Dá para ser feliz no Natal e réveillon longe da família?

por Bianca Baamonde 24/12/2014 09:00

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Quem se lembra de Esqueceram de mim? O filme narra as aventuras de um garoto esquecido em casa durante a viagem de fim de ano da família. Como na ficção, na vida real, passar o Natal e o ano-novo longe de casa e das pessoas amadas nem sempre é bom. Mesmo assim, há quem dê um jeitinho e faça valer a magia dessas ocasiões apesar da distância.
Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Mesmo longe de casa, a americana Kelly Gallardo se juntará ao filho e ao marido na véspera de Natal (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Festa no cartão-postal

A americana Kelly Gallardo, 45 anos, apaixonada por viagens e outras culturas, chegou ao Brasil em março para trabalhar com desenvolvimento de sistemas. Ela está na expectativa da vinda do filho, Chris, que mora na Itália, para passarem o Natal juntos. A primeira vez longe da família foi do outro lado do mundo, em Okinawa, no Japão, com o ex-marido e o filho. “A cultura era completamente diferente e era o meu primeiro Natal longe de casa. Era também o primeiro aniversário do meu filho (ele nasceu em 25 de dezembro!), foi muito difícil. Nós fizemos um jantar e celebramos a data com alguns amigos. Tentamos fazer o máximo para ter um dia legal.”

Nos Estados Unidos, há um revezamento para receber a família na noite de Natal. “Fazemos a ceia na casa da minha mãe, na da minha irmã ou na minha, mas sempre temos que viajar, porque moramos em estados diferentes e relativamente distantes.” Kelly também ressalta a importância do Dia de Ação de Graças para os americanos. De acordo com ela, é como uma prévia da noite de Natal. “É um Natal melhorado, porque você está ali com a sua família, compartilhando coisas boas, comendo pratos preparados com carinho e não tem aquela pressão e a expectativa dos presentes”, explica. Das lembranças de infância, ela destaca: “Nós morávamos nas montanhas da Califórnia, então tínhamos neve e cookies natalinos, era sempre uma época feliz”.

Agora, Kelly, o marido e o filho vão para o Rio de Janeiro. Chris dá sempre um jeitinho de estar com eles para celebrar o Natal e o aniversário dele. Apesar da distância e da barreira do idioma (ela não sabe português), ela acredita que a festa será completa. “Sinto falta de algumas coisas, mas estou feliz por estar aqui. Não estou sozinha: tenho meu marido, meu filho, meus gatos, ótimos amigos. Com certeza, vou ter chances de celebrar o Natal com eles.”

O Bom Velhinho holandês
“Natal pra mim é sinônimo de casa cheia, família falando alto, criança correndo pela cozinha e comida suficiente pra cinco dias. Por vir de uma família grande, não consigo separar a ideia do Natal de festa, alegria e fartura. Fartura de comida, de carinho, de saudades e de novos planos”, declara a estudante de medicina Luísa Ferraço, 23 anos, atualmente estudando em Amsterdã, na Holanda.

Pela primeira vez, ela vai passar o Natal do outro lado do oceano, longe da enorme família. Acostumada a viajar, Luísa sempre se planejou para estar em casa em 25 de dezembro, para não perder a maior festa do ano. “Meus pais e minha irmã vêm me ver, não sei como seria estar completamente sozinha. Talvez fosse uma experiência e tanto, mas estou feliz por não ter que passar por ela agora. A festa de 40 pessoas vai vestir a fantasia de um jantar para quatro neste ano, mas numa cidade que acredito ser uma das mais bonitas do mundo: Paris.”

Em Amsterdã, Luísa conta, as tradições natalinas são muito fortes. Por lá, a figura central é o SinterKlaas, também de barba e cabelos brancos. Reza a lenda que SinterKlaas mora na Espanha e, no fim de novembro, viaja de barco até a Holanda, para um desfile, montado num cavalo branco chamado Amerigo. Ele deixa presentes em 5 de dezembro, dia do SinterKlaas.

A brasiliense conta que a cidade fica enfeitada desde outubro e as ruas ganham barraquinhas de doces e pistas de patinação no gelo. “As casas também têm árvore de Natal e luzinhas. Fica tudo muito bonito e a cidade, que já tem seu encanto, fica mais linda ainda quando anoitece”, confessa. “Natal significa, mais que tudo, família e esperança. Acho que essa energia de fim de ano mexe com as pessoas; todo mundo fica mais sentimental, mais aberto e mais esperançoso. Para mim, é um período para você parar e pensar também em quem era, em quem é e em quem está se tornando”, finaliza.
Arquivo Pessoal
Lucas Schwab já se habituou a passar o Natal no exterior (foto: Arquivo Pessoal )

Família em trânsito
Os irmãos Lucas Henrique, 22 anos, e Felipe Augusto Schwab, 21, são fortes candidatos a cidadãos do mundo. Lucas já computa o terceiro Natal em terras estrangeiras. No primeiro, aos 15 anos, estava longe havia quatro meses para cursar o ensino médio em Wisconsin, nos Estados Unidos. “Essa época foi a que eu mais senti saudade. Além de o momento ser propício, o inverno havia chegado mais cedo e eu não fazia nada demais enquanto minha família curtia férias na praia.” A ceia de Natal na casa do “pai americano” foi acolhedora, mas o ano-novo foi um momento de choque cultural. “Nas cidades pequenas, eles não comemoram, não soltam fogos. Eles simplesmente vão dormir, foi bem estranho pra mim. Eu passei a virada conversando com alguns amigos.”

Em 2011, Lucas estava nos Estados Unidos novamente, dessa vez trabalhando em uma rede de fast food. “O restaurante ficava em uma estrada, era bem movimentado e fechava tarde. No Natal, eu estava trabalhando. Acho que fizeram de propósito, já que eu era estrangeiro. Foi bem ruim”, relembra. O ano-novo, um pouco mais emocionante, foi em Nova York com os amigos. Apesar de ter aproveitado, ele garante: a saudade era tão grande quanto antes. “Foi uma viagem supercorrida, viajamos no dia 31 e voltamos pra casa no dia seguinte. Quando estava a caminho, meus pais me ligaram e conversamos um pouco. Sempre falava com eles e com meus irmãos”, conta.

Apesar de estar sempre saudoso, voltar ao Brasil nunca esteve nos planos dele. “Não era uma opção. Quando eu viajei, fiz uma escolha, tinha que enfrentar essas dificuldades.” As boas lembranças ficam por conta dos detalhes talvez despercebidos pelos habitantes locais. “Ver neve no Natal foi uma coisa que eu esperei muito e, de fato, foi muito legal. Parecia um filme”, reitera.

Aos 16 anos, Felipe seguiu os passos do irmão e foi hóspede da mesma família em Wisconsin. “Lá em casa, o Natal significa muita comida e conversa. No intercâmbio, não foi muito diferente, porque fui para uma festa com uma família bem grande. Não foi tão triste e solitário quanto eu pensei. Mas foi estranho, porque era a primeira vez que estava longe.” Para ele, o real significado da data é aproveitar o tempo com as pessoas importantes.

A mãe dos meninos, Cimone Schwab, 42, que nos últimos anos teve a companhia inseparável apenas do caçula, André, está sempre com o coração apertado por conta da distância. “É nesssa época que todos os familiares se reúnem, já que não moramos na mesma cidade. Apesar de estar alegre, sentia que estava faltando um pedaço de mim.” Este ano, a família se reúne na Alemanha, onde os dois mais velhos fazem faculdade.

Venezuela, um vizinho distante

Os venezuelanos Osman Sanchez e Soraya de Sanchez, ambos de 56 anos, não vão passar o Natal em casa pela primeira vez. Em compensação, um dos três filhos do casal chega a tempo de celebrar o 25 de dezembro. “É para amenizar um pouco a saudade; estamos sentindo muita falta da família e dos nossos costumes. É muito difícil, mas é o que podemos fazer”, conta Soraya.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
O casal venezuelano Soraya e Osman sente muita saudade das tradições de seu país (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
O casal tem observado as tradições brasileiras e, com a ajuda dos amigos, faz descobertas aos poucos. Soraya explica: “Vocês se reúnem no Natal e ficam mais livres no ano-novo. Para nós, é o contrário. O 31 de dezembro é uma data muito importante, nos reunimos na casa dos patriarcas e o lar fica aberto a todos, aos vizinhos e à família para desejar feliz ano novo.” Usar branco para a virada também não é comum na Venezuela, ela conta.

Por lá, a preparação começa em novembro. Eles enfeitam a casa para as festas de fim de ano em 18 de novembro. “Nessa data, a casa já está toda decorada para receber a visita da Virgem. Essa é uma tradição forte de fim de ano no nosso estado”, acrescenta Soraya, referindo-se à devoção pela Virgem de Chiquinquirá, conhecida como La Chinita, muito popular no país.

Para a preparação das comidas típicas, o chamado plato navideño — composto de hallaca (uma espécie de pastel feito com farinha de milho, frango, passas, azeitonas e preparado na folha de banana), pan de Jamón (pão de presunto) e salada de frango, cenoura, batata e maçã —, a família se reúne logo cedo. À noite, todos estão à mesa para beber vinho e desfrutar do jantar natalino. Osman ressalta a antecedência dos preparativos. “Desde novembro, nós já vamos estocando a farinha, procuramos as folhas de banana e algumas pessoas já se antecipam na preparação do pão de presunto também, apesar de ser vendido nas padarias.” A mulher completa: “Todos ficam ansiosos para dezembro chegar e poderem comer essas delícias”.

Os adornos de Natal são os mesmos, mas, no presépio, o menino Jesus só é colocado depois da meia-noite do dia 24, quando já nasceu. A pequena diferença fica por conta da troca de presentes. “Lá, nós trocamos presentes entre adultos no fim do ano como forma de confraternizar, mas os presentes no Natal são somente para as crianças”, comenta Osman. Outro ponto forte da cultura natalina venezuelana é o gênero musical chamado gaita, também reservado a essa época do ano.

Osman, que já se vestiu de Santa (Papai Noel) para tantos natais na casa dos parentes, está com o coração dividido entre o Brasil e a Venezuela. Ele mora aqui desde 2010, mas nunca havia perdido a oportunidade de regressar para as celebrações natalinas. “Natal é tempo de felicidade. Às vezes, passamos o ano todo sem ver a família e, quando voltamos, em dezembro, sentimos uma alegria muito grande. Este ano, infelizmente, não será possível”, lamenta. Soraya também não esconde a saudade. “O Natal é importante para a gente. Mas o ano-novo tem um sentido especial, sobretudo porque passamos com meus pais, que já são bem velhinhos, e cada novo ano é como um presente para eles. Temos uma música típica de ano-novo, que faz a contagem. Toda vez que a escutamos de mãos dadas para celebrar, já vem a vontade de chorar. É muito bonito”, finaliza.

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