Acreditar em Papai Noel para mais tarde se decepcionar é bom ou é ruim?

Mais do que parte da tradição natalina, a crença na existência do bom velhinho desempenha o papel de estimular a fantasia e de manter vivos os sonhos de crianças e adultos

por Zulmira Furbino 21/12/2014 09:00

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Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
A psicoterapeuta de família Cláudia Prates, com os netos Arthur e Gabriel, considera importante estimular o sonho na infância (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Naquela chuvosa noite de dezembro, as janelas da casa foram escancaradas e no peitoril havia vários sapatinhos. Era véspera de Natal e as crianças esperavam o momento em que Papai Noel passaria voando com seu trenó puxado por renas, com enormes galhos na cabeça, derramando presentes em cada casa. O chato é que, quase nessa hora, todos eram mandados para a cama e só acordavam depois que o bom velhinho havia deixado os mimos ao pé da árvore. Levantar e abrir os embrulhos coloridos, certos de que o reconchudo senhor de vermelho dera uma esticada até a casa da gente, era de longe o melhor momento do ano. Até que um dia alguém avisou que Papai Noel não existe e as ilusões foram embora com a água da chuva. Certamente você já viu esse filme.

A cada ano que passa, muita coisa muda, mas milhões de crianças continuam a ser incentivadas pelos pais a acreditar na existência do velhinho gorducho de barbas brancas que singra os céus do mundo dirigindo um trenó. Ao mesmo tempo, outros milhões de meninos e meninas mais crescidos deixam de crer na magia criada em torno desse senhor, cuja história foi inspirada em São Nicolau, um arcebispo da Turquia que, no século 3, ajudava famílias em dificuldade e despejava presentes em suas casas. Para além da lenda, sobram perguntas. Acreditar em Papai Noel para mais tarde se decepcionar é bom ou é ruim? Como explicar aos pequenos os motivos que levam o bom velhinho a ser tão generoso com as crianças mais ricas e tão comedido com as mais pobres? De onde vêm os presentes que ele distribui – da Lapônia, cidade da Finlândia onde vive, ou do shopping center mais próximo de casa?

Para a psicoterapeuta de família Cláudia Prates, mãe de dois filhos e avó de três netos, a relação das crianças e dos adultos com o Papai Noel é permeada por diferentes nuances. “Para a criança, ele é o super-herói afetivo, que acolhe no corpo e na função os sonhos infantis e estimula o bom comportamento, garantindo um prêmio pelo esforço”, observa. Para os adultos, se transformou na chance de reparar a ausência da convivência familiar no dia a dia e se tornou uma possibilidade do reencontro, ganhando um efeito de indenização. Além disso, de acordo com a psicoterapeuta, a figura do bom velhinho também reforça o machismo na sociedade, uma vez que o “bom e dadivoso” vêm da figura masculina. Para as Mamães Noéis sobra um papel de coadjuvante – e bem no fundo do palco.

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“É muito importante que algo estimule o sonho na infância. É o sonho que umedece a vida. Partimos da realidade para sonhar e isso nos mantém vivos e saudáveis”, afirma a especialista. Cada vez mais, segundo ela, o fim da ilusão relativa à existência do Papai Noel traz menos sofrimento para os pimpolhos. “Hoje, é fácil trazer as crianças de volta à realidade. O curioso é que, por isso mesmo, elas se recusam a ter certeza de que Papai Noel não existe. Nossos filhos e netos não querem que os adultos saibam que eles já sabem que Papai Noel não passa de uma fantasia”, assegura. É como se os pequenos pedissem aos pais uma “autorização” para continuar crianças por um pouco mais de tempo.

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