Mutações genéticas aumentam risco de infarto precoce

Alterações genéticas identificadas por cientistas dos EUA interferem no metabolismo dos triglicérides e podem provocar um tipo de ataque cardíaco que é quase sempre fatal

por Paloma Oliveto 17/12/2014 15:00

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Por muito tempo, o colesterol LDL, também chamado de “ruim”, foi o grande vilão da saúde coronariana. Quase todo mundo sabe dizer ao menos aproximadamente como andam os níveis dessa gordura no sangue. Já os triglicérides costumam ser deixados de lado. Não deveriam. Eles desempenham um papel tão importante quanto — e, dependendo do caso, maior ainda — para a integridade do coração. Um estudo publicado na revista Nature revelou que raras mutações em genes associados a eles são as responsáveis pelo infarto precoce, um problema pouco frequente, mas devastador.

De acordo com os pesquisadores de Boston, nos Estados Unidos, mundialmente, somente cerca de 5% dos ataques cardíacos atingem pacientes com menos de 50 (homens) e 60 anos (mulheres). Contudo, nesses casos, os infartos costumam ser letais. O cardiologista Sekar Kathiresan, do Hospital Geral de Massachusetts e principal autor do estudo, explica que, com a idade avançada, ocorre um processo chamado circulação colateral. Esse mecanismo caracteriza-se pela abertura de pequenas artérias que passam a se conectar com vasos maiores, criando uma estrutura alternativa para a circulação de sangue e oxigênio pelo órgão. O mesmo não acontece com adultos mais jovens. Por isso, uma vez que as veias estão obstruídas, a dificuldade para recuperar o músculo cardíaco é bem maior.

Fatores como tabagismo e uso de drogas favorecem o infarto precoce. Mas não explicam totalmente o problema. Em sua carreira, Sekar Kathiresan, autor de diversos estudos na área de cardiologia, sempre se interessou em descobrir o que está por trás dos ataques do coração fora de hora. As pesquisas que ele tem realizado apontam para a mesma direção: a dos triglicérides, tipo de gordura mais comum do organismo. Normalmente, as quantidades elevadas dessa substância indicam uma alimentação pouco saudável. Variantes genéticas, porém, também favorecem o acúmulo dela no sangue e, consequentemente, estão implicadas com a formação de placas gordurosas que podem fechar as artérias.
Anderson Araújo/CB/D.A Press
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Variações raras
A equipe de Kathiresan sequenciou quase 10 mil regiões do genoma que codificam proteínas em 1.088 pacientes que sofreram infarto agudo do miocárdio precocemente e 978 indivíduos do grupo de controle, para fins comparativos. “Nós identificamos dois genes nos quais uma rara sequência de mutações era muito mais frequente naqueles que tiveram ataques cardíacos precoces”, conta o cardiologista.

No gene LDLR, as variações aumentavam até 13 vezes o risco. Já as mutações no APOA5 potencializavam 2,2 vezes. “Essas observações sugerem que, assim como o colesterol LDL, distúrbios no metabolismo dos triglicérides contribuem para os casos de infarto do miocárdio”, diz. O médico lembra que, embora muito mais frequentes em pessoas que tiveram o ataque cardíaco precoce, essas variantes foram encontradas em indivíduos do grupo de controle, indicando que eles são candidatos a sofrer um infarto.

“Há tempos, procuramos entender o que está por trás dos ataques cardíacos, além do colesterol LDL. Por três décadas, as pessoas acharam que seria um baixo HDL (o “colesterol bom”). Então, só pensavam em estratégias para aumentá-lo. Mas o que temos aqui é uma forte indicação de que o caminho está em outro lugar, está nos triglicérides”, observa o cardiologista, que trabalha com medicina preventiva. “Em nenhum momento, dizemos que o colesterol HDL ou o LDL não devem ser levados em conta quando pensamos no risco de infarto, apenas mostramos que os triglicérides são um terceiro elemento a ser considerado para a saúde do coração”, insiste o médico.

Proteção
Há poucos meses, Sekar Kathiresan publicou um estudo no jornal New England Journal of Medicine que também evidencia o papel dessa gordura na integridade cardíaca. Depois de sequenciar as regiões de codificação proteica de 3.734 pessoas, os pesquisadores identificaram uma rara mutação no gene APOC3 que, desta vez, no lugar de aumentar o risco de infarto, confere proteção contra problemas cardíacos. Normalmente, o gene cria uma proteína que inibe a remoção rápida do triglicérides da corrente sanguínea. Mas a mutação diminui a fabricação dessa proteína, fazendo com que os níveis da gordura permaneçam sempre baixo. Pessoas com a variante genética apresentam um risco 40% menor de sofrer de ataques cardíacos, observa Kathiresan.

O resultado é condizente com um estudo anterior, de 2008, que investigou a resposta do organismo à gordura presente no milkshake. Toni Pollin, professora de medicina da Universidade de Maryland, que conduziu a pesquisa, se concentrou na população Amish, grupo religioso fechado norte-americano. Segundo Pollin, 5% dos integrantes desses cristãos, que não costumam se relacionar com pessoas de fora, carregam uma mutação no APOC3. “A variante acelera a quebra dos triglicérides. Como essas partículas de gordura estão associadas ao risco aumentado de doenças coronarianas, em pessoas com a mutação, o risco é bem menor”, observa.

No estudo, os participantes tomaram um copo de milkshake com 1,5 mil calorias e fizeram diversos testes de sangue nas seis horas seguintes. Além disso, foram submetidos a um exame de ultrassom na artéria braquial para verificar como essas veias estavam lidando com a refeição altamente gordurosa. “Descobrimos que pessoas com a mutação têm muito menos calcificações arterianas. Os depósitos de cálcio nas coronárias são sinal de doença cardiovascular”, conta Pollin. Além disso, as pessoas com as variantes não exibiam níveis elevados de triglicérides após tomar o milkshake, uma comprovação de que as partículas eram rapidamente varridas do sangue.

“A descoberta dessa mutação poderá nos ajudar a desenvolver novas terapias para baixar os níveis de triglicérides e prevenir as doenças cardiovasculares”, acredita a médica. O cardiologista Sekar Kathiresan pensa a mesma coisa a respeito das variantes que descobriu. Tanto no caso das que protegem quanto das que aumentam os riscos, ele diz que poderão ser alvo de tratamentos. “As pesquisas nos forneceram um importante quadro do infarto agudo do miocárdio e também sugerem novos focos para o desenvolvimento terapêutico.”

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