União de duas terapias consegue reabilitar pacientes que sofreram derrame

Segundo cientistas da Bélgica, tratamento agiliza a recuperação de problemas de linguagem e de fraqueza muscular

por Paloma Oliveto 18/12/2014 10:00

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Anderson Araújo/CB/D.A Press
(foto: Anderson Araújo/CB/D.A Press)
Principal causa de morte no Brasil, o acidente vascular cerebral isquêmico, condição caracterizada pela falta de suprimento de sangue no cérebro, costuma deixar graves sequelas nos sobreviventes. Sem oxigenação suficiente, ocorre a destruição de importantes redes de células e, em consequência, surgem problemas como dificuldade para falar e compreender o que os outros dizem, sensação de anestesia no corpo, impossibilidade de gesticular, deficits visuais e paralisias motoras.

Aliando duas abordagens já existentes, pesquisadores belgas conseguiram resultados promissores na reabilitação de pacientes que sofreram derrame e ficaram com duas sequelas bastante comuns: a afasia e a hemiparesia. A primeira relaciona-se à área da linguagem e é marcada pela inabilidade de formar e entender palavras faladas. A segunda trata-se de uma fraqueza muscular muito forte, o que acaba atrapalhando a execução de movimentos. “O AVC é uma patologia devastadora, causa restrições nas atividades do dia a dia, como limitações motoras devido à fraqueza nos membros superiores, na maior parte dos pacientes”, diz o neurologista Patrice Laloux, da Universidade Católica de Louvain e um dos autores do estudo publicado na revista Brain.

Segundo Laloux, a neurorreabilitação busca melhorar a função motora residual e restaurar a independência das vítimas de derrames, mas o impacto dessa abordagem ainda é limitado. “Por isso, estratégias inovadoras para melhorar a recuperação dos pacientes têm sido desenvolvidas, e apostamos nelas para devolver a qualidade de vida a essas pessoas.” Com pesquisadores do Departamento de Neurologia da Universidade de Namur, Laloux testou a eficácia de duas abordagens que, em separado, já têm conseguido bons resultados na reabilitação dos pacientes.

Uma delas é a estimulação transcraniana por corrente contínua, um método não invasivo usado para impulsionar a atividade dos neurônios. Alguns estudos sobre a aplicação dessa técnica em pessoas que sofreram AVCs indicam bons resultados, ressalta Laloux. Outro tratamento utilizado há muito tempo e incorporado na pesquisa belga foi o reaprendizado motor. “Em outras palavras, significa aprender a reconfigurar toda a rede cerebral associada às tarefas motoras para melhorar o planejamento, a execução e o controle dos movimentos do membro afetado. Na reabilitação pós-derrame, o reaprendizado motor desempenha uma tarefa central”, explica Yves Vandermeeren, neurologista de Namur e coautor do estudo.

Os pesquisadores recrutaram 19 pacientes para testar se, juntas, as duas técnicas ofereceriam melhores resultados que quando aplicadas separadamente. Os voluntários participaram de um experimento duplo cego — quando nem o cientista nem o participante do estudo sabe quem está recebendo o tratamento real ou o placebo — no qual executaram os exercícios de reaprendizagem enquanto ocorria a estimulação craniana por corrente contínua. Na semana seguinte, voltaram ao laboratório para verificar se tinham retido o aprendizado, isso é, se ainda conseguiam fazer os movimentos. Ao mesmo tempo, eram escaneados por ressonância magnética, um exame não invasivo que mapeia a ativação das regiões cerebrais.

Cérebro ativado
Embora a performance dos movimentos não tenha diferido muito, os 10 voluntários que, de fato, fizeram sessões de reabilitação motora enquanto eram submetidos à estimulação elétrica demonstraram uma melhor fixação do aprendizado na semana seguinte, comparado aos nove que estavam no grupo de placebo. O exame de ressonância magnética foi o que mais surpreendeu os pesquisadores. “Em apenas uma semana, houve um resultado incrível, com as regiões cerebrais ativadas quase da mesma maneira que de uma pessoa que não sofreu um acidente vascular”, diz Vandermeeren.

David Wright, neurologista da Universidade de Manchester que estuda estratégias de reabilitação pós-derrame, observa que, depois de um AVC, partes do cérebro morrem e não se recuperam mais. “Para compensar, outras regiões podem alterar suas funções a fim de tomar controle do comportamento perdido — uma forma de plasticidade cerebral”, diz. Wright, que não participou desse estudo, acredita que estratégias combinadas podem beneficiar mais os pacientes trazendo impactos significativos para a melhoria da qualidade de vida dos sobreviventes de AVCs.

“Embora pacientes com afasia tendem a recuperar de forma considerável após o derrame, a maior parte das reabilitações demora até seis meses para ocorrer e são, de certa forma, incompletas. A grande parte dos pacientes continua a sofrer importantes deficits crônicos e, para eles, o tratamento convencional mostra-se menos efetivo”, avalia Wright. “Portanto, há uma necessidade cada vez maior de desenvolver novas intervenções.” Mesmo entusiasmado com os resultados, ele observa que novos estudos com uma quantidade mais expressiva de participantes precisam ser feitos para que se confirme os achados da equipe belga.

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