diferenciada. “Via uma oportunidade de me tornar uma pessoa diferente, de conseguir interagir tranquilamente com os outros.”

Além do álcool, E., de 66, sucumbiu aos jogos de azar, presentes nos botecos e que serviam também para maximizar a socialização tão almejada. “Bebia para dançar, jogar, mas percebi que tudo era apenas um pretexto, uma saída justificável para a ingestão do álcool”, frisa. É importante destacar que todos conseguiram trespassar o limiar da doença e obtiveram melhorias consideráveis em seus quadros graças ao processo de 12 passos do AA. Adaptado para tratar diversos outros vícios, a dúzia de atos age diretamente no psicológico do paciente por tratar no primeiro tópico logo do fator mais complicado: admitir o problema. “O trabalho inicial da psicologia é ajudar a pessoa a reconhecer (a doença). Ela entra num conflito e temos de observar de forma minuciosa o que se passa pela cabeça do paciente antes de aceitar essa situação autodestrutiva”, ressalta a psicóloga Flavia.

“PRO GAMBLER”
E quando você vive de algo em que já desenvolveu um vício? Para G., de 34, jogador profissional de pôquer, admitir a doença não foi nada fácil. “Desde pequeno me aventurava na internet em sites. Ficava às vezes até 14 horas jogando vários jogos, do blackjack ao pôquer, que hoje é o meu sustento”, afirma. G. teve de passar por tratamento psicológico e psiquátrico a fim de contornar a situação. “Hoje faço meus treinamentos, disputo alguns torneios e encaro apenas como um esporte. Felizmente, agora sou casado e tenho uma vida social ativa, o que não tinha na juventude”, diz o profissional.

TUDO POR AMOR

A engenheira R., de 57, aprendeu da forma mais difícil que tinha um problema. Seus excessivos rompantes de ciúmes contra o ex-marido a fizeram, com o suporte dos familiares, procurar ajuda médica. “Brigava com ele por motivos esdrúxulos até, mas por amar demais mesmo. Depois do tratamento constatei que sofria de um problema e aprendi a me controlar”, afirma. Além de ter perdido o companheiro, R. teve a relação com os filhos estremecida. Atualmente, ela tenta retomar tais laços e está com um novo namorado – e garante que o gostar em demasia ficou no passado. Bom, “se não vai pelo amor, vai pela dor”.

BENZODIAZEPINAS e ANTIDEPRESSIVOS
Os fármacos ansiolíticos e os antidepressivos podem funcionar para aplacar uma série de problemas desenvolvidos em decorrência dos vícios. Devem ser prescritos por um profissional dependendo da situação clínica do paciente. No entanto, há de se frisar que o tratamento com as benzodiazepinas não pode se estender por muito tempo e o tratamento não pode ser interrompido abruptamente. Dependendo da dosagem e do tempo de uso esses remédios podem causar dependência química e um paciente propenso a tal pode se comprometer, substituindo um vício pelo outro.

ABSTINÊNCIA
Os adictos costumam desenvolver vários tipos de sintomas em momentos mais alongados sem a utilização de seus respectivos agentes viciantes. Alterações do humor, agressividade, náuseas, taquicardia, ansiedade extrema, insônia (ou sono excessivo dependendo do caso), disforia, compulsividade e inclusive delírios e pensamentos suicidas. É bom lembrar que o quadro pode variar conforme o vício desenvolvido pela pessoa.

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